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Primórdios do Horror

Momijigari e Ninin Dōjōji (1899)

O horror cultural do Japão: teatro, mito e assombração

Por Marcelo Amado 27 de fevereiro, 2026
<p><i>Momijigari </i>e <i>Ninin Dōjōji</i> (1899)</p>

Enquanto o cinema europeu inicial brincava com diabos e truques visuais, o japonês começava a levar para as telas as histórias assombradas de séculos, vindas do teatro e do folclore. O medo aqui é memória cultural. Eles não são proto-horror1 por acidente. São horror por herança.

Esses filmes deixam algo muito claro: o horror no cinema não nasceu só da imagem grotesca, dos monstros e demônios. Ele também veio da tradição narrativa que o cinema herdou de outras artes e do lendário popular.

Temos dois exemplos: Momijigari e Ninin Dōjōji, ambas produções de 1899, dirigidas por Tsunekichi Shibata.


Momijigari

Frequentemente citado como o mais antigo filme japonês preservado (ainda que em fragmentos), é considerado um dos pilares do cinema japonês.

Não foi concebido como obra cinematográfica narrativa, mas como registro performático — algo comum no início do cinema japonês. Mesmo assim, tornou-se um marco.

O filme registra uma famosa peça kabuki estrelada por Ichikawa Danjūrō IX, um dos maiores nomes do teatro japonês. Na peça, um guerreiro encontra uma mulher misteriosa durante a contemplação das folhas de outono. Aos poucos, descobre que ela é um demônio disfarçado, tentando enfeitiçá-lo. O confronto final envolve possessão, revelação monstruosa e violência ritual — elementos que pertencem claramente ao universo do kaidan (narrativas de assombração).

No curta, o guerreiro Taira no Koremochi é seduzido por uma princesa com dança e sake, levando-o ao sono encantado. Mas uma divindade manda um deus da montanha para advertir o guerreiro, revelando que ela é um demônio disfarçado. Armado com uma espada sagrada, Kogarasu Maru, Koremochi enfrenta a criatura num duelo simbólico entre humano e o sobrenatural.

Visualmente, tudo ainda é teatral, frontal, estático. Mas o conteúdo — demônio oculto sob forma humana — é puro horror folclórico.

Shibata filmou a cena em novembro de 1899, usando uma câmera importada da Gaumont, num espaço aberto atrás do Kabuki-za em Tóquio, com os famosos atores Onoe Kikugorō V e Ichikawa Danjūrō IX.

Há registros que citam que embora tenha sido produzido em 1899, só foi revelado ao público depois da morte de Ichikawa Danjūrō — que ocorreu em setembro de 1903, devido a um acordo feito com o ator.

(Fragmentos recuperados podem ser assistidos aqui)


Ninin Dōjōji

Junto com Momijigari, esse filme também foi um marco. Infelizmente, está totalmente perdido — nem fragmentos foram encontrados.

Ele pertence ao universo da antiga lenda do templo Dōjōji e à transformação sobrenatural de uma mulher em serpente furiosa por amor não correspondido.

A história central é a de Kiyohime, uma jovem que se apaixona por um monge chamado Anchin. Rejeitada, ela se transforma em uma serpente demoníaca e o persegue até o templo Dōjōji. Lá, se enrola no enorme sino do templo e o derrete de raiva, matando Anchin sob o peso da própria fúria mítica.

A obra de Shibata não é um “filme de terror” no sentido moderno — mas captura uma performance carregada de simbolismo. Mesmo filmado de forma teatral, o conteúdo fala de forças que não pertencem ao mundo racional.

Registros técnicos indicam que Ninin Dōjōji foi provavelmente um dos primeiros filmes japoneses a ser colorido por tintagem manual, feita pela Yoshizawa Company — um detalhe importante sobre os processos técnicos do cinema inicial no Japão.

Mais uma prova de que mitos e lendas serviram como alimento para a alma do gênero de terror cinematográfico.

A estética viria depois.



Fontes de pesquisa: Kabuki 21, iMDB, Moviegoings, Who's Who of Victorian Cinema

Marcelo Amado

Marcelo Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.