Em regiões frias do norte do Japão, especialmente no Tōhoku, há relatos antigos sobre uma mulher que não adoece com o frio, não busca calor e não pode sobreviver ao contato com água quente. Ela é conhecida como Tsurara-Onna, a Mulher de Gelo — uma entidade associada a estalactites, inverno rigoroso e morte silenciosa dentro de casa.
Diferente de outras figuras folclóricas, a Tsurara-Onna não surge como monstro evidente. Ela aparece como mulher comum. O perigo só se revela quando o inverno encontra o calor.
A esposa que nunca tomava banho
Em uma das versões mais conhecidas da lenda, um homem se casa com uma mulher gentil e bela. Ele é feliz, mas logo começa a se inquietar com um detalhe: sua esposa nunca toma banho, nem mesmo nas noites mais frias. O marido teme por sua saúde e insiste repetidamente para que ela se aqueça na banheira.
A mulher reluta, evita o assunto, mas acaba cedendo. O homem prepara um banho quente e se afasta para lhe dar privacidade. O tempo passa. Horas depois, preocupado, ele vai até o local.
A banheira está vazia.
Ao redor dela, apenas fragmentos de gelo quebrados, como estalactites despedaçadas. Pouco a pouco, esses pedaços derretem e desaparecem. A mulher nunca mais é vista.
Essa versão é associada principalmente às províncias de Aomori e Niigata, no norte do Japão.
Variações regionais
Em Yamagata, a mulher não é levada ao banho. Em vez disso, entra na cozinha para aquecer saquê para o marido. Após uma longa espera, ele vai procurá-la e encontra apenas cacos de gelo espalhados pelo chão.
Em Akita, a história muda levemente: um casal abriga uma jovem viajante durante o inverno. Contra sua vontade, ela é conduzida ao banho quente. O resultado é o mesmo — gelo quebrado, desaparecimento e morte implícita.
O punhal de gelo
Outra versão da lenda segue um caminho mais violento.
Nela, o homem não força a esposa a se aquecer. Eles vivem juntos durante todo o inverno em harmonia. Com a chegada da primavera, porém, a mulher começa a demonstrar inquietação. Um dia, ela simplesmente desaparece, deixando a porta da casa aberta.
O homem acredita ter sido abandonado. Com o tempo, refaz a vida, casa-se novamente e leva a nova esposa para a mesma casa. O verão passa sem incidentes.
Quando o inverno retorna, o homem percebe uma estalactite anormalmente grande se formando no beiral da casa. Ao sair para observá-la de perto, ele vê sua antiga esposa — tomada por ódio por ter sido substituída.
Momentos depois, a nova mulher ouve um grito vindo de fora. Ao sair, encontra o marido morto, com uma grande estalactite atravessando sua cabeça pelo olho.
O que se diz sobre ela
A Tsurara-Onna não é descrita como espírito vingativo comum nem como simples fantasma. Ela está ligada ao inverno e não pode sobreviver ao calor. Forçá-la a se aquecer é condená-la à destruição — e isso traz consequências fatais.
A lenda não oferece moral clara, nem redenção. Apenas repete, em diferentes regiões, a mesma ideia: há algo no frio que não deve ser levado para dentro de casa.
Fonte: Hyakumonogatari Kaidankai.