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Lendas de Arrepiar o Cóccix

Nuckelavee: a maldição viva das Ilhas Orkney

Não fale seu nome em voz alta

Por Guardião do Estronho 30 de janeiro, 2026
Nuckelavee: a maldição viva das Ilhas Orkney
Ao centro recorte da ilustração para o livro Scottish Fairy and Folk Tales. James Torrance (1859-1916)

Entre as ilhas varridas pelo vento no extremo norte da Escócia, circula há séculos a lenda de uma criatura considerada não apenas assustadora, mas abertamente nociva à vida humana e animal: o Nuckelavee. No folclore das Ilhas Orkney, ele não é um espírito travesso nem um ser ambíguo — é uma presença declaradamente maléfica, associada à doença, à fome e à ruína.

Ao contrário de muitas figuras lendárias, o Nuckelavee não surge como explicação moral ou alegoria educativa. Ele aparece nos relatos como causa direta de calamidades reais: colheitas destruídas, gado adoecendo, epidemias repentinas e períodos de seca sem explicação aparente.


Uma Forma Que Não Devia Existir

As descrições tradicionais falam de um ser híbrido, parte homem, parte cavalo, fundidos de maneira grotesca. Em sua forma mais recorrente, o corpo do cavalo sustenta um tronco humano preso às costas, como se ambos fossem um único organismo deformado.

O detalhe mais perturbador é que o Nuckelavee não possui pele. Músculos, veias e tecidos ficam expostos, pulsando sob o ar frio. A cabeça humana, desproporcional, apresenta olhos ardentes e hálito tóxico. Braços longos e flácidos arrastam-se enquanto a criatura se move.

Não há versões “suavizadas” dessa aparência nos relatos tradicionais. O horror visual é parte essencial da lenda.


Origem e Domínio

O Nuckelavee é descrito como uma entidade marinha, ligada ao oceano que cerca Orkney. Acreditava-se que ele emergia das águas para vagar pela terra firme, espalhando destruição por onde passava. Seu sopro era tido como venenoso, capaz de murchar plantações, matar animais e adoecer pessoas apenas pela proximidade.

Em comunidades fortemente dependentes da agricultura e da criação de gado, o monstro tornou-se uma explicação temida para tudo aquilo que fugia ao controle humano.

Por isso, seu nome era evitado. Falar do Nuckelavee em voz alta era visto como um risco.


Limites e Confinamento

Apesar de seu poder, a tradição afirma que o Nuckelavee tinha uma fraqueza clara: não podia atravessar água doce. Rios e riachos funcionavam como barreiras naturais, e atravessá-los era, segundo os relatos, a única forma segura de escapar.

Outra crença comum envolve a Mither o’ the Sea, uma antiga entidade marinha benévola que, durante os meses de verão, aprisionava o Nuckelavee nas profundezas do mar. Com a chegada do inverno, ele seria libertado — coincidindo, não por acaso, com o período de maior mortalidade, fome e doenças nas ilhas.


Uma Lenda de Medo Real

O Nuckelavee não é lembrado como uma história para assustar crianças. Ele pertence a um tipo de lenda mais antiga e mais crua: aquelas que nascem da convivência direta com um ambiente hostil e imprevisível.

Para os habitantes de Orkney, ele era a personificação de forças que matavam de verdade — o frio extremo, a doença, a perda do sustento. E enquanto outras criaturas folclóricas podiam proteger ou enganar, o Nuckelavee apenas destruía.

É por isso que sua presença, até hoje, permanece como uma das mais sombrias do folclore escocês.



Fontes de pesquisa: Portal dos Mitos, Mythlok, The Archaeologist

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Sou o Guardião do Estronho. Vigio o que não se encaixa, preservo o que incomoda, observo o que prefere permanecer à margem. Se quiser saber por que faço isso, minha história está à sua espera