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Lendas de Arrepiar o Cóccix

Mylingar: as crianças que não descansam

"De todas as criaturas mortas que assombraram os humanos, o Myling é o mais trágico." ~ Johan Egerkrans

Por Guardião do Estronho 07 de janeiro, 2026
<p>Mylingar: as crianças que não descansam</p>
Myling Ilustração obtida no site Villains Wiki

Os Mylingar são entidades do folclore escandinavo associadas aos espíritos vingativos de crianças vítimas de infanticídio. A crença é especialmente forte na Suécia, mas aparece com variações regionais na Noruega (onde recebem o nome de Utburd) e em partes da Finlândia e Dinamarca, atravessando tanto o período pagão tardio quanto a cristianização inicial da região.

Trata-se de um dos mitos mais cruéis e socialmente reveladores do norte da Europa, pois nasce diretamente do choque entre miséria rural, moral cristã e leis severas.


Origem e Contexto Histórico

Os Mylingar seriam as almas de bebês não batizados, mortos logo após o nascimento — quase sempre por mães solteiras, extremamente pobres ou socialmente marginalizadas. O crime, além de condenado moralmente, era punido com rigor pelas leis escandinavas entre os séculos XVII e XIX. Na Noruega, por exemplo, o Código de 1687 previa penas severas para mulheres que ocultassem a gravidez ou o parto.

Para evitar a punição e o escárnio público, os corpos eram enterrados clandestinamente:

  • sob o assoalho de cabanas;
  • sob soleiras de portas;
  • em pântanos (myr, daí o termo sueco Myrding);
  • ou em florestas afastadas.

A ausência do batismo condenava a criança a um estado liminar: nem viva, nem salva, nem morta em paz.


Aparência e Manifestações

Os relatos descrevem os Mylingar como: crianças pálidas, inchadas ou azuladas, chorosas, muitas vezes deformadas, com olhos grandes e vazios, às vezes carregando marcas do abandono ou da morte violenta.

Em algumas versões, são capazes de assumir formas animais, como: cordeiros, potros, cães ou aves noturnas, usadas para enganar viajantes solitários antes de revelar sua verdadeira natureza espectral.

O choro é quase sempre o primeiro sinal de sua presença — um som infantil, fraco e persistente, ouvido à noite ou em áreas ermas.


Comportamentos e Assombrações

Os Mylingar não são apenas almas penadas: são acusadores. Costumam cantar ou murmurar versos que denunciam o crime, como: “Minha mãe me matou; sob a soleira jaz meu corpo.”

Entre seus atos mais temidos estão: perseguir viajantes solitários, sobretudo à noite; sugar leite ou sangue do peito de mulheres, numa inversão macabra do cuidado materno; pedir carona até um cemitério ou igreja. Nesse último caso, o horror é progressivo: ao subir nas costas da vítima, o Myling torna-se cada vez mais pesado — de poucos quilos a um peso impossível. Se o carregador não alcançar solo consagrado, é esmagado ou estrangulado, afundando no chão sob o peso da criança que nunca foi enterrada corretamente.


Libertação e Apaziguamento

Há poucas formas de livrar-se de um Myling: dar-lhe um nome, reconhecendo sua existência; localizar e exumar o corpo, sepultando-o em terreno consagrado; ou, em versões cristianizadas, simular o batismo, oferecendo à alma a identidade que lhe foi negada. Esses rituais não “destroem” o espírito — apenas o libertam, permitindo que deixe de vagar entre os vivos.


Significado Cultural

O mito dos Mylingar é menos uma história de terror e mais um espelho social. Ele carrega: a culpa coletiva pela repressão sexual e moral, o medo real da pobreza extrema, e a angústia causada por leis que puniam mais a mulher do que a miséria que a cercava.

Para o imaginário cristão escandinavo, os Mylingar representam almas presas no limbo, condenadas não por pecado próprio, mas pelo pecado dos vivos.

No fundo, não são monstros.

São crianças esquecidas que se recusam a desaparecer em silêncio.



Fontes de pesquisa: Supernatural Wiki, Van Helsing Own Story WikiMythical Encyclopedia

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Sou o Guardião do Estronho. Vigio o que não se encaixa, preservo o que incomoda, observo o que prefere permanecer à margem. Se quiser saber por que faço isso, minha história está à sua espera