Manananggal é uma das criaturas mais perturbadoras do folclore filipino. Figura recorrente em narrativas rurais, ele é especialmente temido nas regiões das Visayas, com forte presença nas províncias de Capiz e Iloilo. Diferente do vampiro europeu clássico, o Manananggal não se oculta em caixões: ele se divide ao meio para caçar durante a noite.
Seu nome deriva do verbo tagalo tanggal, que significa “separar” ou “remover”, referência direta à sua característica mais grotesca.
Origens e contexto cultural
As raízes do Manananggal são pré-coloniais, ligadas ao animismo indígena filipino, onde espíritos noturnos e entidades devoradoras já faziam parte do imaginário local. Com a chegada dos espanhóis no século XVI, essas crenças foram reinterpretadas sob a ótica cristã.
Crônicas coloniais e relatos missionários dos séculos XVII e XVIII descrevem ataques noturnos atribuídos a “bruxas”, “demônios” ou “mulheres possuídas”, associando a criatura ao pecado, à heresia e à sexualidade desviada. Assim, o Manananggal passou a ocupar o mesmo espaço simbólico que as brujas europeias: uma ameaça feminina, noturna e invisível à ordem religiosa.
Aparência e transformação
Durante o dia, o Manananggal é descrito como uma mulher aparentemente comum, muitas vezes bela e discreta. Ao anoitecer, em locais isolados, ocorre a transformação:
- o corpo se separa na altura da cintura;
- o torso superior desenvolve asas semelhantes às de morcego;
- vísceras e intestinos ficam pendentes;
- a metade inferior permanece escondida, imóvel.
Já em voo, a criatura emite um som característico, descrito como “tik-tik”. Curiosamente, no folclore local, quanto mais fraco o som, mais próxima a criatura está — um detalhe que aumenta o pavor da aproximação silenciosa.
Ataques e comportamento predatório
Manananggal é uma predadora especializada. Seus alvos preferenciais são: mulheres grávidas, recém-nascidos e pessoas doentes ou adormecidas.
Utiliza uma língua longa, fina e tubular, semelhante a uma 1, para perfurar o umbigo ou a garganta da vítima. Segundo o folclore, ela suga sangue, vísceras ou até mesmo fetos, sendo responsabilizada, em narrativas populares, por abortos inexplicáveis e mortes infantis em vilas isoladas.
Esses relatos refletem medos reais ligados à mortalidade materna, doenças noturnas e perdas gestacionais, comuns em comunidades rurais sem acesso à medicina.
Proteções e formas de defesa
O folclore filipino descreve diversas formas de se proteger do Manananggal, quase sempre focadas em impedir que ele reconecte as duas metades do corpo antes do amanhecer:
- espalhar sal, alho, cinzas, vinagre ou espinhos de bambu sobre a parte inferior;
- manter luzes acesas durante a noite;
- rezas católicas combinadas com amuletos tradicionais.
Se o torso não conseguir se recompor antes do nascer do sol, a criatura morre.
Relatos, lendas e limites históricos
Apesar de histórias populares falarem em “caçadas” ou mortes reais de Manananggal — especialmente em regiões como Siquijor — não há registros históricos ou policiais confiáveis que confirmem esses eventos. Esses episódios pertencem ao campo da tradição oral e do folclore moderno, não da documentação factual.
Ainda assim, a persistência dessas narrativas mostra o quanto a figura permanece viva no imaginário coletivo filipino.
Significado simbólico
Manananggal concentra múltiplos medos sociais: a vulnerabilidade da gravidez, a ameaça invisível da noite, o medo do feminino transgressor, a fusão entre crença indígena e moral cristã.
Não é apenas um monstro: é uma figura de controle social, usada para explicar tragédias e impor vigilância sobre corpos e comportamentos.
Fontes de pesquisa: PuertoParrot.com, MythicalCreatures.info, ParanormalPOV.com, Philippine Tales