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Lendas Europeias

Árvore de Ouro e Árvore de Prata

Próximo artigo disponível em : 27/02/2026 • 00:00
Por Guardião do Estronho 20 de fevereiro, 2026

Há séculos, o folclore escocês preserva histórias em que o maravilhoso e o cruel caminham lado a lado. Árvore de Ouro e Árvore de Prata (Gold-Tree and Silver-Tree) não é um conto de fadas no sentido moderno, mas uma lenda oral ancestral, registrada no século XIX e transmitida por gerações como advertência contra a inveja, o orgulho e a destruição que nasce dentro do próprio lar.

Diferente das versões romantizadas que surgiriam mais tarde na literatura europeia, esta narrativa mantém a aspereza característica das tradições célticas, onde não há suavização do conflito nem proteção simbólica para a infância.


O Registro Escriturado

A versão mais conhecida foi coletada por Joseph Jacobs e publicada em Celtic Fairy Tales (1892), fruto de um esforço de preservação de narrativas que já circulavam oralmente há séculos nas Terras Altas da Escócia.

Estudiosos do folclore classificam a história como uma variante primitiva do tipo narrativo ATU 709, o mesmo tronco mítico que mais tarde daria origem ao conto conhecido como Branca de Neve. No entanto, aqui os elementos são mais antigos, mais simbólicos — e muito mais perturbadores.


O Espelho que Vive na Água

No lugar do espelho mágico, a rainha consulta uma truta falante que habita uma fonte. No imaginário céltico, a água é um limiar entre mundos, e os peixes são guardiões de verdades ocultas. A fonte não mente — e é justamente essa verdade que desperta o ódio da rainha ao revelar que sua filha, Gold-Tree, a superou em beleza.

Esse detalhe não é ornamental: ele reflete uma visão de mundo em que a natureza observa, julga e responde, sem piedade ou compaixão humanas.


O Crime Dentro da Família

Consumida pela inveja, Silver-Tree ordena que a filha seja morta e exige como prova o coração e o fígado da jovem. O pedido, recorrente em narrativas arcaicas, ecoa rituais simbólicos ligados à vitalidade e à identidade — partes do corpo associadas à essência da vida.

A jovem sobrevive à traição inicial, mas acaba envenenada pela própria mãe. Diferente das versões posteriores do mito, não há caçadores piedosos nem punições imediatas: há silêncio, morte aparente e abandono.


O Retorno e a Justiça Tardia

Gold-Tree é restaurada à vida não por magia divina, mas pela intervenção humana: outra mulher remove o objeto envenenado de seu corpo. Esse detalhe rompe com a ideia de destino absoluto e sugere que, mesmo em mundos regidos por forças sombrias, a ação consciente ainda pode alterar o curso dos acontecimentos.

A rainha, por fim, sucumbe à própria malícia — um desfecho comum nas narrativas folclóricas antigas, onde a punição não vem como redenção, mas como consequência inevitável.


Sobrevivência do Mito

Gold-Tree and Silver-Tree atravessou os séculos porque fala de algo universal e incômodo: o perigo não vem de florestas encantadas, mas de dentro de casa.

Essa lenda não buscava entreter crianças, mas alertar comunidades. Em um mundo onde a sobrevivência dependia da coesão familiar, a inveja era vista como uma força destrutiva tão letal quanto a fome ou o frio.

Assim, o conto permanece — não como fábula, mas como vestígio de uma mentalidade antiga que via o sobrenatural não como fantasia, mas como reflexo das sombras humanas.


Gold Tree and Silver Tree

Conta-se que, em tempos antigos, vivia uma rainha chamada Silver-Tree. Todos os dias, ela se dirigia a uma fonte próxima ao castelo, onde habitava uma truta antiga e sábia. À água, Silver-Tree fazia sempre a mesma pergunta: quem era a mulher mais bela do reino?

Durante anos, a resposta foi invariável: era ela própria.

Até o dia em que a truta respondeu de outro modo. Disse-lhe que a mais bela não era mais Silver-Tree, mas sua própria filha, Gold-Tree.

A partir desse instante, a rainha adoeceu. Não de febre nem de dor no corpo, mas de inveja. A cada dia, seu estado piorava, e nenhum remédio parecia surtir efeito. Quando questionada sobre a causa de seu mal, Silver-Tree confessou que só se curaria quando a filha estivesse morta.

Ordenou então que um homem de confiança levasse Gold-Tree para longe e a matasse. Como prova, exigiu que lhe trouxessem o coração e o fígado da jovem.

O homem levou a princesa consigo, mas, tomado pela piedade, não teve coragem de cumprir a ordem. No lugar da filha da rainha, matou um animal selvagem e apresentou seus órgãos como se fossem os da jovem. Silver-Tree, convencida, acreditou que a filha estava morta e, satisfeita, recuperou a saúde.

Gold-Tree, porém, permaneceu viva. Com o tempo, deixou aquelas terras e veio a se casar com um príncipe de outro reino. Viveu por anos sem que a mãe soubesse de seu paradeiro.

Mas Silver-Tree voltou um dia à fonte. E, mais uma vez, perguntou à truta quem era a mais bela de todas. A resposta foi a mesma: Gold-Tree, sua filha, ainda vivia — e era mais bela do que nunca.

Tomada novamente pela fúria, Silver-Tree partiu em busca da jovem. Ao encontrá-la, fingiu reconciliação e ofereceu-lhe uma bebida. Gold-Tree bebeu, sem saber que o vinho estava envenenado, e caiu imediatamente, imóvel, como morta.

O príncipe, tomado pela dor, não permitiu que o corpo fosse enterrado. Mandou colocá-la em um quarto fechado, preservada, pois o corpo não se corrompia nem mostrava sinais de decomposição.

Anos depois, o príncipe tomou outra esposa. Ao conhecer o aposento onde Gold-Tree jazia, a nova rainha percebeu algo estranho: havia um objeto oculto em seu corpo, responsável pelo encantamento mortal. Com cuidado, removeu-o. No mesmo instante, Gold-Tree despertou, como se tivesse apenas dormido.

Quando Silver-Tree soube que a filha vivia outra vez, tentou fugir. Mas acabou bebendo do mesmo veneno que preparara para a jovem. Assim morreu, sem honra e sem lamento, vítima da própria malícia.

E Gold-Tree viveu, enquanto sua mãe passou a ser lembrada apenas como advertência.



Fonte: The Scottish Fairy Book, de Elizabeth W. Grierson - Projeto Gutenberg, SurLaLune, Celtic Fairy Tales/Notes and References

A saga continua...

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Sou o Guardião do Estronho. Vigio o que não se encaixa, preservo o que incomoda, observo o que prefere permanecer à margem. Se quiser saber por que faço isso, minha história está à sua espera