Há séculos, o folclore inglês é assombrado pela figura do Black Shuck (do inglês antigo scucca, que significa "diabo"). Diferente de feras fictícias, este cão mítico carrega um peso histórico documentado em crônicas que remontam ao século XII. Descrito como um animal de proporções anormais — por vezes do tamanho de um cavalo — ele possui pelagem preta e sarnenta, passos silenciosos e olhos incandescentes, vermelhos ou amarelos, grandes como pires.
O Massacre de 1577
O relato mais aterrador ocorreu em 4 de agosto de 1577, em Bungay. Durante uma tempestade violenta, o Reverendo Abraham Fleming registrou que uma fera negra invadiu a igreja local, passando por entre os fiéis com velocidade incrível. O "cão infernal" teria quebrado o pescoço de duas pessoas que oravam ajoelhadas, matando-as instantaneamente. A lenda diz que a criatura percorreu 12 milhas até a Igreja de Blythburgh, onde deixou marcas de garras nas portas de carvalho (visíveis até hoje) e vitimou mais duas pessoas.
A Origem: A Caçada Selvagem
O registro escrito mais antigo data de 1127, em Peterborough. Logo após a chegada de um novo abade, monges e moradores relataram ter visto uma "caçada selvagem": figuras negras e horrendas montadas em cavalos e bodes negros, acompanhadas por matilhas de cães pretos de olhos pavorosos. Esses seres patrulharam a região durante toda a Quaresma.
Historiadores sugerem que o mito pode ser uma forma de dar rosto aos perigos da natureza. Os ventos uivantes que sopravam do mar durante o inverno foram personificados como cães raivosos para alertar a população sobre o risco mortal de permanecer ao relento. O uivo do vento tornava-se o uivo da fera; quem não se protegia, sucumbia.
Presságio ou Proteção?
O Emissário da Morte: Na Grã-Bretanha, ele é frequentemente chamado de Cão da Perdição. Muitas lendas afirmam que contemplar a criatura é um decreto de morte; diz-se que quem o vê morrerá no prazo de um ano ou menos.
O Guardião Sombrio: Paradoxalmente, o Cão Negro possui uma faceta benevolente, agindo como um "cão de guarda sobrenatural" para mulheres ou crianças perdidas. No entanto, sua presença é tão aterradora que mesmo este ato de proteção é visto como uma experiência assombrosa.
Avistamentos "Modernos"
Mesmo após a era industrial, os encontros continuam:
- 1905: Um homem afirmou ter visto o cão se transformar em um burro antes de sumir.
- Segunda Guerra Mundial: Uma menina relatou um cão negro que entrou em seu quarto pela janela, encarou-a com olhos vermelhos e desvaneceu antes de tocar a porta.
- 1974: Um garoto de dez anos descreveu uma criatura de olhos amarelos galopando em sua direção durante a noite, um relato que persistiu mesmo após explicações racionais da família.
Seja como uma lembrança dos mitos vikings sobre o cão de Odin ou como uma manifestação do medo do isolamento rural, o Black Shuck permanece como o mais temido e resiliente dos espectros britânicos.
Fonte de pesquisa: Por dentro da lenda arrepiante de Black Shuck, por William DeLong, Villains Wiki