Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Cinema Mudo

Estrelas do Cinema Mudo

Lillian Gish

A primeira dama do cinema americano

Por Marcelo D. Amado 26 de janeiro, 2026
<p>Lillian Gish</p>
Lillian Gish (1921) Bain News Service

Lillian Diana Gish nasceu em Springfield, Ohio, em 14 de outubro de 1893 em Springfield, Ohio. Sua infância foi marcada pela instabilidade familiar devido ao alcoolismo de seu pai, James Leigh Gish, que abandonou a família, deixando sua mãe, Mary Gish, com o desafio de sustentar as duas filhas. A família se mudou para East St. Louis em Illinois, indo morar com os tios de Lillian, Henry e Rose McConnell.


Mary Gish, a mãe

Mary Robinson Gish, nascida em 16 de setembro de 1876, em Dayton, Ohio, antes de se casar com o vendedor viajante James Gish, assinava McConnell no sobrenome e era uma atriz de teatro, e teria feito pequenas participações como figurante em quatro produções do cinema entre 1912 e 1918, período que as filhas já estariam atuando no cinema.

Mas voltando um pouco ao drama familiar, vale destacar aqui uma informação que é fruto de divergências nas fontes pesquisadas sobre a vida de Lillian: por um lado, relatos de que mãe e filhas se mudaram para East St. Louis em Illinois ─ indo morar com os tios de Lillian, Henry e Rose McConnell ─, depois que James as abandonou. E que, enxergando uma boa oportunidade, Mary resolveu abrir uma loja de doces e pipocas bem ao lado do Majestic Theater, a Majestic Candy Kitchen. 

Mas algumas fontes indicam que essa loja já era propriedade de James Gish, e que a família já estaria morando em East St. Louis quando tudo aconteceu, e que Mary teria apenas assumido o comércio e não tendo a iniciativa de abrir por conta própria.

Mary Gish faleceu em 17 de setembro de 1948, já inválida, com sérios problemas de saúde.


O início de carreira das irmãs Gish

Algumas fontes apontam que as irmãs teriam ido morar com outra tia, Emily, por volta de 1910 em Massilon, Ohio. E que teria sido nesse período, na St. Henry's School, que elas começaram a ter contato com o teatro, atuando em peças escolares. Mas há apontamentos de que elas começaram a atuar em pequenas peças de teatro ainda em St. Louis.

O teatro ao lado da casa de doces pegou fogo. Era o principal ganha pão da família. Com isso, mãe e filhas se mudaram para Nova York, onde as irmãs Gish viraram boas amigas de uma vizinha, uma tal Gladys Smith, que mais tarde viria a se tornar a estrela Mary Pickford.

Lillian e Dorothy Gish continuaram se dedicando ao teatro e passaram a viajar, muitas vezes separadas, em turnês com suas respectivas companhias. Ambas também fizeram trabalhos como modelos, e Lillian trabalhou posando para o artista Victor Maurel, em troca de aulas de canto. Também dançou com Sarah Benhardt em uma produção em Nova York.

Dorothy e Lillian Gish em 1920 - Lillian dirigindo a irmã em Remodeling Her Husband

Em 1912, as irmãs foram à Biograph Studios por indicação da amiga Gladys, já famosa.

D. W. Griffith gostou de ambas, contratando-as de imediato e Lillian e Dorothy estrearam em An Unseen Enemy (1912). Nesse período, Lillian não apenas atuava, mas aprendia tudo sobre a montagem e a técnica. Griffith era um mentor exigente. Para conseguir reações reais de pânico em Lillian, ele chegava a disparar armas com balas de festim no set sem aviso prévio.

Depois de suas atuações em The Musketeers of Pig Alley (1912) e The Mothering Heart (1913), Lilian conquistou muitos admiradores. Pelo seu talento e por ser a mais popular das irmãs, se tornou a musa de D. W. Griffith, estrelando The Birth of a Nation (1915) e Intolerance: Love's Struggle Throughout the Ages (1916). 

Lillian Gish (1921)


A dedicação perigosa

O nível de dedicação de Lillian em suas atuações beirava o absurdo. Em Broken Blossoms (1919), para a cena em que seu personagem está aterrorizado dentro de um armário, ela girou e gritou com tamanha intensidade que o próprio Griffith ficou em silêncio absoluto no set, impressionado com a força daquela jovem de aparência tão frágil.

O ponto alto de sua coragem física foi em Way Down East (1920). Durante as filmagens da cena do rio, ela insistiu em não usar dublês. Ficou deitada sobre o gelo por horas; seu cabelo congelou na água e ela teve que ser solta com água quente. Como resultado, Lillian perdeu parte da sensibilidade em vários dedos da mão para o resto da vida devido às queimaduras de gelo.

Em outra ocasião, ao se preparar para a personagem de La Bohème (1926), Lillian teria ficado três dias sem beber e sem comer, chegando ao ponto que o diretor, King Vidor, temesse que a atriz seguiria os passos da personagem, chegando à morte.

Lillian, em Way Down East (1920) na cena que lhe rendeu as queimaduras nos dedos


Em 1922, sentindo que Griffith estava estagnado, Lillian tomou as rédeas de sua carreira. Ela assinou com a Tiffany Productions e, posteriormente, em 1925, com a gigante MGM, que chegou a oferecer um milhão de dólares ─ algo que hoje equivaleria fácil a 15 ou 20 milhões. No entanto, ela recusou o dinheiro, pedindo um salário menor e uma porcentagem de bilheteria. Em troca, o estúdio deveria usar o recurso financeiro para aumentar a qualidade da produção de seus filmes. E ela ainda teria o direito de escolher seus próprios diretores e roteiros. Foi nesse período que ela trouxe o diretor sueco Victor Sjöström para dirigir The Scarlet Letter (1926) e The Wind (1928), filme que ela considerava sua melhor obra no cinema mudo, embora tenha sido considerado quase um fracasso comercial.

Lillian se aventurou um pouco como roteirista em duas ocasiões; e codiretora, em uma oportunidade, ao lado de D. W. Griffith em Remodeling Her Husband (1920), onde dirigiu sua irmã Dorothy.


Vida pessoal e o fim da era muda

Apesar de ter tido pretendentes famosos e um relacionamento de longa data com o crítico de teatro George Jean Nathan, Lillian nunca se casou. Ela afirmava que sua carreira e o cuidado com sua mãe e irmã preenchiam sua vida totalmente. Dorothy Gish, sua irmã, era sua melhor amiga, embora as duas tivessem personalidades opostas (Dorothy era mais extrovertida e voltada para a comédia).

Diferente de estrelas que caíram no esquecimento com o cinema sonoro, Lillian redirecionou o foco de sua carreira ao teatro, onde se tornou uma das atrizes mais respeitadas, interpretando papéis em dezenas de peças, incluindo clássicos de William Shakespeare e Anton Tchekhov.

Mas a atriz não abandonou as telas, pelo contrário: seu nome pode ser visto em mais de 40 produções no cinema e TV — incluindo participações como convidada em episódios de séries. Desde pequenas participações a papéis de destaque em títulos como Commandos Strike Again (1942, John Farrow), The Night of the Hunter (1955, Charles Laughton— com uma atuação que arrancou elogios de muitos críticos , dentre outros.

Pelo seu papel em Duel in the Sun (1946, King Vidor, Otto Brower e William Dieterle), ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante. 

Sua última aparição nas tela de cinema foi em The Whales of August (1987, Lindsay Anderson), onde interpretou a personagem Sarah Webber, atuando ao lado de Bette Davis, contracenando também com Vincent Price.


A Cruzada pela Memória

Gish dedicou suas últimas décadas a uma missão solitária: salvar os filmes mudos da decomposição. Ela viajou o mundo dando palestras, pressionando congressos e museus para que os nitratos (altamente inflamáveis) fossem transferidos para suportes seguros. Ela dizia que o cinema mudo era "a linguagem universal que poderia ter unido o mundo".


Legado e influência

Sua técnica contida e expressiva influenciou gerações posteriores de atores e foi reconhecida por críticos e historiadores como uma das maiores atrizes dramáticas do cinema mudo.

Recebeu um Oscar Honorário por sua “arte superlativa e contribuição distinta” e o prêmio de reconhecimento vitalício do American Film Institute em 1984, quando foi eleita a 17ª Lenda Feminina do Cinema Clássico Americano. Também recebeu o prêmio Kennedy Center Honors. Ela tem uma estrela na Calçada da Fama, em 1720 Vine Street.

Em 1969 escreveu sua autobiografia The Movies, Mr. Griffith, and Me (1969), seguido por mais dois títulos recheados de suas memórias: Dorothy and Lillian Gish (1973) e An Actor’s Life for Me (1987).

Lillian faleceu em 27 de fevereiro de 1993, em New York, aos 99 anos.

Ela deixou todo o seu patrimônio para a criação de um fundo de preservação das artes, garantindo que seu amor pelo cinema continuasse vivo muito depois de sua partida.


FILMES DISPONÍVEIS
The Mothering Heart (1913, D. W. Griffith)
The Birth of a Nation (1915, D. W. Griffith)
The Musketeers of Pig Alley (1916, D. W. Griffith)
Intolerance (1916, D. W. Griffith)
True Heart Susie (1919, D. W. Griffith)
Broken Blossoms (1919, D. W. Griffith)
Way Down East (1920, D. W. Griffith)
The Enemy (1927, Fred Niblo)
Portrait of Jennie (1948, William Dieterle)




Los Angeles Times - Hollywood Star Walk, Silent Era - People, Silent Films Fandom, iMDB

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.