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Cinema Mudo

Estrelas do Cinema Mudo

Pola Negri

A realeza europeia que incendiou Hollywood

Próximo artigo disponível em : 26/02/2026 • 00:00
Por Marcelo D. Amado 12 de fevereiro, 2026
<p>Pola Negri</p>
Pola Negri (1921) Foto de James Abbe (com manipulação por IA)

Pola Negri, nascida Apolonia Chałupiec em Lipno, Polônia, em 3 de janeiro de 1897, foi a tradução da sofisticação europeia no cinema mudo. Diferente das estrelas fabricadas pelos estúdios, ela chegou aos Estados Unidos com uma bagagem artística sólida, formada pela disciplina rigorosa do ballet clássico e do teatro polonês. Com suas sobrancelhas marcadas, as unhas pintadas de vermelho e um magnetismo que preenchia cada centímetro da tela.


Das dificuldades ao estrelato

Filha de uma polonesa e um imigrante eslovaco com ascendência cigana, Pola guardava com carinho as lembranças de sua infância, frisando o sentimento de estar sempre segura e cercada de amor dos pais. Em um trecho de seu diário, ela cita:

No inverno, todos nos reuníamos ao redor do fogão na cozinha, onde minha mãe, uma anfitriã maravilhosa, preparava refeições incríveis. Ela era simplesmente brilhante nesse aspecto. Cozinhava sopas tão grossas que uma colher podia ficar em pé dentro delas, fritava panquecas maravilhosas e douradas, assava pães incrivelmente saborosos e até leitões inteiros na brasa. Nossa casa se enchia constantemente com o aroma delicioso que vinha da cozinha.

Mas apesar disso, a infância de Pola não foi fácil. Após a prisão do pai pelas autoridades russas, ela e a mãe passaram por sérias dificuldades financeiras, tendo que se mudar para Varsóvia, trocando a casa grande e confortável por um pequeno quarto no sótão de uma casa, às margens do rio Mien. 

Sua mãe, apesar de não ficar sem emprego, ainda passava por dificuldades financeiras. Enquanto isso, Pola não se adaptava à escola. Era conhecida por ser arrogante, e tirava notas baixas. Dizia que aquilo não era para ela. O que gostava mesmo era de ficar fazendo acrobacias no tapete, no quintal, quando ia limpá-lo. Seus vizinhos, supostamente um casal de cantores de ópera, perceberam seus movimentos graciosos e sugeriram que a menina se inscrevesse na Escola de Balé. 

Pola foi aprovada e entrou na prestigiada Companhia de Ballet Imperial em Varsóvia. Ao contrário do que acontecia na escola, e apesar das regras rígidas de disciplina e dedicação exigidas na dança, ela se mostrou perseverante e controlada em seu temperamento impulsivo, pois encontrou algo que gostava de fazer.

Tudo parece começar a melhorar. Sua teve uma melhora na situação financeira e elas puderam se mudar para um apartamento melhor. Pola demonstrou um talento nato para a dança, o que fez com que subisse rapidamente de posição na companhia, chegando a estrelas uma produção solo, em Copppélia, de Saint-Léon.

Mas então, veio a doença. Pola foi diagnosticada com turberculose. Felizmente o diagnóstico foi feito no início dos sintomas e o tratamento surtiu efeito. No entanto, a carreira na dança ficaria prejudicada.

Durante esse período em que estava se recuperando, ela se dedicou à leitura. E um desses livros, Niedola – Burze’ (ou Miséria - Tempestades), de Ada Negri, uma poetisa italiana, impressionou tanto Pola que mais tarde ela adotaria o pseudônimo Negri em sua homenagem.

Inicialmente frustrada com sua saída da companhia, ela se interessou pela atuação e passou a ter aulas particulares. Em 1912, ela fez sua estreia no Teatro Maly, interpretando Aniela na peça Os Votos da Donzela. E aqui temos uma divergência entre fontes pesquisadas. Por um lado, a afirmação de que a estreia teria sido alvo de críticas desfavoráveis. Em outra fonte, a informação é que desde sua estreia já teria chamado a atenção positivamente para a sua atuação. De qualquer forma, sua beleza e a dedicação que demonstrava nas peças em que atuou posteriormente chamaram ainda mais a atenção da crítica e de produtores de cinema. 

Em 1914, ela estreia nas telas do cinema em Niewolnica zmyslów (Escrava dos Sentidos) com direção de Ryszard Ordynski e Jan Pawlowski, já como protagonista. Depois de participar de mais alguns filmes poloneses, e de ter construído uma certa personalidade de femme fatale com suas personagens, veio o convite para atuar em Berlim.

Mais uma divergência de informações. Algumas fontes dizem que o cinema alemão acolheu e absorveu o talento de Pola Negri de imediato. Em contrapartida, há fontes que dizem que a transição de Varsóvia para Berlim não foi fácil para Pola, e que na época, o cinema alemão não estava preparado para explorar todo o seu potencial como atriz.

Mas em 1918 veio o primeiro sucesso, Die Augen der Mumie Ma (Os olhos da múmia), com direção de Ernst Lubitsch. Essa parceria ainda rendeu outros trabalhos importantes como Carmen (1918) e Madame DuBarry (1919), cujo sucesso foi tão estrondoso que quebrou o bloqueio cultural pós-Primeira Guerra Mundial nos Estados Unidos.

Pola Negri em Niewolnica zmyslów (Escrava dos Sentidos, 1914, Ryszard Ordynski e Jan Pawlowski)


A carreira na América 

Quando voltou da Europa, Charles Chaplin comentou na imprensa, que havia visto um novo talento do cinema, se referindo, claro, à Pola. Jesse L. Lasky, diretor da Famous Players, que viria a se tornar a Paramount Pictures posteriormente, tratou de entrar em contato e convidar a atriz para trabalhar em Hollywood.

Em 1922, Pola desembarcou em Nova York como uma rainha. A Paramount Pictures sabia que tinha ouro nas mãos. Ela foi a primeira estrela europeia a receber um contrato milionário em Hollywood, estabelecendo o modelo para futuras imigrações, como as de Greta Garbo e Marlene Dietrich.

Theda Bara estava se aposentado das telas, Lillian Gish e Dorothy Gish eram as atrizes doces, Mary Pickford era a "boa menina", e Gloria Swanson era uma americana típica. Com tudo isso, Pola Negri acabou preenchendo uma lacuna de rainha vamp1 do momento.

Entre 1923 e 1928, ela fez cerca de 20 filmes, ganhando um milhão de dólares por ano. 

Uma curiosidade: Pola era gigante nas telas... mas tinha apenas 1,52m de altura.


Amores trágicos e manchetes escandalosas

A vida pessoal de Pola era tão dramática quanto seus filmes. O primeiro casamento aconteceu em 5 de novembro de 1919, com o conde Eugeniusz Dambski, o que lhe deu o título de condessa Apolonia Dąmbska-Chałupiec. Mas logo veio a separação em 1922. 

Ela teve um romance intenso com Charlie Chaplin, que rendeu ao seu término, discussões e trocas de farpas publicamente.

Foi em Rudolph Valentino que Pola teria encontrado o amor de sua vida. Ambos levavam uma vida luxuosa, regada de exibições e ostentações. Estavam apaixonados, mas então... durante uma cirurgia, Valentino morreu, em 1926.

Pola protagonizou um dos momentos mais memoráveis (e controversos) da história do cinema mudo: ela desmaiou várias vezes sobre o caixão do amante, alegando que eles estavam noivos. Muitos a acusaram de encenar o luto para ganhar publicidade, mas o fato é que, depois da morte de Valentino, a aura de "deusa intocável" de Pola começou a perder o brilho para o público, que passava a preferir figuras mais "vizinhas" e menos trágicas.

Pouco tempo depois, em maio de 1927, ela se casa com Serge Mdivani, um príncipe georgiano. O que fez com que o público reforçasse a ideia de que todo aquele drama no enterro de Valentino não passava de encenação. Desse casamento veio a gravidez, mas ela acabou sofrendo um aborto espontâneo. Tinha cogitado até interromper a carreira para se tornar dona de casa e mãe em tempo integral, algo que ela negou aceitar quando se relacionou com Chaplin, que aliás foi um dos motivos da ruptura, pois Chaplin queria uma esposa dedicada, enquanto ela queria seguir sua carreira.

Em abril de 1931 ela se divorcia de Serge. Em meados de 1940, ela se torna amiga íntima de Margaret West, herdeira de uma companhia de petróleo e artista vaudeville. Elas seguiriam morando juntas até a morte de West em 1963. Alguns estudiosos afirmam que Pola era bissexual e mantinha um relacionamento amoroso com Margaret. Nada foi provado, mas segundo a biógrafa de Rudolph Valentino, havia fortes evidências.


O som, o exílio e o legado

A transição para o cinema falado foi cruel com Pola, assim como foi com muitos de seus contemporâneos. Seu sotaque polonês carregado era considerado "excessivo" para os padrões da época. Ela voltou para a Europa, filmou na Alemanha (onde, infelizmente, também teve que lidar com a admiração indesejada de Adolf Hitler, o que gerou boatos de um caso que ela negou veementemente pelo resto da vida, vindo inclusive a processar a revista Pour Vous por publicar a respeito), e acabou retornando aos EUA para fugir da Segunda Guerra.

Pola Negri teria se aposentado oficialmente em meados da década de 40, vivendo de forma confortável graças a investimentos inteligentes em imóveis. Mas em 1964 atuou no filme The Moon-Spinners, dirigido por James Neilson, e estrelado por Hayley Mills e Eli Wallach.

Ela faleceu em 1987, aos 90 anos, em San Antonio, Texas.

Ela deixou uma imagem de mulher independente e que entendia, como ninguém, que o cinema é, acima de tudo, espetáculo.


Clique aqui para ver a filmografia de Pola Negri no iMDB


FILMES DISPONÍVEIS
Der gelbe Schein (1918, Eugen Illés, Victor Janson, Paul L. Stein)
Madame DuBarry (1919, Ernst Libitsch)
Sappho (1921, Dmitriy Bukhovetskiy)
Die Bergkatze (1921, Ernst Lubitsch)
The Eyes of the Mummy (1922, Ernst Lubitsch)
A Woman of the World (1925, Malcolm St. Clair)
Barbed Wire (Rowland V. Lee, Mauritz Stiller, 1927)
Mazurka (1935, Willi Forst)



Fontes pesquisadas: PolaNegri.com, Los Angeles Times - Hollywood Star Walk, Culture PL

A saga continua...

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Musidora

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.