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Cinema Mudo

Os Primórdios do Horror

The Miser’s Doom (1899) e Faust and Marguerite (1900)

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Por Marcelo Amado 13 de março, 2026
<p><i>The Miser’s Doom</i> (1899) e <i>Faust and Marguerite</i> (1900)</p>
Faust and Maguerite (1900)

No cinema moderno, tomamos como garantido que uma boa história pode ser contada em 90 minutos... talvez 2 horas... quem sabe 50 minutinhos, com personagens complexos, drama e efeitos. Mas lá no começo... A câmera ainda era novidade.

O público se maravilhava com o simples movimento — como já mencionei em artigos anteriores. Toda narrativa tinha que ser expressa em imagem pura, gesto e montagem mínima. E, para isso, bastavam — ou não ... 1 ou 2 minutos... quiçá 10.

Filmes como The Miser’s Doom e Faust and Marguerite são registros dessa época de descoberta — quando cineastas ousavam experimentar efeitos, narrativa condensada e até moralidade em frames que, juntos, não somavam mais que um ou dois minutos. Essa ousadia técnica e narrativa é a base sobre a qual construímos tudo depois.


The Miser’s Doom (1899)

Um dos primeiros filmes britânicos a misturar narrativa moral com fantasia sobrenatural. Conta a história simples e inquietante de um avarento visitado pelo fantasma de uma mulher pobre que ele explorou, até morrer de susto diante da aparição — um típico “conto moral” do auge do cinema silencioso.

O diretor Walter R. Booth vinha do mundo da mágica — e isso se vê na escolha do tema e no uso de efeitos (a obra original está perdida). Essa influência dos mágicos no cinema foi enorme no início, porque truques de câmera e ilusões eram a alma do negócio antes mesmo de contar histórias longas.

Embora não exista cópia conhecida hoje, The Miser’s Doom é citado por historiadores como um dos primeiros filmes a explorar um fantasma como figura central, antecipando um dos grandes temas do terror no cinema.

O especial aqui não é só o enredo moral, mas o fato de que, em 1899, cineastas já pensavam em usar a câmera para fazer você sentir — medo, crítica social e surpresa — e não apenas registrar movimento. Isso marca o começo da narrativa cinematográfica como algo mais que “mostrar coisa em movimento”.


Faust and Marguerite (1900)

Com direção de Edwin S. Porter, é um dos primeiros filmes norte-americanos a adaptar uma cena da tradição de Faust (e da ópera de Gounod) para a tela. Em pouco menos de um minuto, temos: Marguerite sentada ao lado da lareira e Fausto aos seus pés. Mephistopheles entra e dá a espada a Faust para que ele a assassine. Faust recusa. Mephistopheles executa o movimento na garganta de Marguerite. Ela desaparece instantaneamente — truque visual clássico — e Faust aparece no lugar dela.

Esse desaparecimento foi feito com truques de câmera da época — parando, substituindo a atriz e retomando a filmagem — um dos primeiros usos de efeitos especiais para contar uma história dramática.

O filme se conecta à ópera de Charles Gounod (1859), baseada na peça de Goethe. Mesmo curtíssimo, não tenta só “mostrar um truque”: evoca um momento dramático e familiar ao público, comprimindo moral e visual em segundos.

Produzido para exibição em teatros de variedades e cinemas de quiosque, foi parte da estratégia da Edison Manufacturing Company de usar temas conhecidos para atrair público ao novo meio. Registrado em copyright em fevereiro de 1900, vendido diretamente aos exibidores.

Faust and Marguerite é exemplo-chave da transição do cinema como espetáculo de truques para narrativa dramática real — ainda curtíssima, mas já apostando no poder da imagem em movimento para contar algo além do movimento em si. Prints sobrevivem em arquivos como o da Library of Congress, e o filme está em domínio público, e pode ser assistido, clicando aqui.

Nota: há outras versões, e algumas com o mesmo título, como a produção de Georges Méliès, de 1904.



Fontes de pesquisa: iMDB, Medium, Grokipedia, Dark Films Theories

A saga continua...

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Una partita a scacchi (1912)

Marcelo Amado

Marcelo Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.