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Cinema Mudo

Os Primórdios do Horror

Momijigari e Ninin Dōjōji (1899)

O horror cultural do Japão: teatro, mito e assombração

Próximo artigo disponível em : 13/03/2026 • 18:00
Por Marcelo Amado 27 de fevereiro, 2026
<p><i>Momijigari </i>e <i>Ninin Dōjōji</i> (1899)</p>

Enquanto o cinema europeu inicial brincava com diabos e truques visuais, o japonês começava a levar para as telas as histórias assombradas de séculos, vindas do teatro e do folclore. O medo aqui é memória cultural. Eles não são proto-horror1 por acidente. São horror por herança.

Esses filmes deixam algo muito claro: o horror no cinema não nasceu só da imagem grotesca, dos monstros e demônios. Ele também veio da tradição narrativa que o cinema herdou de outras artes e do lendário popular.

Temos dois exemplos: Momijigari e Ninin Dōjōji, ambas produções de 1899, dirigidas por Tsunekichi Shibata.


Momijigari

Frequentemente citado como o mais antigo filme japonês preservado (ainda que em fragmentos), é considerado um dos pilares do cinema japonês.

Não foi concebido como obra cinematográfica narrativa, mas como registro performático — algo comum no início do cinema japonês. Mesmo assim, tornou-se um marco.

O filme registra uma famosa peça kabuki estrelada por Ichikawa Danjūrō IX, um dos maiores nomes do teatro japonês. Na peça, um guerreiro encontra uma mulher misteriosa durante a contemplação das folhas de outono. Aos poucos, descobre que ela é um demônio disfarçado, tentando enfeitiçá-lo. O confronto final envolve possessão, revelação monstruosa e violência ritual — elementos que pertencem claramente ao universo do kaidan (narrativas de assombração).

No curta, o guerreiro Taira no Koremochi é seduzido por uma princesa com dança e sake, levando-o ao sono encantado. Mas uma divindade manda um deus da montanha para advertir o guerreiro, revelando que ela é um demônio disfarçado. Armado com uma espada sagrada, Kogarasu Maru, Koremochi enfrenta a criatura num duelo simbólico entre humano e o sobrenatural.

Visualmente, tudo ainda é teatral, frontal, estático. Mas o conteúdo — demônio oculto sob forma humana — é puro horror folclórico.

Shibata filmou a cena em novembro de 1899, usando uma câmera importada da Gaumont, num espaço aberto atrás do Kabuki-za em Tóquio, com os famosos atores Onoe Kikugorō V e Ichikawa Danjūrō IX.

Há registros que citam que embora tenha sido produzido em 1899, só foi revelado ao público depois da morte de Ichikawa Danjūrō  que ocorreu em setembro de 1903, devido a um acordo feito com o ator.

(Fragmentos recuperados podem ser assistidos aqui)


Ninin Dōjōji

Junto com Momijigari, esse filme também foi um marco. Infelizmente, está totalmente perdido — nem fragmentos foram encontrados.

Ele pertence ao universo da antiga lenda do templo Dōjōji e à transformação sobrenatural de uma mulher em serpente furiosa por amor não correspondido.

A história central é a de Kiyohime, uma jovem que se apaixona por um monge chamado Anchin. Rejeitada, ela se transforma em uma serpente demoníaca e o persegue até o templo Dōjōji. Lá, se enrola no enorme sino do templo e o derrete de raiva, matando Anchin sob o peso da própria fúria mítica.

A obra de Shibata não é um “filme de terror” no sentido moderno — mas captura uma performance carregada de simbolismo. Mesmo filmado de forma teatral, o conteúdo fala de forças que não pertencem ao mundo racional.

Registros técnicos indicam que Ninin Dōjōji foi provavelmente um dos primeiros filmes japoneses a ser colorido por tintagem manual, feita pela Yoshizawa Company — um detalhe importante sobre os processos técnicos do cinema inicial no Japão.

Mais uma prova de que mitos e lendas serviram como alimento para a alma do gênero de terror cinematográfico.

A estética viria depois.



Fontes de pesquisa: Kabuki 21, iMDB, Moviegoings, Who's Who of Victorian Cinema

A saga continua...

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Marcelo Amado

Marcelo Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.