Quando o cinema ainda buscava suas primeiras formas narrativas, o contato com a morte, o sobrenatural e o grotesco surgiu quase de imediato. Corpos que se movem após o fim, objetos religiosos que desafiam sua função simbólica, figuras familiares transformadas em ameaça — tudo isso já aparecia nas telas nos anos finais do século XIX. Nesse cenário de experimentação técnica e imaginação livre, alguns dos registros mais antigos do cinema mudo revelam um interesse precoce pelo estranho, pelo macabro e pelo desconforto, mesmo quando tratados com humor ou simplicidade narrativa.
Em 1898, dois curtas japoneses são frequentemente citados como algumas das primeiras manifestações do horror e do fantástico no cinema do país: Shinin no Sosei (Resurrection of a Corpse) e Bake Jizō (Jizō the Spook). Ambos são filmes perdidos, conhecidos apenas por registros históricos, menções em catálogos e relatos posteriores. Ainda assim, sua simples existência já diz muito sobre a relação precoce entre cinema e morte, corpo e espiritualidade no Japão do fim do século XIX.
Shinin no Sosei (1898)
Descrito como um curta de comédia macabra, produzido pela Konishi Honten e dirigido por Shiro Asano, o filme apresentaria uma situação simples e grotesca: durante um funeral, o fundo do caixão se rompe, o cadáver cai e — de maneira inesperada — retorna à vida.
Não há indícios de solenidade religiosa ou terror psicológico. Pelo contrário: tudo indica um tom farsesco, explorando o choque entre o ritual da morte e o absurdo físico do corpo que se move. Essa abordagem dialoga com tradições do teatro popular japonês e com o gosto da época por situações exageradas e desconcertantes.
Mesmo sem cópias sobreviventes, Shinin no Sosei é relevante por mostrar que, já nos primeiros anos do cinema japonês, o cadáver não era apenas símbolo trágico, mas também objeto de curiosidade, riso nervoso e inquietação — algo que o cinema retomaria depois sob formas muito mais sombrias.
Bake Jizō (1898)
Se Shinin no Sosei flerta com a comédia negra, Bake Jizō mergulha no imaginário espiritual japonês. O título faz referência ao Jizō, figura central do budismo japonês, associada à proteção de crianças falecidas, viajantes e almas em sofrimento. Estátuas de Jizō são comuns em estradas, templos e cemitérios — espaços naturalmente ligados à transição entre mundos.
O termo bake sugere transformação ou assombração. Assim, o filme provavelmente apresentava a ideia perturbadora de uma estátua sagrada que ganha vida, subvertendo sua função protetora e assumindo um aspecto inquietante. Não se sabe se o tom era moralizante, cômico ou verdadeiramente sobrenatural. Mas é certo que se inscreve numa tradição japonesa de narrativas em que objetos religiosos ou cotidianos se animam, revelando intenções ocultas.
Esse tema antecipa, de forma rudimentar, uma das marcas do horror japonês: a ambiguidade entre o sagrado e o ameaçador, entre proteção e punição.
Cinema Perdido, Horror Presente
Nenhum dos dois filmes sobreviveu. Como grande parte da produção cinematográfica japonesa do século XIX, desapareceram — vítimas da fragilidade do suporte, da falta de preservação e da percepção, à época, de que o cinema era entretenimento descartável.
Ainda assim, sua importância não está nas imagens que não podemos ver, mas no que representam: a constatação de que o horror cinematográfico não nasceu apenas do gótico europeu ou da literatura ocidental, mas também de tradições locais, crenças espirituais e do fascínio universal pelo corpo morto e pelo além.
Esses dois curtas de 1898 não são apenas curiosidades arqueológicas. São sinais claros de que, desde seus primeiros passos, o cinema japonês já flertava com aquilo que inquieta, perturba e desafia a fronteira entre vida e morte — um caminho que, décadas depois, produziria algumas das expressões mais singulares do horror mundial.
Fontes de pesquisa: iMDB, História do Cinema Japonês de Cunho Sobrenatural, Letterbox, EOFFTV, Medium