O horror no cinema não nasceu com vampiros consagrados ou criaturas de borracha maquiadas. Ele veio antes disso — cru, experimental, muitas vezes disfarçado de curiosidade, brincadeira visual ou simples truque de feira.
Nos primeiros anos do cinema, o medo não era um gênero. Era uma curiosidade... ou um efeito colateral.
As imagens em movimento já eram, por si só, perturbadoras. Ver corpos animados, objetos que se moviam sozinhos, figuras que apareciam e desapareciam diante dos olhos do público causava uma estranheza difícil de imaginar hoje.
O cinema mudo herdou muito do ilusionismo, do teatro de sombras, da lanterna mágica e das apresentações de magia — espaços onde o sobrenatural sempre esteve presente. Foi nesse terreno que o horror começou a se insinuar.
Não surgiu como narrativa psicológica elaborada, nem como crítica social consciente, mas como impacto visual: demônios surgindo em nuvens de fumaça, esqueletos animados, corpos que se desintegram, cabeças que explodem ou se multiplicam. Tudo meio direto, às vezes com um tom quase infantil e cômico — e justamente por isso funcionava.
Aqui, vamos falar sobre uma diversidade de diretores, atores e obras: dos mais conhecidos — e, para alguns, já batidos — como Georges Méliès
, até nomes pouco explorados por sites e canais de cinema. Aqueles primeiros curtas, muitas vezes ignorados ou tratados como curiosidades, onde o horror ainda não tinha nome, mas já tinha forma. Obras curtas, fragmentadas, às vezes cômicas, às vezes grotescas, que ajudaram a moldar o vocabulário visual do medo no cinema.
De forma alguma estou aqui para desmerecer Méliès — muito pelo contrário. Ele é, sem dúvida, um dos nomes mais importantes quando se fala em cinema e tem uma parcela significativa de responsabilidade na introdução e popularização do horror nas telonas. Não porque tenha criado o horror como o conhecemos hoje, mas porque foi quem percebeu, desde cedo, que o cinema podia materializar o impossível. Seus curtas exploram aparições, desaparecimentos, metamorfoses e figuras infernais com uma naturalidade que escancara a origem comum entre o cinema e o espetáculo mágico.
Aqui, o medo não vem da história — vem da imagem.
Antes dos monstros trágicos, havia o susto. Antes da atmosfera, o truque. Antes do horror consciente, o espanto..
Os curtas e microcurtas
Não é raro vermos sites e matérias de cinema simplesmente ignorarem os curtas-metragens dos primórdios do cinema quando tentam apresentar ao leitor as origens do horror nas telas. E aqui vou soar repetitivo: exceto, talvez, pelas obras de Georges Méliès. Muitas vezes, percebe-se quase uma obrigação de citá-lo, só para não parecer desinformado. E olha quem fala... aqui também estamos falando dele, mesmo quando a ideia é resgatar outros nomes. Enfim, doce hipocrisia de um editor e seus textos amadores... mea culpa.
Mas também não dá para omitir, por exemplo, Le Manoir du Diable (1896), filmado no estúdio do próprio Méliès e concebido totalmente com base no teatro de ilusões. Em apenas três minutos, surge aquele que é considerado o primeiro filme de terror. Três minutos que bastaram para experimentar efeitos especiais, narrativa e técnica — e ainda causar espanto, curiosidade e burburinho pelas ruas e clubes da cidade... e da cidade para o mundo.
As novas gerações provavelmente vão rir, achar ridículo, malfeito... e diminuir sua importância. Só nos resta lamentar. É assim em qualquer área — da arte à tecnologia. O ser humano nunca decepciona: sabemos o que esperar de algumas mentes pequenas. Desculpem o desabafo. Enfim, se você ainda não assistiu ou quer rever, o curta está disponível no YouTube em vários links, mas eu recomendo este aqui, do canal que reúne as obras de Méliè. Você pode aproveitar e explorar toda a sua obra. Vale dar uma olhada no Escamotage d'une dame au théâtre Robert Houdin, de um minutinho só, também de 1896.
Mas como eu disse antes, não vamos focar no Georginho. No canal indicado acima você pode se esbaldar à vontade. Falar sobre ele aqui seria chover no molhado. Há muitos sites e canais que destrincham sua obra — alguns com análises técnicas, outros com aquela pitada de arrogância típica de críticos de cinema.
No próximo artigo dessa coleção, começaremos nossa viagem... amadora, mas divertida.