Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Cinema Mudo

Estrelas do Cinema Mudo

Musidora

Por Marcelo Amado 26 de fevereiro, 2026

Confesso que, apesar de estar pesquisando sobre cinema mudo há algum tempo, o nome de Musidora só me chamou a atenção quando comecei os preparativos do retorno do Estronho ao ar.

Jeanne Roques, nasceu em 23/02/1889  em Paris, França. Diferente de muitas estrelas da época, Jeanne Roques não veio do nada. Criada em um berço de vanguarda — filha de um compositor e da pintora Marie Clémence — ela já era escritora e pintora antes de ser atriz. Essa bagagem intelectual permitiu que ela transitasse entre o cabaré e a elite literária de Paris com a mesma fluidez.


O pseudônimo

O nome Musidora não foi uma escolha comercial de estúdio, mas uma referência literária ao romance Fortunio (1837), de Théophile GautierNa obra de Gautier, Musidora é descrita como uma mulher que possui uma profundidade que os homens ao seu redor não conseguem decifrar. Ela não é apenas um "objeto", mas uma presença que impõe silêncio e admiração.

Ao adotar o nome, em 1910, Jeanne queria se distanciar das atrizes de vaudeville comuns. Ela queria ser vista como uma extensão da literatura. Nesse mesmo ano, atuou na peça de teatro A loupiotte, de Aristide Bruant

Algumas fontes citam o início da sua carreira no cinema em 1913. No entanto, há registros de participações em dois curtas anteriores a essa data: Le troisième larron (1909) e La main noire (1910, Étienne Arnaud). Na sequência, em 1914, ela atuou em Les misères de l'aiguille, de Raphäel Clamour.

Quando ela começou a trabalhar com Louis Feuillade, o nome já estava consolidado. Foi uma jogada de mestre: o público culto de Paris reconhecia a referência ao clássico de Gautier, enquanto o público popular achava o nome sonoro, exótico e magnético.

Mas há um detalhe curioso: no romance, há uma famosa cena de banho onde Musidora é observada, focando na pureza e na perfeição da forma. Jeanne Roques, ao assumir o nome, subverteu essa passividade. A sua Musidora não seria apenas observada; ela seria a caçadora.


A ascensão de Musidora

A consagração definitiva veio em 1915, quando Louis Feuillade a escalou para o seriado Les Vampires. No papel de Irma Vep — um anagrama para vampire — Musidora não apenas consolidou o arquétipo da "vamp" na Europa, mas o transformou completamente. Enquanto Hollywood apresentava figuras estáticas como Theda Bara1, Musidora trazia uma vilã atlética e independente.

Curiosamente, apesar de, até então, ter atuado em cerca de vinte produções, Feuillade não a notou no cinema, e sim no espetáculo A Revue Galante, no Folies Bergère — uma espécie de cabaré, muito popular entre os anos 1890 até meados da década de 1920.

Em 1917, ela estrela outro seriado de cinema, Judex, também dirigido por Louis Feuillade, que também alcançou considerável sucesso.

"Não basta ter uma roupa preta. É preciso ter a alma da cor da roupa. E nada impede que, ao deixar o estreito invólucro de seda preta, você recupere uma alma que sempre foi pura sinceridade, temerosa, infantil e eternamente incrédula." (Musidora)

Para André Breton e Louis Aragon, ela era a "Décima Musa", uma figura hipnótica que subvertia a lógica burguesa ao invadir o cotidiano de Paris em seu icônico macacão de seda preta. Essa devoção era tamanha que os poetas chegaram a escrever a peça Le Trésor des Jésuites (1928) em sua homenagem, enxergando nela o "maravilhoso cotidiano": a ideia de que o mistério e o perigo não estavam em mundos distantes, mas escondidos atrás de qualquer porta comum em uma rua parisiense.

No entanto, Musidora recusava-se a ser apenas um objeto de admiração masculina ou um ícone estático. Sua inquietude intelectual a levou a uma das parcerias mais profundas e menos exploradas da história do cinema: sua colaboração com a escritora Colette (Sidonie-Gabrielle Colette). Compartilhando uma visão feminista de mundo, as duas criaram um ciclo de produção feminina quase inédito para a década de 1910. Colette, conhecida por sua crítica ferrenha às adaptações de seus livros, entregou seus textos a Musidora por confiar em sua sensibilidade única, resultando em obras como La Vagabonda e La Flamme Cachée. Esse desejo de controle sobre a própria narrativa foi o que a impulsionou a ir além da atuação. 

Em tempo, vale dizer que aqui no Estronho não nos importamos com nenhum movimento ou ideologia. Nosso foco é o cinema e literatura, e a importância de figuras como Musidora, Colette e tantas outras personalidades que veremos aqui nessa série de artigos. Não traçamos opiniões, apenas trazemos os registros. Continuando...

Em 1918, Jeanne fundou a Société des Films Musidora, assumindo as rédeas do roteiro, da montagem e do orçamento de suas produções. Essa independência a levou até a Espanha entre 1920 e 1924, onde, movida por uma paixão pelo rejoneador2 Antonio Cañero, produziu e dirigiu uma trilogia que desafiava os gêneros da época. Em La Tierra de los Toros (1924), Musidora antecipou linguagens modernas ao utilizar a autoficção: ela interpretava a si mesma como uma cineasta enfrentando as dificuldades de filmar em solo estrangeiro, quebrando a "quarta parede" décadas antes de isso se tornar um recurso comum no cinema de autor.

Um ponto curioso é que Musidora optou, na época, por omitir nos créditos de alguns roteiros e direções, para destacar seu nome apenas como a estrela dessas obras. No entanto, mais tarde, ela veio a reivindicar suas autorias e coautorias, o que hoje está bem documento e devidamente reconhecido.

Mas apesar de seus filmes terem boa aceitação pelos críticos da época, em geral eles acabavam em prejuízo para a sua companhia. Fontes divergem sobre os motivos, indo de problemas e falhas contratuais até fracassos de bilheteria.


De volta à França

Em 1926 ela retorna à Paris e interpreta Delilah, no filme Le berceau de dieu, com direção de Fred LeRoy Granville, que acabou sendo seu último trabalho no cinema. Depois de se casar, em 1927, com o médico Clément Marot, ela se dedicou exclusivamente ao teatro até meados de 1952.

Jeanne escreveu duas novelas: Arabella et Arlequin (1928); e Paroxysmes (1934), além de muitas canções e um livro de poemas, chamado Auréoles (1940)


O fim da era muda

Musidora não permitiu que o tempo a transformasse em uma relíquia amarga, como aconteceu com muitas atrizes e atores. Em vez do ostracismo, ela escolheu a preservação. A partir de 1946  algumas fontes citam 1944 , iniciou uma fase crucial ao lado de Henri Langlois na Cinémathèque Française, tornando-se uma "guardiã da memória". Como uma das funcionárias mais dedicadas do acervo, ela utilizou seu prestígio para localizar pioneiros esquecidos e extrair depoimentos que, de outra forma, teriam se perdido.

Musidora viveu seus últimos anos entre poemas e arquivos, falecendo em 7 de dezembro de 1957 em Paris.


Uma curiosidade

Há uma certa confusão em vários sites de pesquisadores e amantes do cinema ao creditar a imagem abaixo, como sendo Musidora na série Les Vampires. De fato, a série confere. No entanto, essa cena é de outra personagem, Marfa Koutiloff, a dançarina do episódio 2, La bague qui tue, interpretada por Stacia Napierkowska. Musidora só participa do terceiro episódio em diante. Creio que a confusão se dê pelo figurino, e pelo fato de que os episódios da série foram recuperados em 2012. Até então, nem todos tinham acesso às cópias preservadas e não perceberiam o contexto dessa cena, chamada de A Dança da Vampira ─ Lembrando que Les Vampires, nada tem a ver com vampiros. Na série, esse é o nome da gangue de assaltantes que aterroriza a cidade.

Atriz e dançarina Stacia Napierkowska, confundida com Musidora na cena da Dança Vampira.


Onde assistir

É possível encontrar títulos completos no YouTube, além de fragmentos de algumas obras. As séries Les Vampires e Judex foram completamente restauradas, e você pode conferir os episódios abaixo ─ leia mais sobre os seriados de cinema em nossa série de artigos Maratona Silenciosa.

LES VAMPIRES - (1915) EPISÓDIOS DISPONÍVEIS
Título Original
01 La tête coupée
02La bague qui tue
03Le cryptogramme rouge
04Le spectre
05L'evasion du mort
06Les yeux qui fascinent
07Satanus
08Le maitre de la foundre
09L'homme des poisons
10Les noces sanglantes

JUDEX - (1916) EPISÓDIOS DISPONÍVEIS
Título Original
-Prologue
01 L'ombre mystérieuse
02L'expiation
03Lamente fantastique
04Le secret de la tombe
05Le moulin tragique
06Le môme réglisse
07La femme en noir
08Les souterrains du Chatêau-Rouge
09Lorsque l'enfant parut
10Le coeur de Jacqueline
11L'Ondine
12Le pardon d'amour

OUTROS VÍDEOS
La tierra de los toros (1924, Musidora)
Sol y sombra (1922, Jacques Lasseyne, Musidora, José Sobrado de Onega)
Vicenta (1920, Musidora) - Fragmento de cerca de 19 minutos ─ de um total de 51 do filme original ─, recuperado pela Cinematheque Française.




Fontes de pesquisa: Cinematheque, Women Film Pioneers, Silent Era, Internet Archive

Marcelo Amado

Marcelo Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.