Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Cinema Mudo

Maratona Silenciosa
1 — Vista-se com elegância: vamos ao cinema acompanhar os seriados

Esperando o próximo episódio

Por Marcelo D. Amado 05 de janeiro, 2026
1 — Vista-se com elegância: vamos ao cinema acompanhar os seriados
The Exploits of Elaine (1914)

Série ou seriado?

Antes de avançarmos, seria interessante esclarecer a distinção terminológica — confusão comum até mesmo entre críticos e historiadores. Uma série é composta por episódios interligados por um arco narrativo contínuo, no qual os acontecimentos se acumulam e transformam a história ao longo do tempo. Existem, naturalmente, variações dentro desse modelo. Algumas são antológicas, renovando completamente trama, personagens e ambientação a cada temporada — como American Horror Story (2011–), Black Mirror (2016–) e True Detective (2014–). Outras mantêm uma linha narrativa contínua por anos, como Game of Thrones (2011–2019), The Walking Dead (2010–2022), Stranger Things (2016–) e Fallout (2024–).

Já os seriados — também chamados de produções procedurais — não dependem rigidamente da continuidade. Neles, o conflito central costuma ser resolvido dentro do próprio episódio, permitindo que o espectador assista a capítulos avulsos sem prejuízo da compreensão geral. Exemplos clássicos incluem Bonanza (1959–1973), Ultraman (1966–), Zorro (1957–1959), Law & Order (1990–) e CSI (2000–2015), entre muitos outros.

Aqui cabe uma observação interessante: Black Mirror não seria, então, um seriado, já que suas histórias se encerram em um único episódio?1 À primeira vista, sim. Contudo, o conceito clássico de seriado pressupõe personagens fixos e, na maioria das vezes, cenários recorrentes, algo que Black Mirror deliberadamente evita. Ainda que existam referências cruzadas, reutilização de empresas fictícias ou menções sutis entre episódios, cada narrativa é autônoma. Por isso, a produção se encaixa com mais precisão na categoria de série antológica.

Feita essa distinção ─ que, sejamos honestos, pouco importa a quem apenas gosta de assistir ─, podemos avançar.

Embora os exemplos citados sejam contemporâneos — escolhidos aqui apenas para facilitar a compreensão —, a série de artigos Maratona Silenciosa volta-se para as produções seriadas feitas para o cinema, com ocasionais incursões pelo rádio e pela televisão.


Serial, capítulo e o nascimento do cliffhanger

No cinema clássico, o termo mais utilizado não era “série” ou “seriado”, mas simplesmente serial ou chapter play. Cada episódio era chamado de chapter, exibido semanalmente, quase sempre encerrado com o herói em perigo iminente. Dessa prática nasceu um termo que atravessou gerações: cliffhanger — literalmente, “pendurado no precipício”.

O objetivo era simples e eficiente: garantir o retorno do público na semana seguinte. Se hoje o espectador clica automaticamente em “próximo episódio”, no início do século XX ele precisava voltar ao cinema para descobrir como o protagonista escaparia de mais uma armadilha aparentemente fatal.


A origem do hábito de "maratonar"

A paixão por narrativas seriadas não nasceu com o streaming — nem mesmo com a televisão. Embora a Netflix tenha popularizado o termo “maratonar”, esse comportamento já encantava nossos antepassados muito antes da existência da TV.

É preciso, contudo, fazer uma observação importante. Obviamente, o público do início do século XX não “maratonava” episódios como fazemos hoje, assistindo a vários capítulos em sequência. O que existia era uma maratona diluída no tempo: o compromisso semanal, quase ritualístico, de retornar ao cinema para acompanhar o próximo capítulo da história. Não se tratava de consumo contínuo, mas de fidelidade contínua — e o efeito psicológico era o mesmo. E a espera fazia parte da experiência.

Os serials eram exibidos regularmente aos fins de semana, atraindo famílias inteiras às salas de projeção. Paralelamente, as séries de rádio reuniam ouvintes em torno de aparelhos valvulados que, além de funcionais, eram verdadeiras peças de mobiliário e orgulho doméstico.

A origem dessa estrutura, porém, é literária. No século XIX, autores como Charles Dickens e Alexandre Dumas publicavam romances extensos de forma fragmentada em jornais e revistas — os famosos folhetins. Cada capítulo terminava com um gancho narrativo, obrigando o leitor a comprar a edição seguinte. O mecanismo psicológico era o mesmo: expectativa, ansiedade e fidelização. Do jornal para o rádio, e do rádio para o cinema, o salto foi natural.


Economia, matinês e o público juvenil

Os seriados cinematográficos também obedeciam a uma lógica econômica muito clara. Eram, em geral, produções de baixo custo, com cenários reaproveitados, elencos fixos e estruturas narrativas padronizadas. Em troca, garantiam algo precioso para os exibidores: frequência semanal.

Essas produções encontraram terreno fértil nas matinês, especialmente voltadas ao público infantil e juvenil. Ir ao cinema todo sábado tornava-se um ritual, e personagens como Flash Gordon, Buck Rogers, Zorro e Tarzan cresceram não apenas como heróis de aventura, mas como mitos formadores de gerações. Muitos adultos, vale lembrar, acompanhavam essas sessões “por tabela” — e acabavam igualmente fisgados.


O cinema e o pioneirismo na televisão

O cinema foi o grande responsável pela consolidação visual das narrativas seriadas. Ainda na era muda, produções de enorme popularidade estabeleceram o formato, como The Perils of Pauline (1914), The Son of Tarzan (1920) e Tarzan: The Tiger (1929), entre muitas outras que serão abordadas ao longo desta série... desde 1908, diga-se de passagem, no cinema francês ─ apesar dos americanos dizerem que o primeiro serial no cinema seria uma obra deles de 1912.

No entanto, é impossível ignorar o papel da televisão nesse processo de herança e transformação do formato. Cabe aqui uma pequena curiosidade ─ ou provocação...

Existe um mito amplamente difundido — replicado inclusive por sites especializados e pesquisadores renomados — de que I Love Lucy (1951) teria sido a primeira série da história da TV. Embora Lucille Ball tenha sido, de fato, uma figura revolucionária na linguagem televisiva, seria historicamente mais preciso conceder o título de primeira série à produção inglesa Pinwright’s Progress, exibida pela BBC de Londres entre 29 de novembro de 1946 e 16 de maio de 1947. Com dez episódios de trinta minutos, transmitidos ao vivo, a série acompanhava o cotidiano da menor loja de departamentos do mundo, a fictícia Macgillygally’s, estrelada por James Hayter.

I Love Lucy herdou a fama não por pioneirismo cronológico, mas por ter sido o primeiro grande fenômeno global de audiência, além de introduzir inovações técnicas decisivas: a gravação em filme de 35mm, o uso de um sistema de três câmeras e a presença de plateia ao vivo, sob a produção de Lucille Ball e Desi Arnaz

Quando a televisão se popularizou, sobretudo a partir dos anos 1950, ela não precisou inventar quase nada. Herdou do cinema a estrutura episódica, os ganchos narrativos, os arquétipos de personagens e até profissionais inteiros — roteiristas, diretores e atores migraram naturalmente para o novo meio. O cinema, por sua vez, aos poucos abandonou o formato seriado. Passou a concentrar seus esforços nos longas-metragens.


Considerações finais

É praticamente impossível catalogar todos os seriados cinematográficos produzidos ao redor do mundo — até porque muito material se perdeu ao longo do tempo, especialmente em países que pouco fizeram, ou ainda fazem, para preservar sua história cultural, como o Brasil, por exemplo.

Esta série de artigos, portanto, apresenta uma seleção feita com muito esforço e dedicação — uma pesquisa amadora, diga-se — iniciada muito antes do surgimento das IAs como ferramentas de apoio. Evidentemente, hoje faço uso desses recursos para consolidar e complementar informações, mas essa investigação começou por volta de 2015, na mesma época em que iniciei minha pesquisa sobre o humor no cinema mudo — tema que rende outra história à parte.

Enfim, não há aqui a pretensão de oferecer um levantamento definitivo, mas sim uma contribuição para que esse capítulo riquíssimo da história do entretenimento não seja esquecido.


E, como diriam os velhos cartazes pendurados à porta dos cinemas…

Continua no próximo episódio!



Fontes de Pesquisa: British ComedyGuideBritishFilm Institute, iMDB 

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.