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Cinema Mudo

Estrelas do Cinema Mudo

Corinne Griffith

Por Marcelo Amado 24 de julho, 2026
<p>Corinne Griffith</p>

Corinne Mae Griffin nasceu em Waco, no Texas, em 21 de novembro de 1894 (data que não é totalmente confiável e foi questionada durante anos de sua carreira). Filha de John Lewis Griffin, um ministro metodista e funcionário da ferrovia, e de Ambolina Ghio de descendência italiana. Corinne passou parte da infância no Texas e no convento Sacred Heart em Nova Orleans. A elegância aristocrática que mais tarde a definiria nas telas foi moldada longe dos holofotes de Los Angeles, em uma formação educacional refinada.


Os primeiros passos

Assim como ocorre com outras grandes estrelas da era silenciosa, a trajetória de Corinne até o cinema possui algumas divergências históricas. Relatos da época indicavam que Corinne fora descoberta após vencer um concurso de beleza no sul da Califórnia ou em Nova Orleans. Há também uma versão de que o diretor King Vidor a teria descoberto em um resort de saúde, no oeste do Texas. No entanto, memórias do diretor e conterrâneo texano King Vidor indicam que os dois se conheceram ainda adolescentes no Texas e planejaram a ida para Hollywood, onde a jovem conseguiu cartas de apresentação para os executivos da Vitagraph Studios. Talvez essa hipótese levantada por populares e jornais de época sobre o concurso tenha base no fato de que Corinne era realmente muito bonita, sendo inclusive constantemente mencionada como uma das mais belas do cinema mudo, senão a mais bela.

Há informações, também não confirmadas, que antes de estrear como atriz, Corinne trabalhou como dançarina. E que por esse motivos teria adotado um sobrenome levemente diferente do seu. Mas o mais aceito entre os historiadores de cinema é que ela passou a usar o nome artístico apenas quando assinou seu primeiro contrato com a Vitagraph, em 1915 (algumas fontes afirmam ter sido em 1916).

Sua estreia foi em La Paloma (1916), um curta com direção de William Wolbert. E seguiu o ano em diversas produções em papéis secundários, até que essas aparições abriram espaço para papéis de destaque ao lado de galãs como Earle Williams.

Em poucos anos, sua fisionomia delicada e figurinos impecáveis renderam-lhe a alcunha que a acompanharia por toda a carreira: "The Orchid Lady of the Screen" ("A Dama Orquídea da Tela").



O estrelato na First National e o controle criativo

Em 1923, no topo de sua popularidade na Vitagraph, Corinne tomou uma decisão de negócios arrojada ao assinar com a First National Pictures, que dois anos depois seria comprada pela Warner Bros. 

Entre os títulos de maior sucesso desse período estão Black Oxen (1924), Classified (1925) e o celebrado The Garden of Eden (1928), dirigido por Lewis Milestone. Griffith acumulou um dos salários mais altos do cinema mudo — começando em 2.500 dólares, alcançando até 10.000 dólares por semana — e negociava pessoalmente todos os seus contratos e orçamentos, rivalizando em autonomia financeira apenas com nomes como Mary Pickford.

Sua fama e influência eram tantas, que ela passou a ter privilégios que somente poucos artistas consagrados da época tinham acesso. Os contratos de Griffith estipulavam que, no início de cada produção, ela submeteria quatro roteiros para sua consideração para o próximo filme. Ela também podia escolher entre três atores principais disponíveis e três diretores. Além disso, a exigência de não trabalhar por mais que 8 horas por dia.

O ápice de seu reconhecimento crítico veio com The Divine Lady (1929), dirigido por Frank Lloyd. Sua interpretação da Lady Hamilton lhe rendeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz na 2ª cerimônia da Academia.

Tom Slater, em sua biografia no Women Film Pioneers Project, escreveu sobre Corinne: "De grande beleza e talento cômico, Griffith também interpretou papéis dramáticos nos quais sua personagem enfrentava decisões importantes que afetavam sua vida e a de muitos outros. Em conjunto, esse conjunto de obras revela a centralidade e a complexidade dos papéis femininos na sociedade de consumo pós-vitoriana.

Percebendo o funcionamento da indústria, não se limitou a ser apenas uma atriz contratada: fundou sua própria produtora, a Corinne Griffith Productions. Aqui também há divergências entre as fontes pesquisadas. Algumas dizem que ela abriu sua produtora depois de ter saído da First National, outros dizem que ela ainda era contratada do estúdio quando iniciou o novo negócio. Há fontes que afirma que ela passou a atuar como produtora executiva de cerca de onze de seus longas-metragens, enquanto outras fontes dizem que sua produtora fez apenas um filme, e depois retornou para First National. Bom, se pesquisarmos alguns de seus filmes no iMDB, veremos realmente que a Corinne Griffith Production consta na ficha de produção de alguns de seus filmes e não somente em um. Isso mostra o quanto é difícil escrever artigos sobre o cinema antigo que sejam 100% confiáveis.

O advento do som e a transição implacável

A transição para o cinema falado no final da década de 1920 afetou drasticamente a carreira de Griffith. Seus primeiros testes e lançamentos sonorizados, como a refilmagem de Lilies of the Field (1930), receberam críticas duras devido ao seu tom de voz e sotaque, considerados pela imprensa da época desfavoráveis para a tecnologia dos microfones primitivos.

Após atuar na produção britânica Lily Christine (1932), aos 37 anos, Corinne decidiu se afastar da atração dos holofotes de Hollywood, tendo voltado às telas apenas uma vez, anos depois, como Mrs. Wilson no filme Paradise Alley (1962).


Negócios e literatura 

Ao contrário de colegas que enfrentaram dificuldades financeiras após a era muda, Griffith usou a inteligência financeira demonstrada nos estúdios para construir uma nova trajetória no mercado imobiliário e na literatura. 

Dona de um aguçado tino comercial, Corinne investiu grande parte de seus ganhos de Hollywood em terrenos e edifícios comerciais em Beverly Hills e Los Angeles. Tornou-se uma das investidoras imobiliárias mais bem-sucedidas dos Estados Unidos, acumulando uma fortuna estimada em dezenas de milhões de dólares e tornando-se uma articuladora política e palestrante sobre temas fiscais.

Paralelamente, publicou mais de dez livros, incluindo romances e memórias. Seu livro autobiográfico Papa's Delicate Condition (1952) tornou-se um bestseller e foi adaptado para o cinema em 1963. Durante seu terceiro casamento com George Preston Marshall, proprietário do time de futebol americano Washington Redskins, Corinne escreveu a letra de "Hail to the Redskins", o hino oficial da equipe.



Casamentos e mentiras no tribunal

Corinne foi casada com o produtor teatral Morosco (1926-1934). Posteriormente, se casou com o ator e diretor da Vitagraph, Webster Campbell (1920-1923). Depois com o proprietário do Washington Redskins, George Marshall (1936-1958) e, por fim, com o ator e cantor Danny Scholl por trinta e cinco dias em 1965. E foi quando sua vida pessoal voltou às manchetes de forma inusitada.

Durante o processo de anulação de seu casamento com Danny Scholl, 33 anos mais jovem, Corinne declarou em tribunal que não era a verdadeira estrela do cinema mudo, mas sim sua irmã mais nova, e que a "verdadeira" Corinne havia falecido anos antes. O tribunal precisou convocar antigas atrizes da era silenciosa, como Betty Blythe e Claire Windsor, para testemunharem que ela era, de fato, a lendária atriz da Vitagraph.

Não tem como cravar a explicação exata para essa atitude de Corinne Griffith, que pode variar entre o orgulho pessoal (vaidade quanto à idade) e a estratégia jurídica/financeira durante o processo.

Historiadores do cinema mudo e biógrafos apontam principalmente três fatores para o episódio:
  1. Extrema vaidade em relação à idade: quando se casou com Danny Scholl em 1965, Corinne tinha cerca de 71 anos, enquanto Scholl tinha volta de 44. Ela mentira para ele no início do relacionamento, afirmando que tinha a mesma faixa etária dele (por volta dos 50 anos).  Quando o casamento ruiu rapidamente — durando cerca de um mês até que ela o expulsasse de casa —, Scholl buscou alegar que fora enganado em relação à verdadeira idade da esposa. Para sustentar a mentira e não admitir publicamente que tinha setenta anos, Corinne criou a narrativa de que a "verdadeira" estrela do cinema mudo havia falecido na década de 1930 e que ela era Mary, uma irmã mais nova (aproximadamente 20 anos mais jovem) que assumira a identidade e os negócios da irmã. 
  2. Estratégia de defesa no processo de anulação: Scholl alegava fraude quanto à idade para tentar obter ganhos no processo de separação. Ao insistir que era uma pessoa mais jovem e que a atriz original já estava morta, Corinne tentou desarmar o argumento central do ex-marido de ter sido enganado.  No fim, a estratégia — por mais surreal que fosse — não prejudicou suas finanças: o juiz do caso concluiu que a diferença de idade não tinha relevância legal para o término do casamento e observou que Scholl estava essencialmente interessado no patrimônio milionário da ex-atriz.
  3. Negação do envelhecimento: mesmo após o término do julgamento e com o testemunho de colegas de elenco confirmando sua real identidade, Corinne continuou mantendo essa história até o fim da vida em conversas e entrevistas. Historiadores de Hollywood enxergam isso como uma recusa psicológica profunda em aceitar o envelhecimento, algo comum entre estrelas da era de ouro que foram celebradas mundialmente por sua juventude e beleza impecável.

Esse episódio bizarro serviu como uma das inspirações para o autor Tom Tryon escrever o romance Fedora (1976) — sobre uma atriz lendária que usa a filha/irmã para fingir que nunca envelheceu —, que posteriormente foi adaptado para o cinema pelo diretor Billy Wilder em 1978. 


Legado

Corinne Griffith faleceu em 13 de julho de 1979, em Santa Monica, Califórnia, aos 84 anos, em decorrência de um ataque cardíaco. Ela deixou um patrimônio substancial, fruto de suas quatro décadas de investimentos imobiliários. Por suas contribuições à indústria cinematográfica, possui uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, localizada no número 1560 da Vine Street.



Marcelo Amado

Marcelo Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.