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Cinema Mudo

Estrelas do Cinema Mudo

Asta Nielsen

A musa que inventou a atuação moderna

Por Marcelo D. Amado 05 de fevereiro, 2026
<p>Asta Nielsen</p>
Asta Nielsen (1924) Becker & Maass / Marie Boehm (imagem original manipulada por IA)

Se hoje estamos acostumados com atuações sutis, onde um olhar diz mais que mil palavras, devemos agradecer a uma dinamarquesa de olhos magnéticos e rosto expressivo chamada Asta Nielsen. Antes dela, o cinema era basicamente teatro filmado, com gestos exagerados e braços ao vento. Asta chegou e mudou o jogo, tornando-se a primeira estrela verdadeiramente global e ganhando o apelido carinhoso de Die Asta.


Infância e o escândalo silencioso

Nascida em Copenhague, em 1881, Asta Nielsen não veio de berço de ouro. Filha de um ferreiro e de uma lavadeira, cresceu em um ambiente humilde e distante do universo artístico que mais tarde conquistaria. Aos 18 anos, ingressou na escola de teatro do Royal Danish Theatre, dando os primeiros passos formais na carreira.

O início da vida adulta, porém, foi marcado por um episódio que ela manteria em silêncio por décadas. Ainda muito jovem — as fontes divergem entre 19 e 21 anos — Asta teve uma filha, Jesta. O pai, segundo relatos posteriores, seria um estudante de direito, mas o assunto nunca foi esclarecido publicamente. Nielsen recusou-se a se casar, consciente de que o matrimônio poderia encerrar prematuramente suas ambições teatrais. Criou a menina sozinha, com o apoio da mãe e da irmã, enfrentando de forma direta as convenções morais de seu tempo — um gesto que antecipava a postura independente e pouco conciliadora que marcaria toda a sua trajetória.


O abismo que a lançou ao estrelato

Asta não teve muito sucesso no teatro tradicional; diziam que sua voz não era "adequada". Mal sabiam eles que o silêncio seria seu maior aliado. Em 1910, aos 29 anos, ela estreou no filme dinamarquês Afgrunden, (O Abismo, 1910), dirigido por Urban Gad (que se tornaria seu primeiro marido).

O filme  que pode ser visto clicando aqui  foi um choque. Em uma cena famosa, ela executa uma "dança de gaúcho" erótica e sugestiva que paralisou as plateias. 

Asta Nielsen e Poul Rumert na cena da "dança gaúcha" em Afgrunden (1910, Urban Gad)

Mais do que a sensualidade  há controvérsias, deixo para vocês julgarem , o que impressionou foi sua naturalidade. Enquanto outros atores pulavam e gesticulavam, Asta usava o rosto. Ela entendia que a câmera estava perto e que bastava um leve erguer de sobrancelha para transmitir agonia ou desejo. Essa naturalidade não se percebe totalmente em Afgrunden, mas foi algo que ela foi aperfeiçoando com o tempo, justificando o título dado a ela de ser a "inventora" da atuação moderna. 


A conquista da Alemanha e o Império Nielsen

O sucesso foi tão esmagador que ela se mudou para a Alemanha, onde a indústria cinematográfica era mais forte. Lá, ela se tornou um fenômeno. Estima-se que, antes da Primeira Guerra Mundial, Asta Nielsen era a atriz mais famosa do mundo, competindo em popularidade apenas com Mary Pickford.

Ela não era apenas uma empregada dos estúdios. Asta foi uma das primeiras mulheres a ter sua própria produtora, a Art-Film. Ela escolhia seus papéis e controlava sua imagem. Em 1921, ela chocou o mundo novamente ao interpretar o papel principal em Hamlet (Svend Gade, Heinz Schall). Sim, ela interpretou o príncipe da Dinamarca, trazendo uma interpretação de que Hamlet era, na verdade, uma mulher disfarçada de homem para preservar o trono. Foi um movimento ousado de subversão de gênero décadas antes de isso virar pauta. Como foi dito em artigo no site Det Danske Filminstitut, "Asta era uma feminista a frente do seu tempo", mas não fez disso um escarcéu. Mas, sinceramente, no contexto dessa série de artigos sobre as estrelas do cinema, o que importa é seu talento e pioneirismo como atriz.

Asta Nielsen em Hamlet (1921, Svend Gade, Heinz Schall)

O impacto dos filmes de Asta Nielsen foi imediato e atravessou fronteiras com uma força rara. Em pouco tempo, ela deixou de ser apenas uma atriz de sucesso para se tornar uma verdadeira estrela internacional, adorada do público da Dinamarca à Austrália. Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados dos dois lados do conflito colavam fotografias suas nas trincheiras e lhe escreviam cartas de admiração. 

Asta inspirava poetas, artistas e fascinava a vanguarda cultural da época. A crítica não economizava elogios e muitos de seus pares viam em sua atuação algo tão transformador para o cinema quanto a comédia de Charlie Chaplin — cada um à sua maneira, redefinindo o que significava atuar diante da câmera.

Mesmo nos Estados Unidos, onde seus filmes circularam com mais dificuldade — tanto pelo teor erótico quanto por um sistema de exibição pouco amigável a produções importadas —, a recepção crítica era de assombro. Nielsen podia não dominar o mercado americano, mas dominava o olhar de quem a via em cena.


Nielsen e Garbo

Apesar de seu visual, por vezes, meio andrógino, não era raro ser comparada a Greta Garbo. No entanto, segundo alguns pesquisadores, a verdade é que Nielsen teria pavimentado o caminho para o sucesso de Garbo.

Em 1925, as duas atuaram juntas no clássico Die freudlose Gasse (Georg Wilhelm Pabst). Na época, Asta já era a veterana estabelecida, e Garbo a novata promissora. O estilo melancólico e profundo de Nielsen foi a base sobre a qual Garbo construiu sua carreira em Hollywood. Greta teria dito, inclusive, em uma entrevista que Nielsen teria lhe ensinado tudo que sabia.


O não aos nazistas e o silêncio final

Com a chegada do cinema falado e a ascensão do regime nazista na Alemanha, a carreira de Asta começou a declinar. Em uma famosa anedota histórica, diz-se que Joseph Goebbels e o próprio Adolf Hitler tentaram convencê-la a permanecer na Alemanha para ser a estrela do cinema do Terceiro Reich, oferecendo-lhe um estúdio próprio. Asta, fiel aos seus princípios, recusou e voltou para a Dinamarca em 1937.

Lá, ela descobriu que o mundo tinha seguido em frente. O cinema falado não a abraçou da mesma forma e ela passou o resto da vida em uma obscuridade relativa, dedicando-se à escrita de suas memórias, colagens de arte e design de tecidos. Seu único filme na era falada foi Unmögliche Liebe (1932, Erich Waschneck), quando ela tinha 51 anos de idade.

Em 1961, Nielsen recebeu a medalha de honra da indústria cinematográfica alemã e, em 1963, foi agraciada com a medalha de ouro alemã por realizações e um prêmio honorário do governo dinamarquês. Em 1969, recebeu o Prêmio de Escritores Dinamarqueses por suas memórias, A Décima Musa (Die Tiende Muse).

Ela se casou pela terceira vez aos 88 anos com um negociante de arte, Christian Theede, provando que sua vitalidade nunca a abandonou. Faleceu em 1972, aos 90 anos, em Frederiksberg.


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FILMES DISPONÍVEIS
Afgrunden (1910, Urban Gad)
Den sorte drøm (1911, Urban Gad)
Die arme Jenny (1912, Urban Gad)
Engelein (1914, Urban Gad)
Im Lebenswirbel (1918, Heinz Schall)
Hamlet (1921, Svend Gade)
Vanina oder Die Galgenhochzeit (1922, Arthur von Gerlach)
Erdgeist (1923, Leopold Jessner)
Dirnentragödie (1927, Bruno Rahn)




Fontes de pesquisa: Danish Film Institute (DFI), Stumfilm.dk, Fembio.org,

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.