Se hoje estamos acostumados com atuações sutis, onde um olhar diz mais que mil palavras, devemos agradecer a uma dinamarquesa de olhos magnéticos e rosto expressivo chamada Asta Nielsen. Antes dela, o cinema era basicamente teatro filmado, com gestos exagerados e braços ao vento. Asta chegou e mudou o jogo, tornando-se a primeira estrela verdadeiramente global e ganhando o apelido carinhoso de Die Asta.
Infância e o escândalo silencioso
Nascida em Copenhague, em 1881, Asta Nielsen não veio de berço de ouro. Filha de um ferreiro e de uma lavadeira, cresceu em um ambiente humilde e distante do universo artístico que mais tarde conquistaria. Aos 18 anos, ingressou na escola de teatro do Royal Danish Theatre, dando os primeiros passos formais na carreira.
O início da vida adulta, porém, foi marcado por um episódio que ela manteria em silêncio por décadas. Ainda muito jovem — as fontes divergem entre 19 e 21 anos — Asta teve uma filha, Jesta. O pai, segundo relatos posteriores, seria um estudante de direito, mas o assunto nunca foi esclarecido publicamente. Nielsen recusou-se a se casar, consciente de que o matrimônio poderia encerrar prematuramente suas ambições teatrais. Criou a menina sozinha, com o apoio da mãe e da irmã, enfrentando de forma direta as convenções morais de seu tempo — um gesto que antecipava a postura independente e pouco conciliadora que marcaria toda a sua trajetória.
O abismo que a lançou ao estrelato
Asta não teve muito sucesso no teatro tradicional; diziam que sua voz não era "adequada". Mal sabiam eles que o silêncio seria seu maior aliado. Em 1910, aos 29 anos, ela estreou no filme dinamarquês Afgrunden, (O Abismo, 1910), dirigido por Urban Gad
(que se tornaria seu primeiro marido).
O filme — que pode ser visto clicando aqui — foi um choque. Em uma cena famosa, ela executa uma "dança de gaúcho" erótica e sugestiva que paralisou as plateias.

Mais do que a sensualidade — há controvérsias, deixo para vocês julgarem —, o que impressionou foi sua naturalidade. Enquanto outros atores pulavam e gesticulavam, Asta usava o rosto. Ela entendia que a câmera estava perto e que bastava um leve erguer de sobrancelha para transmitir agonia ou desejo. Essa naturalidade não se percebe totalmente em Afgrunden, mas foi algo que ela foi aperfeiçoando com o tempo, justificando o título dado a ela de ser a "inventora" da atuação moderna.
A conquista da Alemanha e o Império Nielsen
O sucesso foi tão esmagador que ela se mudou para a Alemanha, onde a indústria cinematográfica era mais forte. Lá, ela se tornou um fenômeno. Estima-se que, antes da Primeira Guerra Mundial, Asta Nielsen era a atriz mais famosa do mundo, competindo em popularidade apenas com Mary Pickford
.
Ela não era apenas uma empregada dos estúdios. Asta foi uma das primeiras mulheres a ter sua própria produtora, a Art-Film. Ela escolhia seus papéis e controlava sua imagem. Em 1921, ela chocou o mundo novamente ao interpretar o papel principal em Hamlet (Svend Gade
, Heinz Schall). Sim, ela interpretou o príncipe da Dinamarca, trazendo uma interpretação de que Hamlet era, na verdade, uma mulher disfarçada de homem para preservar o trono. Foi um movimento ousado de subversão de gênero décadas antes de isso virar pauta. Como foi dito em artigo no site Det Danske Filminstitut, "Asta era uma feminista a frente do seu tempo", mas não fez disso um escarcéu. Mas, sinceramente, no contexto dessa série de artigos sobre as estrelas do cinema, o que importa é seu talento e pioneirismo como atriz.

O impacto dos filmes de Asta Nielsen foi imediato e atravessou fronteiras com uma força rara. Em pouco tempo, ela deixou de ser apenas uma atriz de sucesso para se tornar uma verdadeira estrela internacional, adorada do público da Dinamarca à Austrália. Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados dos dois lados do conflito colavam fotografias suas nas trincheiras e lhe escreviam cartas de admiração.
Asta inspirava poetas, artistas e fascinava a vanguarda cultural da época. A crítica não economizava elogios e muitos de seus pares viam em sua atuação algo tão transformador para o cinema quanto a comédia de Charlie Chaplin
— cada um à sua maneira, redefinindo o que significava atuar diante da câmera.
Mesmo nos Estados Unidos, onde seus filmes circularam com mais dificuldade — tanto pelo teor erótico quanto por um sistema de exibição pouco amigável a produções importadas —, a recepção crítica era de assombro. Nielsen podia não dominar o mercado americano, mas dominava o olhar de quem a via em cena.
Nielsen e Garbo
Apesar de seu visual, por vezes, meio andrógino, não era raro ser comparada a Greta Garbo
. No entanto, segundo alguns pesquisadores, a verdade é que Nielsen teria pavimentado o caminho para o sucesso de Garbo.
Em 1925, as duas atuaram juntas no clássico Die freudlose Gasse (Georg Wilhelm Pabst
). Na época, Asta já era a veterana estabelecida, e Garbo a novata promissora. O estilo melancólico e profundo de Nielsen foi a base sobre a qual Garbo construiu sua carreira em Hollywood. Greta teria dito, inclusive, em uma entrevista que Nielsen teria lhe ensinado tudo que sabia.
O não aos nazistas e o silêncio final
Com a chegada do cinema falado e a ascensão do regime nazista na Alemanha, a carreira de Asta começou a declinar. Em uma famosa anedota histórica, diz-se que Joseph Goebbels
e o próprio Adolf Hitler
tentaram convencê-la a permanecer na Alemanha para ser a estrela do cinema do Terceiro Reich, oferecendo-lhe um estúdio próprio. Asta, fiel aos seus princípios, recusou e voltou para a Dinamarca em 1937.
Lá, ela descobriu que o mundo tinha seguido em frente. O cinema falado não a abraçou da mesma forma e ela passou o resto da vida em uma obscuridade relativa, dedicando-se à escrita de suas memórias, colagens de arte e design de tecidos. Seu único filme na era falada foi Unmögliche Liebe (1932, Erich Waschneck
), quando ela tinha 51 anos de idade.
Em 1961, Nielsen recebeu a medalha de honra da indústria cinematográfica alemã e, em 1963, foi agraciada com a medalha de ouro alemã por realizações e um prêmio honorário do governo dinamarquês. Em 1969, recebeu o Prêmio de Escritores Dinamarqueses por suas memórias, A Décima Musa (Die Tiende Muse).
Ela se casou pela terceira vez aos 88 anos com um negociante de arte, Christian Theede, provando que sua vitalidade nunca a abandonou. Faleceu em 1972, aos 90 anos, em Frederiksberg.
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Fontes de pesquisa: Danish Film Institute (DFI), Stumfilm.dk, Fembio.org,