O conto A Moça e a Vela insere-se em uma categoria recorrente do folclore luso-brasileiro: as narrativas de advertência dirigidas sobretudo aos jovens, em especial às moças, nas quais a desobediência aos conselhos familiares resulta em contato direto com o sobrenatural.
Nessas histórias, certos espaços domésticos assumem função simbólica. A janela, em particular, aparece com frequência como ponto de transição entre o interior protegido da casa e o exterior noturno, associado ao perigo, ao desconhecido e à circulação das chamadas “almas penadas”. Permanecer à janela fora de hora não é descrito como simples distração, mas como atitude imprudente, capaz de expor o indivíduo ao que não pertence ao mundo cotidiano.
O elemento perturbador do conto não reside na agressão física, mas na ruptura da normalidade. Um objeto comum — a vela — transforma-se em sinal inequívoco da morte. O horror não é imediato: instala-se lentamente, a partir da indiferença inicial da jovem, de sua descrença nos avisos maternos e da banalidade com que aceita o pedido do desconhecido.
A versão aqui apresentada tem como base o registro feito por Luís da Câmara Cascudo
, em Contos Tradicionais do Brasil, preservando a estrutura exemplar da narrativa: o aviso ignorado, o encontro noturno, a revelação final e a consequência duradoura. O desfecho não aponta para castigo corporal, mas para a perda do juízo, solução frequente nas narrativas populares quando o contato com o além ultrapassa os limites do suportável.
Mais do que um conto de assombração, trata-se de um relato de função moral clara, transmitido como alerta. Na lógica do folclore tradicional, há horários, gestos e lugares que exigem respeito — e ignorá-los pode custar mais do que o susto: pode custar a razão..
A Moça e a Vela — Baseado em Luís da Câmara Cascudo
Texto editado e reescrito por Marcelo Amado.
Havia uma moça que tinha por costume ficar à janela até as tantas da noite.
— Minha filha — dizia a mãe —, quem se deixa ficar à janela até alta hora vê coisas que não deve ver. Isso é exemplo dos antigos que sabiam mais do que nós.
— Qual o quê! — dizia a moça —, nunca vi nada de espantar. Não tenho sono, não hei de dormir com as galinhas.
A mãe repetia-lhe sempre o conselho, mas a moça, com interesse de se encontrar um namorado, continuou com seu costume. Uma vez estava a teimosa à janela, quando, ao soar a última badalada da meia-noite, viu se aproximar uma figura envolta num hábito muito branco, caminhando com passo apressado e trazendo, numa das mãos, uma vela acesa.
A moça estava tão distraída, a pensar nos seus amores e naquele que esperava, que nem pavor sentiu. Foi como se não tivesse visto nada. O desconhecido saudou-a e, apagando a vela, pediu-lhe que a guardasse até sua volta. Maquinalmente a jovem foi colocar a vela sobre o leito e, quando voltou, já não encontrou mais o desconhecido.
Nem se lembrou do conselho da mãe, e a aparição não lhe causou o menor abalo. Continuou à janela preocupada apenas com os seus pensamentos e amores. Às duas da madrugada, que é quando as almas penadas se recolhem, ela ainda estava apreciando a noite. O tal desconhecido chegou-se rapidamente e pediu-lhe a vela. A moça foi buscá-la ao leito, mas soltou um grito de horror. Em vez de vela, havia um esqueleto estendido na cama.
A caveira ergueu-se e foi, diante de seus olhos, saindo pela janela, como se fosse uma leve pluma. Desde esse dia a moça ficou abobada. Ria e chorava à toa, e virou exemplo para todas as filhas desobedientes, na cidade onde esse caso se deu.