O texto a seguir não nasce propriamente no Brasil. Sua estrutura narrativa — a mulher casada, o desejo proibido, o engano, a punição física e o desfecho moralizante — remete a motivos antigos do folclore europeu, amplamente adaptados e retransmitidos pela tradição oral.
Como ocorre com A Moura Torta ─ que vimos no artigo anterior dessa série ─, trata-se de uma história que atravessou fronteiras, foi reelaborada no contato com o cotidiano local e acabou registrada como conto popular. Aqui, o cenário é brasileiro, os personagens são reconhecíveis, mas o esqueleto da narrativa pertence a um repertório muito mais antigo.
Não se trata de um conto literário nem de um texto exemplar. A violência que estrutura a história não é simbólica nem atenuada: ela é direta, física e aceita como parte do enredo. Esse é justamente o seu valor como documento de uma forma de narrar — crua, oral e sem preocupação em agradar o leitor moderno.
Não se trata de um conto literário nem de um texto exemplar. A violência que estrutura a história não é simbólica nem atenuada: ela é direta, física e aceita como parte do enredo. Esse é justamente o seu valor como documento de uma forma de narrar — crua, oral e sem preocupação em agradar o leitor moderno.
A Mulher Gaiteira — Sílvio Romero
O texto abaixo foi revisado e editado a partir do original retirado do eBook Sílvio Romero: Contos Populares do Brasil, projeto open source do Cadernos do Mundo Inteiro.
Havia uma mulher casada e que não tinha filhos. Defronte dela morava um padre, pelo qual a mulher se apaixonou.
Ela chamava-o de Rabo de Galo, por ele ter os cabelos muito bonitos.
O padre não correspondia e nem mesmo sabia de tal paixão.
A mulher já não governava mais a casa e só queria estar na janela para ver o padre. Estava já tão doida, que chegava a dizer ao marido: “Não é bonito aquele padre?” O marido fingia não compreender e afirmava o que ela dizia.
Não satisfeita de ver o padre só da janela, a mulher não perdia missa um só dia, a pretexto de ir rezar, e o marido suportando tudo calado. Querendo ver até que ponto chegava aquela mulher, pretextou uma viagem e escondeu-se perto de casa, recomendando à negra1 que lhe fizesse sabedor de tudo o que sua mulher praticasse na sua ausência.
Não tardou em que a negra lhe viesse entregar um bilhete que a senhora ia mandar por ela ao padre, no qual pedia-lhe uma entrevista à noite, visto o marido não estar em casa. O homem apoderou-se do bilhete, disse à negra que dissesse à senhora que o tinha entregado ao padre, e escreveu, disfarçando a letra, outro bilhete, dizendo ser do padre, aceitando o convite e marcando a hora da dita entrevista.
Trouxe a negra o bilhete e deu-o à senhora. Esta não cabia em si de contente, e à hora marcada, entrou o marido, que se disfarçou no padre, vestido de batina, e com um grande chicote de couro cru escondido.
A mulher convidou-o a entrar no quarto para descansar. Aí não teve dúvida; o marido empurrou-lhe o chicote a torto e a direito, ainda fingindo ser o padre e dizendo:
─ Mulher casada, sem vergonha, como é que seu marido não está em casa, e manda-me um bilhete convidando-me para vir aqui! Tome juízo! ─ dizia o "padre", e empurrava o chicote na mulher.
Ela, desesperada com as bordoadas, dizia:
─ Vai-te embora, padre dos diabos, se eu soubesse que tu eras tão mau, não tinha caído nesta. Sai, malvado, tu queres me matar? Basta, não me dês tanto.
O marido, depois que deu-lhe muito, saiu deixando a mulher quase morta de pancadas. Mudou toda a roupa, e veio para casa, fingindo ter chegado da viagem. Perguntou pela mulher e disseram-lhe que ela estava doente.
Ele, muito penalizado, perguntou que moléstia era aquela, pois ele a tinha deixado tão boa. Ela respondeu que sentia muitas dores pelo corpo, mas que também não sabia o que era. Mal pôde dizer estas palavras ao marido, e começou logo a gritar, tão forte era o seu sofrimento.
Então o marido disse que ela estava muito mal, e que ele ia mandar chamar aquele padre, que morava defronte, para confessá-la. A mulher ouvindo isto, exclamou:
─ Não, marido, por Nossa Senhora não me mande chamar aquele padre.
─ Pois mulher, você não o acha tão bonito, e como não quer que ele venha lhe confessar? ─ o marido replicou.
E para apreciar bem o efeito da surra, mandou chamar o padre do Rabo de Galo, como a mulher o chamava, e este veio confessá-la, alheio a tudo o que tinha se passado.
A mulher, assim que foi vendo o padre, foi dizendo:
─ Sim, seu diabo, ainda achou pouca a surra que me deu, e ainda se atreve a vir aqui? Sai, diabo, vai-te embora!
O padre ficou espantado, e acreditou que a mulher estava com efeito muito doente, que talvez estivesse com o diabo no corpo, e então benzia-a e dizia:
─ Filha, acomoda-te, lembra-te de Deus, que estás para morrer. Eu esconjuro este mau espírito, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo, amém.
─ Sim ─ dizia a mulher ─, eu esconjuro é a surra que tu me deste.
O padre, depois de muita reza retirou-se, e o marido quase que não podia conter o riso.
Passados muitos dias, de cama, levantou-se a mulher curada da grande surra.
A primeira coisa que fez foi pregar a janela que dava para a casa do padre, com uns pregos bem fortes, o que, vendo o marido, disse-lhe que não fizesse aquilo, que aquela janela era para ela se distrair nas horas vagas.
Por mais que o marido pedisse, a mulher não foi capaz de deixar de pregar a janela e nunca mais olhou o padre.