Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Palavras de Época

Sombras do Folclore
Introdução: o fantástico, estranho e inquietante

Do que se trata essa série de artigos?

Por Guardião do Estronho 12 de janeiro, 2026
Introdução: o fantástico, estranho e inquietante

Este artigo abre os portões da série Sombras do Folclore. Cabe a ela percorrer um território específico e pouco visitado: aquele em que autores brasileiros tomaram narrativas de origem popular — lendas, causos, tradições regionais — e as transformaram em contos literários de feição fantástica, inquietante ou sombria. Não se trata do folclore enquanto registro ou curiosidade etnográfica, mas do folclore já atravessado pela escrita, moldado pela forma literária e submetido à intenção estética.

Aqui, o ponto de partida não são cantigas, mitos explicativos ou manifestações festivas e identitárias. O que nos interessa são textos: contos, relatos e narrativas curtas publicados por escritores que recolheram, adaptaram e recriaram histórias do imaginário popular brasileiro. Obras como O Pão d’Ouro, de Bernardo Guimarães; A Moura Torta, de Sílvio Romero; ou os Contos Amazônicos, de Inglês de Sousa — entre outros que ainda serão revisitados — não aparecem como simples ecos da tradição oral, mas como literatura consciente de seus meios: linguagem, ritmo, atmosfera e ponto de vista.

Esses textos revelam um aspecto particular do folclore brasileiro: aquele que se inclina para o fantástico, o estranho e o inquietante. São narrativas povoadas por figuras deformadas, encantamentos ambíguos, punições cruéis, aparições e forças inexplicáveis que irrompem no cotidiano sem anúncio e sem explicação. O medo que nasce daí não é espetacular. É baixo, persistente, insinuado — muitas vezes seco, abrupto, quase indiferente ao leitor.

A série Sombras do Folclore se fixa justamente nesse território intermediário: o instante em que o folclore deixa de ser apenas tradição oral e passa a existir como literatura sombria, capaz de provocar desconforto, estranhamento e inquietação. Ao serem fixadas no papel, essas histórias endurecem. Tornam-se, não raro, mais cruéis. E passam a revelar não apenas o medo do sobrenatural, mas também tensões sociais, morais e culturais do Brasil do século XIX e início do XX.

Ao longo dos artigos, serão trazidas à superfície obras de autores que produziram textos a partir desse imaginário popular. No caso de Sílvio Romero, por exemplo, contos breves como A Moura Torta evidenciam como materiais tradicionais são reorganizados em narrativas secas, diretas e, por vezes, brutalmente eficazes — histórias em que o fantástico surge sem ornamento e sem consolo.

Não é intenção desta série classificar esses textos como “terror” no sentido moderno do termo. O que se busca é evidenciar como eles constroem uma forma brasileira de narrativa inquietante, enraizada em lendas locais, crenças regionais e situações cotidianas. Um fantástico que não depende do excesso, mas da familiaridade distorcida; não do espetáculo, mas da sensação persistente de que algo, ali, está fora do lugar.

Também não é objetivo desta série analisar textos, estudar autores ou assumir qualquer direção didática ou educacional. A proposta é outra: trazer novamente à luz obras de nossa cultura literária que muitos leitores talvez nunca tenham conhecido — ou que, com o tempo, acabaram soterradas pela memória.

São narrativas que circularam, foram publicadas, lidas e, depois, silenciadas pelo esquecimento. Aqui, elas retornam não para serem explicadas, mas reencontradas. Como histórias que voltam a ser contadas não para ensinar, mas para inquietar, provocar e permanecer.

Sombras do Folclore propõe, assim, uma aproximação atenta desses contos — não como curiosidades folclóricas, mas como literatura que faz do medo, do estranho e do desconforto seus elementos centrais. Textos curtos, por vezes rudes, mas carregados de uma força inquietante que revela como o imaginário popular brasileiro, ao atravessar a escrita, foi capaz de gerar narrativas sombrias, duras e profundamente perturbadoras.

Para que o leitor não deixe estas páginas em suspensão, aguardando em silêncio o próximo chamado desta série, optei por não encerrar aqui a travessia. Aproveitando que falamos de A Moura Torta — uma dessas narrativas que atravessaram o tempo sem jamais se tornarem inofensivas —, apresentamo-la a seguir em sua forma integral. Que o texto fale por si, como sempre fez, e que cada leitor reencontre nele aquilo que julgava esquecido… ou que talvez jamais devesse ter sido despertado.


A Moura Torta - Sílvio Romero

Retirado do eBook Sílvio Romero: Contos Populares do Brasil - Cadernos do Mundo Inteiro, um projeto muito bacana de se visitar.


Uma vez havia um pai que tinha três filhos, e, não tendo outra coisa que lhes dar, deu a cada um uma melancia, quando eles quiseram sair de casa para ganhar a sua vida. O pai lhes tinha recomendado que não abrissem as frutas senão em lugar onde houvesse água. O mais velho dos moços quando foi ver o que dava a sua sina, estando ainda perto da casa, não se conteve e abriu a sua melancia. Pulou de dentro uma moça muito bonita dizendo: “Dai-me água, ou dai-me leite.” O rapaz não achava nem uma coisa nem outra, a moça caiu para trás e morreu.

O irmão do meio, quando chegou a sua vez, se achando não muito longe de casa, abriu também a sua melancia, e saiu de dentro uma moça ainda mais bonita do que a outra; pediu água ou leite, e o rapaz não achando nem uma coisa nem outra, ela caiu para traz e morreu.

Quando o caçula partiu para ganhar a sua vida foi mais esperto e só abriu a sua melancia perto de uma fonte. No abri-la pulou de dentro uma moça ainda mais bonita do que as duas primeiras, e foi dizendo: “Quero água ou leite.” O moço foi à fonte, trouxe água e ela bebeu a se fartar. Mas a moça estava nua, e então o rapaz disse a ela que subisse num pé de árvore que havia ali perto da fonte, enquanto ele ia buscar a roupa para ela. A moça subiu e se escondeu nas ramagens.

Veio uma moura torta buscar água, e, vendo na água o retrato de uma moça tão bonita, pensou que fosse o seu e pôs-se a dizer: “Que desaforo! Pois eu, sendo uma moça tão bonita, andar carregando água!...”

Atirou com o pote no chão e arrebentou-o. Chegando em casa sem água e nem pote levou um repelão muito forte, e a senhora mandou-a buscar água outra vez, mas na fonte fez o mesmo, e quebrou o outro pote.

Terceira vez fez o mesmo, e a moça não se podendo conter deu uma gargalhada. A moura torta, espantada, olhou para cima e disse: “Ah! É você, minha netinha!... Deixe eu lhe catar um piolho.”

E foi logo trepando pela árvore arriba, e foi catar a cabeça da moça. Fincou-lhe um alfinete, e a moça virou numa pombinha e voou! A moura torta então ficou no lugar dela.

O moço, quando chegou, achou aquela mudança tamanha e estranhou, mas a moura torta lhe disse: “O que quer? Foi o sol que me queimou!... Você custou tanto a vir me buscar!”

Partiram para o palácio, aonde se casou. A pombinha então costumava voar por perto do palácio, e se punha no jardim a dizer: “Jardineiro, jardineiro, como vai rei, meu senhor, com a sua moura torta?” E fugia.

Até que o jardineiro contou ao rei, que, meio desconfiado, mandou armar um laço de diamante para prendê-la, mas a pombinha não caiu. Mandou armar um de ouro, e nada; um de prata, e nada; afinal um de visco, e ela caiu. Foram levá-la ao rei que muito a apreciou.

Passados tempos, a moura torta fingiu-se pejada e pôs matos abaixo para comer a pombinha. No dia em que deviam botá-la na panela, o rei, com pena, se pôs a catá-la, e encontrou-lhe aquele carocinho na cabecinha, e pensando ser uma pulga, foi puxando e saiu o alfinete. Pulou lá aquela moça linda como os amores.

O rei reconheceu a sua bela princesa. Casaram-se, e a moura torta morreu amarrada nos rabos de dois burros bravos, lascada pelo meio.

Guardião do Estronho

Guardião do Estronho

Sou o Guardião do Estronho. Vigio o que não se encaixa, preservo o que incomoda, observo o que prefere permanecer à margem. Se quiser saber por que faço isso, minha história está à sua espera