Depois de transitar pelo horror moral de Machado, pelo decadentismo urbano de João do Rio
e pelas obsessões grotescas do final do século XIX, chegamos a Bernardo Guimarães
— um autor que muita gente insiste em reduzir ao regionalismo romântico, mas que tem veias muito mais sombrias do que costuma aparecer nos livros didáticos.
A Ilha Maldita — o pioneiro do fantástico no Brasil
Publicado originalmente em 1879, A Ilha Maldita saiu junto com O Pão d’Ouro na mesma edição pela Garnier, e por muito tempo foi praticamente esquecido pela crítica e pelo público — não teve muita ressonância e só ganhou novas edições décadas depois (1930 e mais recentemente) .
A trama gira em torno de Regina, uma mulher de beleza hipnotizante encontrada na praia quando criança e criada por uma viúva. À medida que cresce, sua presença começa a desencadear uma série de eventos trágicos: ela atrai os homens com sua formosura, mas as paixões que desperta terminam em morte, desespero ou loucura. A comunidade começa a acreditar que Regina é mais que humana — possivelmente uma criatura sobrenatural ligada a uma ilha misteriosa que ninguém consegue alcançar .
Alerta de spoiler: se você ainda não leu, pule para o próximo tópico.
- A própria Regina relata que inspira amor fatal nos homens, levando-os à ruína física e psicológica.
- Regina é ao mesmo tempo sedutora e destruidora, enquanto que, mais do que um simples cenário, o mar e a ilha funcionam quase como agentes da trama.
- E há uma ambiguidade do sobrenatural, pois não fica claro se a maldição é literal ou resultado do medo e da superstição coletiva.
A Importância e o pioneirismo
O que coloca este romance como marco histórico é justamente a sua inserção de elementos fantásticos como núcleo narrativo, e não apenas como adorno folclórico ou citação isolada, como era comum até então na literatura brasileira do século XIX. A obra incorpora seres e forças que fogem da explicação racional, abrindo espaço para o que hoje chamamos de literatura fantástica — território até então praticamente inexplorado na ficção brasileira da época .
A Ilha Maldita é uma das primeiras — senão a primeira — incursões do nosso país nesse tipo de narrativa em forma longa, com presença de figuras limítrofes entre o humano e o monstruoso e uma atmosfera de mistério contínuo, situando-se no limiar entre romance romântico e ficção fantástica. Ele não é apenas um texto curioso: ele abre espaço para o fantástico como experiência narrativa longa no Brasil — uma linha que décadas depois vai reverberar em outros autores de gêneros de fronteira entre fantasia, horror e insólito.
Mesmo que autores anteriores tenham explorado o insólito em contos ou poemas, nada naquela época se sustenta como um romance com elementos fantásticos tão centrais.
O Pão d’Ouro — fantasia e lenda indígena
Diferente da atmosfera sombria da ilha, este conto longo mergulha no imaginário mítico das lendas do Eldorado e da riqueza escondida na América — aqui transformado em fantasia inspirada nas tradições indígenas e nas narrativas de bandeirantes.
O texto reconta a lenda da “Mãe do Ouro”, uma espécie de fada ou espírito ligado às riquezas da terra, que se apaixona por um cacique e depois desaparece sob ordens do deus sol, Tupã.
A narrativa envolve: bandeirantes buscando ouro, criaturas protetoras do tesouro (os “tatus brancos”) e um ambiente fantástico e quase alegórico.
Enquanto A Ilha Maldita trabalha um clima dramático, fatal e quase gótico em suas ramificações humanas, O Pão d’Ouro é fantasia lendária, mais próxima de mitos indígenas e europeus do que de horror puro.
Importância
O Pão d’Ouro, por sua vez, contribui para essa incursão do brasileiro no terreno da fantasia por meio das lendas e mitos locais, mostrando que o fantástico aqui não precisa ser importado — ele já estava presente no imaginário popular e pode ser ressignificado em prosa literária.
As obras citadas estão em domínio público e podem ser lidas gratuitamente. Mas para quem prefere edições revisadas, atualizadas ou comentadas, indicamos essa versão eBook da Estronho (se adquirir, estará nos ajudando). Há também edições impressas de outras editoras (clique nas descrições para adquirir):
Fonte: Livro A Ilha Maldita e o Pão d'Ouro (Editora Estronho, 2022)