Se nas incursões anteriores o medo se insinuava pela sugestão e pelo desvio moral, aqui ele avança sem pedir licença. O horror deixa de ser apenas atmosfera e passa a tocar o corpo, a integridade física e a consciência. Não há mais distância confortável entre leitor e narrativa.
Os contos reunidos nesta parte exploram o grotesco em suas diferentes faces: a submissão diante do inaceitável, o excesso que degrada e a brutalidade cotidiana que se normaliza. Não se trata de sustos rápidos ou efeitos fáceis. O desconforto nasce da insistência, da repetição, da sensação de que algo foi deformado — por dentro e por fora.
São textos que não buscam agradar. Observam. Insistem. E deixam marcas.
Os Olhos que Comiam Carne — Humberto de Campos
Neste conto inquietante, o horror não nasce de um desvio psicológico, mas da necessidade extrema. O protagonista é um homem cego, movido pela esperança desesperada de recuperar a visão, disposto a submeter-se a um tratamento tão estranho quanto perturbador.
O elemento grotesco surge não como fetiche ou obsessão, mas como procedimento: olhos que “comem carne” tornam-se parte de uma tentativa de cura que ultrapassa os limites do aceitável. A narrativa constrói o desconforto a partir do contraste entre a finalidade — enxergar novamente — e o meio empregado, profundamente antinatural.
Não há prazer, fascínio ou compulsão. Há expectativa, sofrimento e submissão. O corpo aparece como território de intervenção, e não como objeto de desejo. O horror se instala justamente na normalização do absurdo, tratado quase como um experimento médico possível.
Ao final, o conto não provoca choque imediato, mas deixa uma sensação amarga: a de que, diante da promessa de salvação, o ser humano pode aceitar pactos silenciosos com o monstruoso.
Demônios — Aluísio Azevedo
Em Demônios, Aluísio Azevedo abandona qualquer contenção. O texto avança como um delírio febril, onde obsessão, desejo e degradação se misturam sem fronteiras claras. O horror aqui não se esconde: ele pulsa, insiste e contamina tudo ao redor.
A narrativa explora o excesso — emocional, moral e psicológico — como força destrutiva. Não há personagens confortáveis, nem situações estáveis. Tudo parece caminhar para a deformação, como se o colapso fosse inevitável desde a primeira linha.
Mais do que um conto de horror, Demônios é um mergulho no descontrole humano. Um texto intenso, desconcertante, que exige fôlego e deixa claro por que certos limites, quando ultrapassados, não permitem retorno.
Os Porcos — Júlia Lopes de Almeida
Aqui, o horror não vem do extraordinário, mas do cotidiano. Os Porcos constrói sua força a partir da brutalidade normalizada, da violência silenciosa e da lógica implacável da sobrevivência. Não há sobrenatural, não há artifícios — apenas a crueza dos fatos.
Júlia Lopes de Almeida escreve com precisão quase cruel, evitando qualquer sentimentalismo. O resultado é um conto profundamente incômodo, onde o grotesco emerge da indiferença, da miséria moral e da ausência de empatia.
O impacto do texto está justamente em sua frieza. Ao final, o leitor não encontra catarse nem lição explícita — apenas a sensação de ter testemunhado algo que preferiria não ter visto. E é exatamente aí que reside sua força.
Estes contos pertencem a uma linhagem que compreendia o horror não como espetáculo, mas como exposição. Eles não pedem empatia, não oferecem consolo e não se preocupam em suavizar o impacto. Limitam-se a mostrar — e, ao fazê-lo, revelam o quanto certas formas de obsessão, excesso e brutalidade sempre estiveram à espreita. Como leitor antigo destas páginas, aprendi que há histórias que não nos acompanham pela memória, mas pelo incômodo. São essas que merecem ser preservadas.
Os contos citados estão em domínio público e podem ser lidos gratuitamente. Mas para quem prefere edições revisadas, atualizadas ou comentadas, há ótimas publicações ─ digitais ou impressas ─ reunindo esses e outros contos. Seguem algumas sugestões, incluindo a nossa edição revisada e com notas de rodapé (clique nas descrições para adquirir):