Se na primeira parte falamos de incômodo, hesitação e espelhos pouco gentis, aqui o passo seguinte se impõe com naturalidade. O horror, quando finalmente assume o centro da narrativa, não abandona a sutileza — mas já não se contenta em apenas sugerir. Ele se insinua com mais firmeza, mais matéria, mais peso.
O horror clássico brasileiro raramente recorre ao espetáculo puro. Ainda assim, quando decide tocar no macabro, o faz com precisão e desconforto duradouro. Os contos reunidos nesta segunda incursão não buscam apenas inquietar: eles perturbam e deformam.
Não há aqui sustos fáceis. Há obsessão, grotesco, morte e uma sensação persistente de que algo foi atravessado — e não deveria.
Um Esqueleto — Machado de Assis
Entre os muitos desvios sombrios de Machado de Assis, Um Esqueleto ocupa um lugar peculiar. Aqui, o autor abandona momentaneamente o realismo mais contido e flerta abertamente com o macabro — sem jamais perder o controle da ironia.
O conto se constrói a partir de uma presença incômoda, quase simbólica, que paira sobre a narrativa como uma ameaça silenciosa. Não se trata apenas de morte, mas da maneira como ela é incorporada ao cotidiano, normalizada, exibida.
Machado transforma o grotesco em instrumento psicológico. O horror não está apenas no objeto central da história, mas na naturalidade com que ele é aceito, explicado e racionalizado. O riso, quando surge, é nervoso. E a sensação final é a de que certas linhas jamais deveriam ter sido cruzadas.
O Bebê de Tarlatana Rosa — João do Rio
Poucos textos capturam tão bem o horror urbano quanto este conto de João do Rio. Ambientado em meio à euforia carnavalesca, O Bebê de Tarlatana Rosa constrói seu efeito a partir do contraste brutal entre festa e deformidade, alegria e repulsa.
A narrativa avança como um desfile que aos poucos perde o brilho e revela algo profundamente errado por trás das máscaras. O grotesco aqui não vem de castelos distantes ou maldições antigas, mas das ruas, da multidão, do excesso.
João do Rio compreendia como poucos o lado sombrio da modernidade. Este conto é prova disso: uma história curta, visual, desconcertante, que termina deixando no leitor uma sensação difícil de nomear — mistura de fascínio, nojo e silêncio.
Dentro da Noite — João do Rio
Em Dentro da Noite, o horror abandona qualquer distância confortável e se instala no espaço mais banal possível: uma conversa noturna, um trem em movimento, vozes que falam baixo enquanto a cidade passa pela janela. João do Rio constrói a narrativa sem pressa, deixando que o inquietante surja não de um acontecimento extraordinário, mas daquilo que é revelado aos poucos.
O conto se sustenta na tensão entre confissão e escuta, entre o impulso e o esforço desesperado de contenção. Não há monstros, não há explicações sobrenaturais. Há obsessão, compulsão e a percepção incômoda de que certas fronteiras, uma vez cruzadas, não se recompõem.
Aqui, o horror é urbano, psicológico e profundamente moderno. Ele não se impõe pela violência explícita, mas pela naturalidade com que o desvio se articula em palavras, raciocínios e justificativas. O efeito final não é o susto, mas a sensação persistente de ameaça — como se algo continuasse a acontecer fora do campo de visão do leitor.
Estes contos pertencem a uma tradição que compreendia o horror não como entretenimento leve, mas como ferramenta de confronto. Eles não confortam, não aliviam, não oferecem distância segura. Aproximam demais.
Os contos citados estão em domínio público e podem ser lidos gratuitamente. Mas para quem prefere edições revisadas, atualizadas ou comentadas, há ótimas publicações ─ digitais ou impressas ─ reunindo esses e outros contos. Seguem algumas sugestões, incluindo a nossa edição revisada e com notas de rodapé (clique nas descrições para adquirir):