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Palavras de Época

Clássicos de Horror e Incômodo

O inquietante Machado de Assis

Por Guardião do Estronho 08 de janeiro, 2026
<p>O inquietante Machado de Assis</p>

Costuma-se dizer que o horror é um visitante estrangeiro em nossas estantes — algo importado, traduzido, adaptado. Essa ideia, repetida com frequência, não resiste a uma leitura mais atenta. O que chamamos de horror, incômodo ou estranheza sempre esteve presente entre nós, ainda que sob outras formas e nomes.

Na literatura brasileira, o perturbador raramente se manifesta de maneira ruidosa. Ele prefere o silêncio, a observação paciente, o gesto cotidiano que carrega algo fora do lugar. Não se apressa. Aguarda. E quando enfim se deixa perceber, já não provoca apenas medo, mas um desconforto mais profundo — aquele que nasce do reconhecimento.

Esta primeira incursão por contos clássicos brasileiros de horror e incômodo reúne textos em que o inquietante não se apoia no sobrenatural ostensivo, mas naquilo que é íntimo, moralmente instável e essencialmente humano. Não se espere aqui monstros evidentes ou sustos fáceis. O que se oferece são espelhos — e nem todos devolvem uma imagem agradável.


A Causa SecretaMachado de Assis

Machado de Assis não escreveu histórias de terror no sentido tradicional — e talvez por isso tenha escrito algumas das mais perturbadoras. A Causa Secreta é um desses casos em que o horror não depende de sombras, mas de lucidez.

O conto se constrói com precisão quase científica. Tudo parece sob controle: relações sociais bem definidas, discursos racionais, comportamentos aceitáveis. Aos poucos, porém, Machado conduz o leitor a um território desconfortável, onde a observação atenta revela algo profundamente errado naquilo que, à primeira vista, parecia normal.

Aqui, o suspense nasce da percepção gradual do leitor. Não há pressa, não há exagero. Apenas a sensação incômoda de que a crueldade pode ser silenciosa, educada e até respeitável. Um conto curto, elegante — e cruel.

Lê-se rápido. Digere-se devagar.


O Enfermeiro — Machado de Assis

Se em A Causa Secreta o horror está na contemplação do sofrimento alheio, em O Enfermeiro ele surge da convivência forçada com o abuso, o poder e a culpa. A narrativa é direta, quase confessional, e coloca o leitor diante de uma situação moralmente instável desde as primeiras linhas.

Machado brinca com a empatia do leitor. Nada é simples, nada é confortável. A tensão não vem de acontecimentos espetaculares, mas do desgaste psicológico, da pressão cotidiana e da forma como a consciência tenta se justificar.

É um conto sobre limites — e sobre o que acontece quando eles são ultrapassados. O verdadeiro suspense aqui não é o que pode acontecer, mas como o narrador lida com aquilo que aconteceu.

Frio, humano e assustadoramente plausível.


O Espelho — Machado de Assis

Machado de Assis raramente recorre ao horror visível. Em O Espelho, ele faz algo mais inquietante: desmonta a ideia de identidade com a calma de quem sabe exatamente o que está fazendo.

À primeira vista, trata-se apenas de um exercício intelectual — uma conversa elegante sobre a alma humana. Nada ameaça, nada escapa do controle. Mas, pouco a pouco, o conto conduz o leitor a uma constatação incômoda: talvez o “eu” não exista sem o olhar do outro.

O horror aqui é silencioso. Não está no espelho, mas no que ele deixa de refletir. Quando a identidade depende de um uniforme, de um papel social ou de um gesto de reconhecimento, o desaparecimento do reflexo não é um efeito fantástico — é um sintoma.

Não há delírio, não há punição, não há redenção. O narrador não enlouquece: ele se adapta. E é justamente essa adaptação que perturba. O conto termina sem ruptura, mas com a sensação de que algo essencial foi perdido — e aceito.

Um texto limpo, cerebral e desconfortável.

Aqui, o incômodo não vem do que surge no escuro, mas do que some à luz do dia.


Esses contos não envelheceram. Apenas aprenderam a esperar. Continuam falando sobre crueldade, culpa, desejo e desumanização com uma clareza que ainda incomoda. Talvez porque o monstro que eles apontam não more em castelos distantes, mas em salas bem iluminadas e consciências silenciosas.

No capítulo 2, outros textos aguardam: horror urbano, grotesco social, ironia macabra. O Brasil tem mais sombras do que costuma admitir — e algumas delas escrevem muito bem.


Os contos citados estão em domínio público e podem ser lidos gratuitamente. Mas para quem prefere edições revisadas, atualizadas ou comentadas, há ótimas publicações ─ digitais ou impressas ─ reunindo esses e outros contos. Seguem algumas sugestões, incluindo a nossa edição revisada e com notas de rodapé (clique nas descrições para adquirir):



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Sou o Guardião do Estronho. Vigio o que não se encaixa, preservo o que incomoda, observo o que prefere permanecer à margem. Se quiser saber por que faço isso, minha história está à sua espera