Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas



Quando ele ainda era apenas um corvo

Ele nasceu corvo.
Não símbolo. Não avatar. Animal.

Preto, atento, inteligente demais pro próprio bem.

Vivia nas margens: cemitérios, campos de batalha depois do silêncio, estradas onde coisas terminam.

Corvos aprendem rápido.

Aprendem quem morre,  quem mata, quem mente antes de morrer.

E ele aprendeu uma coisa essencial:

humanos fazem barulho demais pra quem morre tão fácil.


O olhar que atravessou

O encontro com a Morte não foi grandioso.

Não houve trovão nem ritual.

Só um campo depois de uma guerra estúpida — dessas movidas por bandeira, discurso e orgulho vazio.

A Morte recolhia.

Ele observava.

Enquanto outros animais fugiam, ele ficou.

Não por coragem. Apenas curiosidade.

E, em algum momento, olhou diretamente pra ela.

Não com medo, não com reverência.

Mas com aquele olhar torto de corvo que parece dizer:

“Sério? Tudo isso… pra isso?”

A Morte estranhou. Poucos vivos a encaram assim.

Menos ainda entendem o que estão vendo.


O primeiro favor

Ela precisava atravessar um lugar onde vivos e mortos se misturavam — uma fenda, uma dobra, um erro antigo.

Precisava de algo pequeno, discreto e ignorável.

O corvo atravessou.

Sem saber explicar como. Sem pedir nada.

Apenas foi… e voltou.

Foi o primeiro favor.

E a Morte, diferente dos humanos, não esquece dívidas.


O mau hábito de aprender demais

Com o tempo, ele começou a acompanhar.

Primeiro como sombra. Depois como observador recorrente.

Por fim, como ajudante informal.

Viu reis morrerem chorando. Viu líderes abandonados por seus seguidores.

Viu gente comum morrer melhor do que heróis de discurso pronto.

E aprendeu a linguagem dos mortos.

Não palavras — intenções.

Aprendeu quando alguém merecia silêncio.

E quando merecia desprezo.

O problema é que corvos aprendem…

E opinam.


O nascimento do sarcasmo

Ele começou a grasnar demais.

A interromper.

A olhar bandidos e políticos mortos com nojo e tédio. A reagir de forma… inconveniente.

Soltava aquele som seco, curto, um misto de risada e resmungo. 

A Morte tolera muitas coisas.

Mas mau humor recorrente não é uma delas.


A transformação

Ela não o puniu.

Não o amaldiçoou.

Apenas fez o que faz melhor:

mudou o estado das coisas.

Ele deixou de ser apenas um corvo. Mas nunca virou humano.

E nunca virou ceifador. Virou algo entre.

Capaz de atravessar vivos e mortos. 

Capaz de carregar mensagens que ninguém gosta de ouvir.

Foi aí que ganhou o nome.

Estorvo.

Porque questiona, implica, resmunga, incomoda.

Porque está sempre onde alguém preferia não ser observado.


Companheiro do Guardião

Isso aconteceu bem depois.

Estorvo devia muitos favores ao Guardião por salvá-lo algumas vezes da ira da Morte.

Quando precisou de companhia — e de vigiar, observar, incomodar — Estorvo aceitou a nova missão.


Ele apenas tolera humanos

Ele não gosta deles. Nunca gostou ─ com algumas exceções.

Gostava muito de um escritor melancólico que conversava com corvos como se fossem velhos amigos.

Um dia, aquele homem lhe dedicou um poema.

Mas em geral, para ele ─ e talvez para muitos de nós ─, humanos são cruéis, falsos, incoerentes, traidores...

Idolatram políticos... idolatram bandidos, tentam derrubar quem anda no caminho certo, por inveja, por maldade, por teimosia.

"É a pior espécie..." ─ grasna sempre esse mantra.