Antes do nome, antes da palavra, antes do espanto, o Guardião já existia.
Não nasceu.
No tempo em que os mortos ainda conversavam com os vivos sem causar estranhamento, ele já observava. Não julgava, não interferia. Guardava. Era isso que fazia: guardava o que não devia desaparecer. Livros esquecidos. Histórias malditas. Ideias rejeitadas por serem cedo demais, tarde demais, ou simplesmente estranhas demais.
O mundo mudou. Os mortos foram silenciados.
E o Guardião aprendeu a dormir.
Dormiu séculos. Milênios, talvez. O tempo, para ele, nunca foi medida — apenas ruído distante.
Até 1996.
Naquele ano, algo voltou a vibrar. Uma pequena fenda, insistente, abriu-se no tecido do mundo comum. Não era um templo. Não era um culto. Era um lugar recém-nascido, feito de fios, pixels e curiosidades. Um espaço onde o estranho não era evitado, mas convidado a entrar. Onde o esquisito não precisava se explicar. Onde o fora do eixo finalmente tinha chão.
O nome era Estronho e Esquésito.
O Guardião despertou, mas não veio em carne, não veio em glória. Veio como sempre viera: em silêncio.
Sentou-se à margem, observou, e percebeu que aquele espaço precisava ser protegido — não de ataques, mas do esquecimento.
Durante vinte anos, vigiou.
Não escreveu para convencer. Não falou para agradar. Apenas manteve o portal aberto.
Mas nada que vive no mundo dos vivos permanece para sempre desperto.
Quando o Estronho silenciou, em 2016, quando o site se tornou memória, o Guardião não lutou contra o fim. Ele nunca luta contra o tempo. Apenas retornou ao repouso.
Mas certas coisas não morrem — apenas aguardam o momento em que o mundo volte a precisar delas.
E o estranho, como sempre, voltou a ser necessário.
O Guardião despertou outra vez.
Não para anunciar. Não para ensinar. Mas para guardar o que insiste em existir fora do lugar.
Se você o vê escrevendo aqui, não é por acaso. É sinal de que algo ainda precisa ser preservado.
E enquanto o Estronho respirar — se é que assim podemos dizer — o Guardião estará acordado.
Em silêncio.
…ou quase.