Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Além da Cena

Muito Antes do CGI

Introdução

Por Marcelo D. Amado 27 de janeiro, 2026
<p>Introdução</p>
Ultra Q - Da esquerda para direita: o criador, Eiji Tsuburaya; monstro Kanegon; os atores Kenji Sahara, Hiroko Sakurai e Yasuhiko Saijo; e os montros Pigmon e Peguila. . Tsuburaya Productions

Hoje em dia, quando pensamos em naves espaciais cruzando galáxias ou monstros gigantes destruindo metrópoles, nossa mente vai direto para os processadores potentes e softwares de ponta. Mas houve um tempo — não tão distante assim — em que a magia do cinema não dependia de zeros e uns, mas sim de látex, serragem, fios de nylon e uma dose absurda de criatividade bruta.

Bem-vindos à série de artigos Muito Antes do CGI em nossa seção Além da Cena. Aqui, vamos celebrar a era em que o "impossível" era resolvido na base da marcenaria, da escultura e de truques ópticos que enganavam o olho humano com perfeição. Era o tempo dos efeitos práticos, onde cada frame exigia um esforço físico real da equipe de produção.

Nesta jornada, vamos mergulhar nos bastidores de produções que definiram gerações. Imagine o desafio de dar vida aos dinossauros de O Elo Perdido (Land of the Lost, 1974-1976). Sem a facilidade da animação digital, a série dependia do fascinante (e minucioso) trabalho de stop-motion, onde cada movimento milimétrico resultava em segundos de puro encantamento na tela.

E o que dizer do gênero Tokusatsu? Séries como Ultraman (1966) e Ultra Q (1966) transformaram o conceito de escala. Aquelas cidades de miniatura, destruídas por dublês em roupas de borracha pesadíssimas, não eram apenas "efeitos baratos"; eram coreografias complexas de engenharia e pirotecnia que criaram uma estética única e adorada até hoje.


Maquetes, Linhas de Pesca e Estrelas

A ficção científica espacial também deve tudo aos artistas das maquetes. Antes de Star Wars se tornar um império digital, a Millennium Falcon e os Star Destroyers eram modelos físicos detalhadíssimos, filmados com câmeras de controle de movimento que faziam pequenos objetos parecerem colossos de metal. Da mesma forma, os submarinos que navegavam por "oceanos" de estúdio e as naves que pareciam flutuar no vácuo dependiam de truques de perspectiva e iluminação que desafiavam a lógica.

Nesta série, não vamos apenas listar filmes; vamos dissecar a engenhosidade por trás das câmeras. Vamos entender como o uso de miniaturas, matte paintings (aquelas pinturas em vidro que criavam cenários infinitos) e maquiagem protética construíram os mundos que ainda habitam nossos sonhos.


"É ridículo!"

Ah, mas as gerações mais recentes acham tudo ridículo, cafona, malfeito... Os carrinhos de brinquedo no Ultraman... e a montanha de pano que balança... Os fios de nylon aparecendo no Spectreman...

Ora, que se explodam em CGI se quiserem. Gostaria de ver esses que criticam fazerem um décimo do que esse pessoal fazia, mas usando os mesmos recursos deles; nada de modernidades, nem mesmo uma impressora 3D. É no isopor, papelão, palito de picolé, borracha e por aí vai.

Ridículo... Ridículo pra mim é quem não consegue dar valor à criatividade e a capacidade humana de se reinventar e improvisar, quando as necessidades aparecem e os recursos são quase inexistentes.

Humanos são uma bosta? Sim... Humanos são o mal do planeta? Sim... Mas dá pra peneirar gente boa e interessante nesse meio.

Timidamente há um pequeno movimento de retorno atualmente. Há diretores e equipes de efeitos especiais voltando para as maquetes, para efeitos raiz. Claro... eles possuem mais recursos e conseguirão um resultado muito melhor que seus antecessores, mas a criatividade está de volta, a mão na massa está de volta. O prazer em fazer cinema raiz — ou TV — começa a ser injetada novamente nas veias. Começou no cinema underground, inclusive temos bons representantes no Brasil, e está se espalhando por aí.

Mas... o que nos interessa aqui são os pioneiros, os loucos, insanos... aqueles que deram para várias gerações o poder de usufruir da imaginação de cada um.

Prepare-se para descobrir que, às vezes, a maior tecnologia de todas é a capacidade humana de improvisar, adaptar e criar o fantástico com as próprias mãos.

Eles fizeram o impossível com quase nada — e isso merece ser entendido, respeitado e admirado, antes de ser ridicularizado.

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.