Poucos veículos da cultura pop carregam tanta personalidade quanto a Black Beauty — a Beleza Negra — o carro do Besouro Verde. Mais do que meio de transporte, ele sempre foi uma extensão do próprio personagem: discreto por fora, brutal por dentro. Abaixo, vamos passar cronologicamente por cada encarnação, separando mito, ficção e o que de fato existiu nas telas.
Os seriados cinematográficos (1940–1941)
The Green Hornet (1940) e The Green Hornet Strikes Again! (1941)
Nos seriados exibidos nos cinemas no início dos anos 1940, o carro já atendia pelo nome Black Beauty. Diferente das versões posteriores, aqui o foco não era ostentação, mas eficiência e intimidação silenciosa. A série de 1940 contou com direção de Ford Beebe
e Ray Taylor
. Nos papéis principais, Gordon Jones
(Britt Reid), Keye Luke
(Kato) e Anne Nagel
(Leonore Case); Na versão de 1941, Warren Hull
substituiu Gordon Jones no papel principal ─ abordaremos essa série em breve, na seção Maratona Silenciosa.
Embora os estúdios nunca tenham documentado oficialmente o modelo com precisão absoluta, fontes especializadas e wikis bem referenciadas apontam para um Lincoln Zephyr do final dos anos 1930 (provavelmente 1937–1939) como base visual do carro.
O carro real
Lançado na década de 1920, o Lincoln brilhou como fabricante de carros de luxo, com carrocerias personalizadas e forte injeção de capital da Ford. A Grande Depressão dos anos 1930, porém, devastou o setor, especialmente a Lincoln, que carecia de um modelo intermediário acessível.
Em 1935, as vendas da Série K – grandes e caros, a partir de US$ 4.200 (oito vezes um cupê Ford) – despencaram para apenas 830 unidades, deixando a marca à beira do colapso. A salvação veio com o Zephyr, uma adição essencial à linha.
Estreado em novembro de 1935 como modelo 1936, o Lincoln Zephyr foi aclamado como o primeiro carro de produção americano com design aerodinâmico atraente – superando o Chrysler de 1934, considerado feio pela maioria. Seu nome inspirou-se no famoso trem Burlington Zephyr.
Equipado com motor V12 de 267 polegadas cúbicas (4,4 litros), 110 cv e carburador duplo, prometia 14-18 milhas por galão, 0-60 mph em 16 segundos, peso de cerca de 3.400 libras e pneus 7:00 x 16.

A Black Beauty
O Lincoln Zephyr fazia muito sentido para a série, pois tinha design aerodinâmico para a época, aparência moderna e sofisticada, além de uma silhueta distinta, ideal para criar um “carro-mito”.
Dentro da narrativa, a Black Beauty era blindada (ou ao menos retratada como extremamente resistente), rápida e silenciosa, equipada com compartimentos ocultos e dispositivos mecânicos improvisados.
Nada era mostrado com detalhamento técnico — o carro funcionava mais como um elemento simbólico, quase sobrenatural, reforçando a aura do Besouro Verde como uma ameaça invisível ao crime organizado. Aqui nasce a ideia central que atravessaria décadas: luxo discreto + violência calculada.

A série de TV (1966–1967)
O nascimento do ícone definitivo
Foi na televisão que a Black Beauty ganhou sua forma mais famosa — e definitiva. A série estrelada por Van Williams
(Britt Reid) e Bruce Lee
(Kato), elevou o carro ao status de lenda.
O veículo-base era um Chrysler Imperial Crown Sedan 1966. O Imperial era, na época, o topo absoluto da Chrysler: grande, pesado, luxuoso, motor V8 parrudo. Exatamente o oposto de um “carro de herói tradicional”. E justamente por isso, perfeito ─ vale lembrar que outra série abordada aqui, Ultraman / Ultraseven, também utilizou um Chrysler Imperial como carro base, mas nesse caso era um 1957.

Customização
A transformação ficou a cargo de Dean Jeffries
, um dos maiores nomes do custom automotivo hollywoodiano. As principais modificações visuais foram: um pintura preta brilhante profunda, faróis verdes exclusivos, grade dianteira personalizada e interior totalmente redesenhado.
Já como principais equipamentos (ficcionais), temos: metralhadoras ocultas, lançadores de foguetes, liberação de cortina de fumaça, sistema de rastreamento, e comunicação direta com Kato. Truques cenográficos que convenceram uma geração inteira.
Aparentemente, duas unidades principais foram construídas para a série, sendo que uma delas está preservada em museu.

Batman e Besouro Verde juntos
No fim da segunda temporada da série Batman (1966-1967), houve um crossover das duas séries numa sequência de dois episódios: A Piece of the Action e Batman's Satisfaction, onde aconteceu o encontro de dois carros mais icônicos da história.
Besouro Verde e Kato chegam a Gotham City para investigar e desmantelar uma quadrilha de falsificação de selos valiosos liderada pelo Coronel Gumm, interpretado por Roger C. Carmel
. Batman e Robin também estavam de olho na quadrilha e acabam confundindo a dupla com cúmplices de Gumm, o que gera muita confusão e quase uma pancadaria, interrompida pela polícia.
O filme The Green Hornet (2011)
Nessa versão longa metragem, dirigida por Michel Gondry
, temos Seth Rogen
como Britt Reid e Jay Chou
como Kato. No elenco, outras estrelas como Christoph Waltz
, Cameron Diaz
, David Harbour
, dentre outros. Não vou entrar na cilada de comentar sobre o filme, porque não é o objetivo aqui.
O filme de 2011 tentou atualizar o conceito sem romper com o passado. A decisão foi clara: respeitar o visual clássico, mas adaptar o carro para cenas de ação mais violentas.
A produção optou por manter a linhagem Imperial ─ majoritariamente modelos entre 1964 e 1966 ─ mesmo isso significando mais peso e menos agilidade real.
Há divergências entre as fontes pesquisadas, mas aproximadamente 29 carros foram construídos ou adaptados, com muitos deles sendo sacrificados depois de capotamentos, explosões e destruição programada.
Além das modificações cenográficas, foram construídas estruturas reforçadas para proteger os dublês.

O DNA dos carros da série
Apesar das diferenças de época, orçamento e linguagem visual, todas as Black Beauties compartilham o mesmo DNA:
- Cor preta, sempre;
- Aparência de carro executivo, não esportivo;
- Contraste entre luxo e brutalidade;
- Ideia de tecnologia escondida, não exibida
O carro do Besouro Verde nunca quis parecer rápido. Ele queria parecer inevitável.
Já nasceu tão predestinado que até mesmo na série no rádio ─ que foi ao ar em 31 de janeiro de 1936 em Detroit, Michigan ─, a descrição narrada aos ouvintes sobre a Black Beauty era detalhada e impecável.
Do Lincoln Zephyr ─ meu preferido, se é que isso importa ─ insinuado nos anos 1940 ao Chrysler Imperial massacrado em 2011, a Black Beauty sempre refletiu o espírito do personagem: um vigilante que opera nas sombras, usando o sistema contra ele mesmo.
Não é exagero dizer que, sem esse carro, o Besouro Verde seria apenas mais um herói mascarado. Com ele, virou lenda.
Fontes pesquisadas: Auto Sketch, Green Hornet Wiki, Superhero Wiki, CNET, Vintage Clássicos, iMDB