Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Além da Cena

Máquinas Lendárias
Black Beauty — O Besouro Verde

Não era só um carro, era mais um herói mascarado

Próximo artigo disponível em : 20/02/2026 • 18:00
Por Marcelo D. Amado 07 de fevereiro, 2026
Black Beauty — <i>O Besouro Verde</i>
Black Beauty, The Green Hornet (1966) 20th Century Fox Television / Greenway Productions

Poucos veículos da cultura pop carregam tanta personalidade quanto a Black Beauty — a Beleza Negra — o carro do Besouro Verde. Mais do que meio de transporte, ele sempre foi uma extensão do próprio personagem: discreto por fora, brutal por dentro. Abaixo, vamos passar cronologicamente por cada encarnação, separando mito, ficção e o que de fato existiu nas telas.


Os seriados cinematográficos (1940–1941)

The Green Hornet (1940) e The Green Hornet Strikes Again! (1941)

Nos seriados exibidos nos cinemas no início dos anos 1940, o carro já atendia pelo nome Black Beauty. Diferente das versões posteriores, aqui o foco não era ostentação, mas eficiência e intimidação silenciosa. A série de 1940 contou com direção de Ford Beebe e Ray Taylor. Nos papéis principais, Gordon Jones (Britt Reid), Keye Luke (Kato) e Anne Nagel (Leonore Case); Na versão de 1941, Warren Hull substituiu Gordon Jones no papel principal ─ abordaremos essa série em breve, na seção Maratona Silenciosa

Embora os estúdios nunca tenham documentado oficialmente o modelo com precisão absoluta, fontes especializadas e wikis bem referenciadas apontam para um Lincoln Zephyr do final dos anos 1930 (provavelmente 1937–1939) como base visual do carro.


O carro real

Lançado na década de 1920, o Lincoln brilhou como fabricante de carros de luxo, com carrocerias personalizadas e forte injeção de capital da Ford. A Grande Depressão dos anos 1930, porém, devastou o setor, especialmente a Lincoln, que carecia de um modelo intermediário acessível.

Em 1935, as vendas da Série K – grandes e caros, a partir de US$ 4.200 (oito vezes um cupê Ford) – despencaram para apenas 830 unidades, deixando a marca à beira do colapso. A salvação veio com o Zephyr, uma adição essencial à linha.

Estreado em novembro de 1935 como modelo 1936, o Lincoln Zephyr foi aclamado como o primeiro carro de produção americano com design aerodinâmico atraente – superando o Chrysler de 1934, considerado feio pela maioria. Seu nome inspirou-se no famoso trem Burlington Zephyr.

Equipado com motor V12 de 267 polegadas cúbicas (4,4 litros), 110 cv e carburador duplo, prometia 14-18 milhas por galão, 0-60 mph em 16 segundos, peso de cerca de 3.400 libras e pneus 7:00 x 16.

Lincoln Zephyr Coupe 1937, original - Foto de Classic.com


A Black Beauty

O Lincoln Zephyr fazia muito sentido para a série, pois tinha design aerodinâmico para a época, aparência moderna e sofisticada, além de uma silhueta distinta, ideal para criar um “carro-mito”. 

Dentro da narrativa, a Black Beauty era blindada (ou ao menos retratada como extremamente resistente), rápida e silenciosa, equipada com compartimentos ocultos e dispositivos mecânicos improvisados.

Nada era mostrado com detalhamento técnico — o carro funcionava mais como um elemento simbólico, quase sobrenatural, reforçando a aura do Besouro Verde como uma ameaça invisível ao crime organizado. Aqui nasce a ideia central que atravessaria décadas: luxo discreto + violência calculada.

Black Beauty em cenas das séries de 1940 e 1941


A série de TV (1966–1967) 

O nascimento do ícone definitivo

Foi na televisão que a Black Beauty ganhou sua forma mais famosa — e definitiva. A série estrelada por Van Williams (Britt Reid) e Bruce Lee (Kato), elevou o carro ao status de lenda.

O veículo-base era um Chrysler Imperial Crown Sedan 1966.  O Imperial era, na época, o topo absoluto da Chrysler: grande, pesado, luxuoso, motor V8 parrudo. Exatamente o oposto de um “carro de herói tradicional”. E justamente por isso, perfeito ─ vale lembrar que outra série abordada aqui, Ultraman / Ultraseven, também utilizou um Chrysler Imperial como carro base, mas nesse caso era um 1957.

Imperial Crown 1966 - Foto: Bring a Trailer

Customização

A transformação ficou a cargo de Dean Jeffries, um dos maiores nomes do custom automotivo hollywoodiano. As principais modificações visuais foram: um pintura preta brilhante profunda, faróis verdes exclusivos, grade dianteira personalizada e interior totalmente redesenhado.

Já como principais equipamentos (ficcionais), temos: metralhadoras ocultas, lançadores de foguetes, liberação de cortina de fumaça, sistema de rastreamento, e comunicação direta com Kato. Truques cenográficos que convenceram uma geração inteira.

Aparentemente, duas unidades principais foram construídas para a série, sendo que uma delas está preservada em museu.


Foto promocional do episódio 5 da primeira temporada de 1966, com Van Williams e Bruce Lee


Batman e Besouro Verde juntos

No fim da segunda temporada da série Batman (1966-1967), houve um crossover das duas séries numa sequência de dois episódios: A Piece of the Action e Batman's Satisfaction, onde aconteceu o encontro de dois carros mais icônicos da história.

Besouro Verde e Kato chegam a Gotham City para investigar e desmantelar uma quadrilha de falsificação de selos valiosos liderada pelo Coronel Gumm, interpretado por Roger C. Carmel. Batman e Robin também estavam de olho na quadrilha e acabam confundindo a dupla com cúmplices de Gumm, o que gera muita confusão e quase uma pancadaria, interrompida pela polícia.



O filme The Green Hornet (2011)

Nessa versão longa metragem, dirigida por Michel Gondry, temos Seth Rogen como Britt Reid e Jay Chou como Kato. No elenco, outras estrelas como Christoph Waltz, Cameron Diaz, David Harbour, dentre outros. Não vou entrar na cilada de comentar sobre o filme, porque não é o objetivo aqui.

O filme de 2011 tentou atualizar o conceito sem romper com o passado. A decisão foi clara: respeitar o visual clássico, mas adaptar o carro para cenas de ação mais violentas.

A produção optou por manter a linhagem Imperial ─ majoritariamente modelos entre 1964 e 1966 ─ mesmo isso significando mais peso e menos agilidade real.

Há divergências entre as fontes pesquisadas, mas aproximadamente 29 carros foram construídos ou adaptados, com muitos deles sendo sacrificados depois de capotamentos, explosões e destruição programada.

Além das modificações cenográficas, foram construídas estruturas reforçadas para proteger os dublês.

Destaque para Jay Chou sobre o capô da Black Beauty 2011


O DNA dos carros da série

Apesar das diferenças de época, orçamento e linguagem visual, todas as Black Beauties compartilham o mesmo DNA:

  • Cor preta, sempre; 
  • Aparência de carro executivo, não esportivo;
  • Contraste entre luxo e brutalidade; 
  • Ideia de tecnologia escondida, não exibida

O carro do Besouro Verde nunca quis parecer rápido. Ele queria parecer inevitável.

Já nasceu tão predestinado que até mesmo na série no rádio ─ que foi ao ar em 31 de janeiro de 1936 em Detroit, Michigan ─, a descrição narrada aos ouvintes sobre a Black Beauty era detalhada e impecável.

Do Lincoln Zephyr ─ meu preferido, se é que isso importa ─ insinuado nos anos 1940 ao Chrysler Imperial massacrado em 2011, a Black Beauty sempre refletiu o espírito do personagem: um vigilante que opera nas sombras, usando o sistema contra ele mesmo.

Não é exagero dizer que, sem esse carro, o Besouro Verde seria apenas mais um herói mascarado. Com ele, virou lenda.



Fontes pesquisadas: Auto Sketch, Green Hornet Wiki, Superhero Wiki, CNET, Vintage Clássicos, iMDB

A saga continua...

Próximo artigo disponível em
20/02/2026 às 18:00

General Lee, o astro de The Dukes of Hazzard

Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.