Se você cresceu assistindo TV nos anos 80, o som do motor V8 acelerando acompanhado por uma trilha sonora militar triunfante é capaz de despertar memórias instantâneas. O Esquadrão Classe A (The A-Team, 1983-1987) não era apenas sobre quatro veteranos injustiçados ajudando os oprimidos; era sobre a harmonia perfeita entre explosões, planos mirabolantes e uma GMC Vandura 1983 que parecia capaz de atravessar paredes de concreto sem arranhar a pintura. Conduzida com um zelo quase religioso por B.A. Baracus, a van era o quartel-general móvel da equipe e se tornou, sem dúvida, o veículo utilitário mais famoso da história de Hollywood.
O Esquadrão: criminosos que você ia querer contratar

, Dwight Schultz,
Mr. T
e George Peppard
- Copyright by NBC (National Broadcasting Company)Um breve parêntese: o retorno em 2010
Embora o nosso foco seja a lenda da TV, não podemos deixar de mencionar a versão que as gerações mais recentes conheceram nos cinemas. No filme de 2010 ─ Esquadrão Classe A (The A-Team), com direção de Joe Carnahan
─, a produção fez um esforço notável para recriar a van original. Eles utilizaram uma Chevrolet G20 (modelo irmão da GMC Vandura), mantendo a icônica listra e as rodas pretas com detalhes em vermelho. No entanto, para os fãs mais puristas e atentos aos detalhes, nada supera a presença e o "peso" da GMC Vandura dos anos 80, que estabeleceu o padrão de ouro para o que um veículo de fuga deve ser.
O segredo escondido nas sombras (e nos tubos de imagem)
Se você puxar pela memória pode jurar que a van era inteiramente preta. Mas aqui reside um dos enganos mais frequentes daqueles que se lembram mais ou menos da série: a van do Esquadrão Classe A era, na verdade, bicolor. Enquanto a parte inferior e os para-choques eram de um preto profundo, a seção acima da listra vermelha era pintada em um cinza metálico escuro (charcoal grey).
Por que muitos de nós não percebíamos isso? A culpa é da tecnologia da época. Nos anos 80, as TVs de tubo e o sinal analógico tinham uma definição limitada e um contraste que tendia a "esmagar" os tons escuros. Naquela tela pequena e quadrada, o cinza metálico acabava se fundindo ao preto, criando a ilusão de um veículo monocromático. Essa escolha de cor não foi por acaso; o cinza ajudava a dar volume e reflexo à carroceria sob as luzes fortes dos estúdios, impedindo que a van virasse apenas uma "mancha negra" nas cenas de perseguição.
O Nome "Vandura" era um trocadilho com Van e Durable (durável), reforçando a ideia de um veículo para trabalho pesado.
Outra característica forte era sua capacidade de customização. A série G da GM foi uma das favoritas da "Van Culture" nos EUA durante os anos 70 e 80. O chassi era liso e reto, o que facilitava muito a instalação de painéis internos, camas, e até jacuzzis (coisa comum nas vans customizadas da época).

Dublês de lata: o malabarismo para não destruir o ícone
Para não estourar o orçamento, o Esquadrão Classe A tinha seus próprios truques de "mágica" automotiva. Manter uma GMC Vandura impecável para os closes era caro. Por isso, a produção utilizava uma frota hierárquica. A "Hero Van" era a van perfeita, com o interior luxuoso e pintura brilhante, usada apenas para cenas com os atores entrando ou saindo. Já as vans dublês, para os saltos acrobáticos e batidas, eram vans "descartáveis". Muitas vezes eram utilizadas a Chevrolet G20, sua irmã quase idêntica, porém mais barata e, pasmem, até mesmo algumas Ford. Essa informação foi confirmada pelo coordenador de dublês, Craig Baxley
. Se você pausar o vídeo exatamente no momento de um salto, verá detalhes reveladores: em várias cenas, o teto solar desaparece e a listra vermelha nem sempre está no tom exato.
Mas apesar disso, a produção destruiu "apenas" quatro vans, não chegando nem perto do número exorbitante de carros destruídos na série Os Gatões (The Dukes of Hazzard, 1979-1985), cujo número gira em torno de 250 a 320 exemplares destruídos do Dodge Charger... mas isso é papo para outro artigo.
O Truque do Chassi: Para aguentar os pousos após voar sobre carros de polícia, essas vans dublês eram reforçadas com chapas de aço, mas o impacto era tão violento que muitas vezes o chassi entortava instantaneamente. Se a câmera continuasse gravando por mais três segundos, veríamos o carro mal conseguindo andar em linha reta.
As rodas American Racing Vector de 15 polegadas, com pneus largos, ajudavam na estabilidade lateral, necessária para um veículo tão alto e pesado fazer curvas em perseguições. O quebra-mato frontal (o brush guard) era funcional: servia para empurrar outros carros e proteger o radiador de detritos durante as famosas batidas da série.
Essa necessidade de preservar o "modelo principal" explica por que, para o espectador atento, a van parecia mudar levemente de personalidade entre uma cena de diálogo e uma perseguição frenética. Era o puro suco do entretenimento dos anos 80: o que importava não era a perfeição técnica, mas o impacto visual daquela máquina voando sobre o asfalto.
Sob o capô: a força da GMC Vandura
Embora a série fizesse parecer que a van era um carro de corrida, a GMC Vandura G-1500 era, na sua essência, um "burro de carga" projetado para durabilidade e transporte de carga pesada. No mundo real, as configurações variavam, mas o modelo que serviu de base para a série era geralmente equipado com o que a GM tinha de melhor em termos de torque.
Especificações Técnicas (Modelo 1983): MotorV8 de 5.7 litros (350 polegadas cúbicas) Small Block; Potência aproximada de 160 a 190 cv (dependendo da calibração de emissões); Transmissão automática de 3 velocidades (Turbo Hydra-Matic 350 ou 400); TraçãoTraseira (RWD); SuspensãoDianteira independente com molas helicoidais; Traseira com eixo rígido e feixe de molas.
Consumo: Como qualquer V8 americano daquela era, a Vandura era famosa por "beber" muito combustível. Em condições reais, ela fazia cerca de 4 a 5 km por litro, algo que o B.A. Baracus provavelmente ignorava enquanto fugia da Polícia!
O legado
Hoje, mais de quatro décadas depois de sua estreia, a GMC Vandura do Esquadrão Classe A transcendeu o status de um simples adereço de TV. Ela é um ícone cultural que personifica a estética de uma era. As poucas unidades originais utilizadas pela Universal Studios que sobreviveram aos saltos e explosões são hoje peças de museu ou tesouros em coleções particulares, alcançando valores astronômicos em leilões.
Mas o verdadeiro legado da van não está nos museus, e sim nas ruas. Ela inspirou milhares de entusiastas ao redor do mundo a transformarem suas próprias vans comuns em réplicas fiéis (algumas até com o cinza metálico correto!). O "efeito A-Team" provou que, com a customização certa e um pouco de atitude, até o mais pesado dos utilitários de carga pode se tornar um símbolo de aventura e lealdade. No fim das contas, a van não era apenas o meio de transporte do B.A. Baracus; ela era o coração metálico de uma equipe que ensinou a uma geração que nenhum problema é grande demais quando se tem os amigos certos e o carro certo na garagem.
Bom, eu não tenho uma dessas na minha garagem, mas tenho uma miniatura dessa belezinha em minha estante.