Estronho e esquésito

cinema, literatura e estranhezas


Além da Cena

Máquinas Lendárias
GMC Vandura: um sonho de infância

Nos anos 80, nenhuma criança queria uma Ferrari; elas queriam uma van preta com uma listra vermelha.

Por Marcelo D. Amado 24 de janeiro, 2026
GMC Vandura: um sonho de infância
GMC Vandura iMDB

Se você cresceu assistindo TV nos anos 80, o som do motor V8 acelerando acompanhado por uma trilha sonora militar triunfante é capaz de despertar memórias instantâneas. O Esquadrão Classe A (The A-Team, 1983-1987) não era apenas sobre quatro veteranos injustiçados ajudando os oprimidos; era sobre a harmonia perfeita entre explosões, planos mirabolantes e uma GMC Vandura 1983 que parecia capaz de atravessar paredes de concreto sem arranhar a pintura. Conduzida com um zelo quase religioso por B.A. Baracus, a van era o quartel-general móvel da equipe e se tornou, sem dúvida, o veículo utilitário mais famoso da história de Hollywood.

O Esquadrão: criminosos que você ia querer contratar

Na imagem: Dirk Benedict, Dwight Schultz, Mr. T e George Peppard - Copyright by NBC (National Broadcasting Company)

Lançada em 1983 pela NBC ─ criação de Frank Lupo e Stephen J. Cannel ─, a série acompanhava um grupo de elite das Forças Especiais do Exército dos EUA que, em 1972, foi condenado por um crime que não cometeu. Após escaparem de uma prisão de segurança máxima, eles passaram a viver no submundo de Los Angeles como soldados da fortuna. Liderados pelo mestre dos disfarces, o Coronel Hannibal Smith (interpretado pelo veterano George Peppard), o grupo contava com o galã Cara-de-Pau (Dirk Benedict), o piloto "louco" Murdock (Dwight Schultz) e o mecânico de força bruta B.A. Baracus, imortalizado pela presença imponente de Mr. T. A premissa era simples, mas viciante: se você tivesse um problema, se ninguém mais pudesse ajudar e se você conseguisse encontrá-los, você poderia contratar o Esquadrão Classe A. E, invariavelmente, eles chegariam ao resgate a bordo de sua inconfundível van.


Um breve parêntese: o retorno em 2010

Embora o nosso foco seja a lenda da TV, não podemos deixar de mencionar a versão que as gerações mais recentes conheceram nos cinemas. No filme de 2010 ─ Esquadrão Classe A (The A-Team), com direção de Joe Carnahan ─, a produção fez um esforço notável para recriar a van original. Eles utilizaram uma Chevrolet G20 (modelo irmão da GMC Vandura), mantendo a icônica listra e as rodas pretas com detalhes em vermelho. No entanto, para os fãs mais puristas e atentos aos detalhes, nada supera a presença e o "peso" da GMC Vandura dos anos 80, que estabeleceu o padrão de ouro para o que um veículo de fuga deve ser.

O segredo escondido nas sombras (e nos tubos de imagem)

Se você puxar pela memória pode jurar que a van era inteiramente preta. Mas aqui reside um dos enganos mais frequentes daqueles que se lembram mais ou menos da série: a van do Esquadrão Classe A era, na verdade, bicolor. Enquanto a parte inferior e os para-choques eram de um preto profundo, a seção acima da listra vermelha era pintada em um cinza metálico escuro (charcoal grey).

Por que muitos de nós não percebíamos isso? A culpa é da tecnologia da época. Nos anos 80, as TVs de tubo e o sinal analógico tinham uma definição limitada e um contraste que tendia a "esmagar" os tons escuros. Naquela tela pequena e quadrada, o cinza metálico acabava se fundindo ao preto, criando a ilusão de um veículo monocromático. Essa escolha de cor não foi por acaso; o cinza ajudava a dar volume e reflexo à carroceria sob as luzes fortes dos estúdios, impedindo que a van virasse apenas uma "mancha negra" nas cenas de perseguição.

O Nome "Vandura" era um trocadilho com Van e Durable (durável), reforçando a ideia de um veículo para trabalho pesado.

Outra característica forte era sua capacidade de customização. A série G da GM foi uma das favoritas da "Van Culture" nos EUA durante os anos 70 e 80. O chassi era liso e reto, o que facilitava muito a instalação de painéis internos, camas, e até jacuzzis (coisa comum nas vans customizadas da época).


GMC Vandura – Entendemos perfeitamente os ciúmes de B.A. Baracus

Dublês de lata: o malabarismo para não destruir o ícone

Para não estourar o orçamento, o Esquadrão Classe A tinha seus próprios truques de "mágica" automotiva. Manter uma GMC Vandura impecável para os closes era caro. Por isso, a produção utilizava uma frota hierárquica. A "Hero Van" era a van perfeita, com o interior luxuoso e pintura brilhante, usada apenas para cenas com os atores entrando ou saindo. Já as vans dublês, para os saltos acrobáticos e batidas, eram vans "descartáveis". Muitas vezes eram utilizadas a Chevrolet G20, sua irmã quase idêntica, porém mais barata e, pasmem, até mesmo algumas Ford. Essa informação foi confirmada pelo coordenador de dublês, Craig Baxley. Se você pausar o vídeo exatamente no momento de um salto, verá detalhes reveladores: em várias cenas, o teto solar desaparece e a listra vermelha nem sempre está no tom exato.

Mas apesar  disso, a produção destruiu "apenas" quatro vans, não chegando nem perto do número exorbitante de carros destruídos na série Os Gatões (The Dukes of Hazzard, 1979-1985), cujo número gira em torno de 250 a 320 exemplares destruídos do Dodge Charger... mas isso é papo para outro artigo.

O Truque do Chassi: Para aguentar os pousos após voar sobre carros de polícia, essas vans dublês eram reforçadas com chapas de aço, mas o impacto era tão violento que muitas vezes o chassi entortava instantaneamente. Se a câmera continuasse gravando por mais três segundos, veríamos o carro mal conseguindo andar em linha reta.

As rodas American Racing Vector de 15 polegadas, com pneus largos, ajudavam na estabilidade lateral, necessária para um veículo tão alto e pesado fazer curvas em perseguições. O quebra-mato frontal (o brush guard) era funcional: servia para empurrar outros carros e proteger o radiador de detritos durante as famosas batidas da série.

Essa necessidade de preservar o "modelo principal" explica por que, para o espectador atento, a van parecia mudar levemente de personalidade entre uma cena de diálogo e uma perseguição frenética. Era o puro suco do entretenimento dos anos 80: o que importava não era a perfeição técnica, mas o impacto visual daquela máquina voando sobre o asfalto.

Sob o capô: a força da GMC Vandura

Embora a série fizesse parecer que a van era um carro de corrida, a GMC Vandura G-1500 era, na sua essência, um "burro de carga" projetado para durabilidade e transporte de carga pesada. No mundo real, as configurações variavam, mas o modelo que serviu de base para a série era geralmente equipado com o que a GM tinha de melhor em termos de torque.

Especificações Técnicas (Modelo 1983):  MotorV8 de 5.7 litros (350 polegadas cúbicas) Small Block; Potência aproximada de 160 a 190 cv (dependendo da calibração de emissões); Transmissão automática de 3 velocidades (Turbo Hydra-Matic 350 ou 400); TraçãoTraseira (RWD); SuspensãoDianteira independente com molas helicoidais; Traseira com eixo rígido e feixe de molas.

Consumo: Como qualquer V8 americano daquela era, a Vandura era famosa por "beber" muito combustível. Em condições reais, ela fazia cerca de 4 a 5 km por litro, algo que o B.A. Baracus provavelmente ignorava enquanto fugia da Polícia!

O legado

Hoje, mais de quatro décadas depois de sua estreia, a GMC Vandura do Esquadrão Classe A transcendeu o status de um simples adereço de TV. Ela é um ícone cultural que personifica a estética de uma era. As poucas unidades originais utilizadas pela Universal Studios que sobreviveram aos saltos e explosões são hoje peças de museu ou tesouros em coleções particulares, alcançando valores astronômicos em leilões.

Mas o verdadeiro legado da van não está nos museus, e sim nas ruas. Ela inspirou milhares de entusiastas ao redor do mundo a transformarem suas próprias vans comuns em réplicas fiéis (algumas até com o cinza metálico correto!). O "efeito A-Team" provou que, com a customização certa e um pouco de atitude, até o mais pesado dos utilitários de carga pode se tornar um símbolo de aventura e lealdade. No fim das contas, a van não era apenas o meio de transporte do B.A. Baracus; ela era o coração metálico de uma equipe que ensinou a uma geração que nenhum problema é grande demais quando se tem os amigos certos e o carro certo na garagem. 

Bom, eu não tenho uma dessas na minha garagem, mas tenho uma miniatura dessa belezinha em minha estante.



Marcelo D. Amado

Marcelo D. Amado

Criador do Estronho em 1996, um dos fundadores da Editora Estronho em 2011. Coordenou e editou inúmeros livros sobre cinema e tv. É escritor, autor de Ele tem o sopro do Diabo nos pulmões e outros títulos. Atualmente trabalhando como Dev Sênior na Vintage Words Studio.