O General Lee não é apenas um carro de série de televisão. Para muitos fãs da série ─ me incluo nessa lista ─, ele é o personagem principal de The Dukes of Hazzard. Mais do que um meio de transporte para os primos Bo e Luke Duke, o carro tornou-se um ícone cultural da força, da rebeldia sulista e das perseguições automobilísticas de tirar o fôlego que definiram a televisão entre 1979 e 1985.
Na nossa época não conhecíamos o termo Crush, mas tínhamos dois na série: Catherine Bach
(a Daisy Duke) e o nosso amado General Lee.

(Luke Duke) e John Schneider
(Bo Duke) em The Dukes of Hazzard (no Brasil, Os Gatões)Origens e inspiração
A linhagem do General Lee remonta à vida real. O criador da série, Gy Waldron
, baseou a história nas experiências do contrabandista de bebidas Jerry Rushing
. O carro original de Rushing era um Chrysler 300D de 1958 chamado "Traveller", batizado em homenagem ao cavalo favorito do General Robert E. Lee. Quando a série foi concebida (derivada do filme Moonrunners de 1975, com direção do próprio Gy Waldron), o nome foi adaptado para "General Lee".
Curiosamente, o modelo Dodge Charger não foi a primeira escolha. Waldron considerou um Pontiac Firebird ─ que foi destaque no filme Smokey and the Bandit (1977, Hal Needham
) ─, mas o coordenador de dublês Al Wyatt Sr.
insistiu no Charger de 1969 pela sua durabilidade e desempenho em saltos, lição aprendida durante as filmagens de Dirty Mary, Crazy Larry (1974, John Hough
).

Especificações técnicas e design
O General Lee "padrão" é um Dodge Charger R/T 1969 (embora modelos de 1968 tenham sido amplamente usados e modificados para parecerem 1969).
- Pintura: a cor icônica é frequentemente citada como "Hemi Orange", mas há divergências técnicas. Há quem afirme que a cor era "Flame Red" do Corvette 1975, mas, segundo o site TopSpeed, essa cor sequer existia no catálogo da fábrica. Outro site, o Motorious, foi além do disse me disse da internet e resolver escanear a cor da tampa de um porta-malas de uma unidade original, e chegou no veredito final: a cor era "TNT Express", usada por uma empresa de transportes em sua frota de entrega.
Entre a segunda e quarta temporada, os irmãos André e Renaud Veluzat ficaram responsáveis pelo fornecimentos dos carros para a série, e foi nesse período que várias inconsistências e variações técnicas foram vistas, inclusive na cor. Não era raro que eles utilizassem qualquer tom de laranja que encontrassem para pintar os Dodges.
Já no filme de 2005, a cor escolhida foi o "Big Bad Orange" da AMC. - A identidade: o número "01" nas portas (com fonte octogonal), a bandeira confederada no teto e o nome "General Lee" escrito acima das janelas.
- As rodas: rodas de turbina de 10 raios da American Racing Vector (14"x7"), calçadas com pneus B.F. Goodrich Radial T/A.
- A buzina "Dixie": toca as primeiras 12 notas da canção folclórica sulista. Curiosamente, a buzina não foi planejada; os produtores ouviram um carro passando com esse som, perseguiram o motorista e compraram o acessório por US$ 300 no local.
- Portas soldadas: seguindo o estilo da NASCAR, as portas eram soldadas para segurança. No entanto, o motivo real da sua adoção na série foi acidental: durante a primeira perseguição, a maçaneta de um carro foi danificada em um impacto com caixas de correio. Para não parar a cena, o ator Tom Wopat pulou pela janela. O diretor adorou o estilo e tornou isso a marca registrada.

Modificações para dublês
Para sobreviver (ou tentar sobreviver) às exigências de Hazzard, o carro não era original de fábrica:
- Motores: embora o 440 Magnum fosse o motor "oficial" do personagem, a produção usava o que estivesse disponível. Carros para cenas de duas rodas (ski cars) usavam o motor 318 (mais leve), enquanto os grandes saltos exigiam o 440 pelo torque. A maioria das unidades era automática (TorqueFlite 727), apesar de os efeitos sonoros sugerirem trocas de marcha manuais.
- Lastro de concreto: o maior desafio era o salto. Sendo o motor muito pesado, o carro tendia a "embicar" no ar. Para manter o voo nivelado, os mecânicos colocavam de 250kg a 500kg de sacos de areia ou lastro de concreto no porta-malas.
- Suspensão e freios: barras de torsão ajustadas ao máximo e freios de mão modificados para permitir as famosas manobras de 180 graus (Bootlegger’s Turn).

O massacre dos Chargers
Se tem algo de negativo nessa série ─ emocionalmente... pelo menos para mim ─, é o fato de que The Dukes of Hazzard detém um recorde sombrio: estima-se que entre 255 e 325 unidades de Dodges Charges foram destruídas durante os seis anos de produção . É de doer o coração de qualquer amante de carros, em especial desses carros de verdade, não essas porcarias sobre rodas que temos hoje em dia.
Em média, dois carros eram destruídos por episódio. Quase qualquer salto grande resultava em perda total devido à falha estrutural do chassi no pouso, exigindo que a equipe de pós-produção utilizasse truques de edição para esconder os danos, o máximo possível, mas em alguns episódios é possível notar o estrago nas aterrisagens.
A destruição foi tão massiva que a produção causou uma escassez real de Dodge Chargers 1968/69 nos EUA. A Warner Bros. chegou a usar aviões para localizar Chargers em quintais de cidadãos e deixava bilhetes oferecendo compra imediata.
Na última temporada, devido ao custo e à falta de carros, a produção recorreu a miniaturas de controle remoto para os saltos, o que foi amplamente criticado pelo elenco e fãs pela falta de realismo.

Recordes e curiosidades
O salto visto na abertura da série, realizado pelo dublê Craig Baxley
, estabeleceu um recorde mundial na época: 16 pés de altura (4,8m) e 82 pés de distância (25m). O carro usado (LEE 1) foi imediatamente totalizado.
No auge da série, o General Lee recebia cerca de 35.000 cartas de fãs por mês, superando a popularidade de qualquer ator humano do elenco.
Das centenas de carros usados, apenas cerca de 17 exemplares originais (utilizados em tela) sobreviveram. O famoso "LEE 1" foi restaurado e vendido em leilão em 2012 para o golfista Bubba Watson por US$ 121.000.
A prova que era o ator principal: O carro aparece em todos os episódios, exceto um, O Bebê de Mary Kaye.
Homenagem em Smallville: no início do episódio Exposed da quinta temporada da série Smallville (2001-2011), o ex-colega de elenco de Dukes of Hazzard, Tom Wopat (Luke Duke), interpreta o senador do Kansas, Jack Jennings, um velho amigo do pai adotivo do super-homem, Jonathan Kent, interpretado por John Schneider (Bo Duke). Jennings invade a fazenda dos Kent com seu carro, um Dodge Charger R/T 1968, azul.
Legado e controvérsias
O General Lee vem sendo um personagem que provoca discussões acaloradas hoje devido à bandeira confederada no teto. Em 2015, em meio a debates sobre justiça racial nos EUA, a Warner Bros. interrompeu a fabricação de brinquedos e réplicas do carro com a bandeira.
No entanto, para os fãs de automobilismo e da série, o carro transcende a política: ele representa a era de ouro dos muscle cars americanos e o espírito de aventura indomável que fazia um Dodge Charger laranja parecer capaz de voar sobre qualquer problema na Geórgia.
John Schneider se pronunciou a respeito: "Discordo daqueles que dizem que a bandeira no General Lee deve sempre ser considerada um símbolo de racismo. A bandeira é usada como tal em outras aplicações? Sim, mas certamente não nos Dukes."
E é isso... eu era um assíduo espectador da série. Não posso dizer que assisti a todos os episódios, pois minha memória não chegaria a tanto. Mas de tudo que eu lembro da série, não há rastro de qualquer ataque racista ou algo semelhante. É só a turma do barulho querendo destruir nossa infância.

Fontes de pesquisa: iMDB, l'Automobile, TopSpeed, Motorious, ScreenRat, Wiki Fandom Dukes of Hazzard