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30 Janeiro 2010
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Sangria -
Filmes

SANGRIA - Gostaria de agradecer por aceitarem esta entrevista.
EDUARDO SANTANA – Nos que agradecemos a oportunidade de falar um pouco sobre o CineFantasy–Festival Curta Fantástico.
VIVI AMARAL – Obrigado pela força.
SANGRIA - Desde quando vem o fascínio de vocês pelo medo? Vocês só assistem filmes de horror?
ES – Pra falar a verdade eu me lembro de ter assistindo no Super Cine o filme Poltergeist por volta de 1984/85, não lembro direito, mas eu tinha uns sete ou oito anos de idade, também lembro dos filmes como Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo, pois esses filmes passava na TV e naquela época não tinha VHS em casa, lembro.
Não sou uma pessoa só no universo de terror/horror, pois lembro que na minha adolescência vi vários filmes de artes e importantes para a minha formação, tais como: Cidadão Kane de Orson Welles, os mestres italianos, como Visconti, Pasolini, Fellini e outros da Cine Città, também vi filmes franceses da Nouvelle Vague, adoro a trilogia das cores do Kieslowski, assisto bastante filmes da boca do lixo e outros gêneros também.
VA - Desde que me conheço por gente (risos). Desde pequena gostava do que me assustava, brincava de explorar "castelos assombrados" pela casa, dizia pra criançada que ia lá em casa que o Freddy Krueger morava no sótão... o pior é que na hora de dormir eu mesma acreditava nas minhas mentiras e corria pro quarto dos meus pais (risos).
Mas sempre tive esse fascínio que com o tempo só foi aumentar, principalmente a minha mania de assustar as pessoas. Por isso quis fazer cinema, queria fazer filmes que a galera passaria dias transtornadas de medo.
SANGRIA - O CineFantasy é uma idéia nova ou vocês já promoviam eventos sobre o cinema fantástico anteriormente?
ES – Trabalho com cultura desde 1995, já fiz Mostra de teatro em Ilha Comprida, Iguape, Brodowski, Registro e outros lugares pelo interior de São Paulo, também trabalho muito com música, desde Festivais de Rock, Blues, Jazz, MPB, Instrumental e até com grupos, hoje trabalho mais com o Quarteto de Guitarras – Kroma. Em 2000, fiz um evento especial com o nome Cinema na Praia, que o objetivo era levar filmes brasileiros de graça a população e dentro da programação consegui colocar o filme do Mojica – A Meia-Noite Levarei sua Alma e foi muito bom e ainda por cima ele tava presente e teve até momento de jogar praga ao vivo.
VA - O CineFantasy é o primeiro evento sério que eu entrei junto com o Du que já trampa nessa área. Antes eu tinha feito uma mostra só na faculdade. O festival começou pequeno e no "susto". Em 2005, um amigo nosso que é da prefeitura de Ilha Comprida (cidadezinha do litoral sul de SP) queria fazer uma mostra de cinema no espaço cultural da cidade. Foi então que demos a idéia: por que não realizar uma mostra de curta-metragens - tem um montão de pessoas que produzem e querem exibir e ele tinha um espaço precisando de filmes. Ele curtiu a idéia e botou na nossa mão a realização dessa mostra. Como nós sentíamos falta de um evento como o Sitges, Fantasporto e Fantasia aqui no país resolveram criar um evento voltado para o cinema fantástico. Daí surgiu a Mostra de Curta Metragem Fantástico de Ilha Comprida, que depois de 4 anos, cresceu, mudou de espaço e virou CineFantasy - Festival Curta Fantástico em São Paulo.
Tivemos que vir pra São Paulo porque o festival realmente cresceu e estava complicado pra nós que moramos em Sampa organizar um evento por lá. Hoje mantemos ainda exibições lá com os vencedores do ano. Eles fazem exibições itinerantes no centro cultural e pelas vilas dos pescadores que vibram com os curtas.

SANGRIA - Como é divulgar um estilo de cinema que tem tão pouca aceitação (pública) e como funciona a seleção do material recebido? Vocês contam com uma equipe ou todo o trabalho vem do "casal sexta-feira 13"?
ES – Acho que divulgar cultura no País é muito difícil, pois o público na maioria das vezes está interessado nas coisas mais fáceis, então acham complicado sair de casa e ir até a Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Corrêa pra assistir um filme fantástico, mas ao mesmo tempo reclamam na internet que o cinema de gênero não tem espaço no nosso País, vejo que falta união e até interesse dos “fãs” em acompanhar um festival como o CineFantasy, pois preferem talvez baixar o filme e assistir no computador ou na TV de casa, mas vejo que o interessante do CineFantasy é justamente a troca de informações com os outros espectadores ou com diretores, equipe e público presente nas sessões e não assistir um filme sozinho em casa e depois fazer uma crítica na net.
Neste ano tivemos uma curadoria do Marcelo Carrard, do blog Mondo Paura com o Day Gore e na edição do ano passado tivemos uma curadoria especial do Leopoldo Tauffenbach com filmes japoneses.
VA - Nada fácil, mas foi justamente por isso que o CineFantasy surgiu. Eu entrei na faculdade com a idéia de realizar filmes fantásticos, não só de horror, mas fantasia e quem sabe até ficção científica. Soava um tanto utópico uma garota querendo seguir os passos de Peter Jackson aqui no Brasil - fazer cinema profissional e fantástico ao mesmo tempo. Criar um evento que divulgasse esse gênero e apoiando justamente quem precisa e quem está começando e precisa mostrar a cara, foi uma forma de tentar mudar essa realidade. Temos a competitiva de curtas como nosso principal elemento para que os produtores brasileiros possam participar do festival em quantidade e principalmente qualidade.
Ainda encontramos preconceito em relação aos filmes, principalmente nacionais, mas preconceito esse que por parte do público some logo após a exibição. Só alguns críticos acadêmicos continuam torcendo o nariz, mas até aí...
Outra dificuldade que encontramos é em relação ao próprio público do gênero. Isso é muito estranho, mas uma realidade que não só o CineFantasy encontra mas o Fantaspoa de Porto Alegre também, os fãs do gênero dificilmente aparecem nas sessões. Por quê? Boa pergunta, eu vejo o pessoal reclamar que o gênero fantástico é deixado de lado no país, mas quando você oferece um festival com 165 filmes de graça (ou quase - R$1,00) as pessoas não dão as caras.
Neste ano tivemos um público bacana e algumas sessões lotaram, mas a participação do "fã" mesmo tá bem fraca, poucos acompanharam o festival.

SANGRIA - Esta pergunta é para a Vivi. Como as pessoas vêem uma mulher tão ligada a filmes que exploram a violência de uma forma chocante e até mesmo amoral? Você já foi criticada por causa desta condição?
VA - Bom, ainda é difícil encontrar meninas fazendo alguma coisa nessa linha, mas existem e o número cresce. É curioso que as pessoas acham que eu entrei pro "lado negro" do cinema por causa do Edu, mas na realidade sou mais fanática pelo gênero de horror do que ele (risos). De vez em quando causa estranheza uma garota como organizadora e curadora de um festival como o CineFantasy, mas como nunca fui de ligar pro que os outros pensam - sou adepta da frase: “Cada um é cada um” - minha relação com o horror é muito natural. Isso deixa até os mais conservadores sem jeito de me criticar, no máximo acham que sou diferente, o que não vejo nenhum mal nisso.
Também não curto rótulos, não sigo nenhuma linha, por isso não me visto muito a caráter, e isso confunde mais ainda o pessoal (risos).
SANGRIA - Falem um pouco sobre a atuação da Fly Cow nas mostras e festivais.
ES – A Fly Cow e uma empresa nova que ainda ta engatinhando no mercado cultural, mas podemos destacar além do CineFantasy – Festival Curta Fantástico, os seguintes trabalhos: 10ª Mostra Artística Ambiental de Ilha Comprida (evento de uma semana com espetáculos teatrais), 1º Ilha Blues Festival (festival de blues na cidade de Ilha Comprida), Mostra de Teatro de Rua em Brodowski, alguns vídeos institucionais para empresas e projetos culturais de São Paulo, como a Virada Cultural nos Museus no ano de 2006 e 2007.
SANGRIA - Vocês já pensaram em fazer algo como patrocinar diretores e film makers do circuito nacional?
ES – Para 2010 prevemos algumas novidades.
VA - A medida que o festival cresce, fica mais fácil pra gente criar estímulos pros diretores nacionais. Patrocínio mesmo ainda não temos condições, mas estamos estudando uma forma de ajudar o pessoal que quer fazer cinema fantástico no país além da parte de formação que já fazemos (oficina de roteiro fantástico e efeitos em maquiagem). O Prêmio Estímulo (estudante e amador) foi criado com a intenção de ajudar os diretores, íamos dar um prêmio além do troféu, mas infelizmente o patrocínio que esperávamos não veio e ficou apenas o troféu. Mas espero que em 2010 esse prêmio venha.
SANGRIA - Quais os filmes apresentados nas mostras que mais chocaram (ou impressionaram) vocês e por quê?
ES – Os brasileiros estão de parabéns, pois recebemos 123 produções de todas as regiões do Brasil, o mercado espanhol é fantástico, pois vieram trabalhos maravilhosos, também não posso deixar de fora o Forbidden Door, Semum, Shadow e principalmente o Colin, do diretor Marc Price.
VA - O que mais me impressionou não foi um filme em particular, mas a qualidade e criatividade dos filmes brasileiros em geral. Os diretores estão mais conscientes da própria realidade e estão usando isso como trunfo em seus filmes, estão mais caprichosos em relação ao roteiro e imagem também e descobriram a importância de um áudio decente.
Outra coisa que me impressionou foi a existência de criatividade na Califórnia! Sim existem pessoas criativas por lá ainda, pena (ou não) que estão no cinema independente. Refiro-me ao longa "The Revenant", filme pouco conhecido, produzido em Los Angeles e que foi um dos filmes dos quais mais recebi elogios. E realmente é muito bom.
SANGRIA - Como "receptores" da banda negra do cinema underground vocês já receberam películas ou curtas que decidiram não poderem expor ao público por motivos judiciais?
ES – Não! Acho que o CineFantasy está aberto para novas experiências (risos).
VA - Não, por um lado, o bom de não ter empresas patrocinadoras é a liberdade que você tem na curadoria. Filmes como Black Devil Doll, Sick Girl, La Raiz del Mal e os filmes do DayGore seriam filmes que dificilmente passariam de um aprovo do "pessoal do marketing", mas para gente esses filmes são lindos (risos).
Nossa única preocupação foi de alertar o público sobre o conteúdo que veriam e a classificação etária. Entrem por sua conta e risco.

SANGRIA - Vocês acreditam na existência de "snuff movies"? Qual a opinião de vocês a respeito deste fato e como reagiriam caso recebessem algo do gênero?
ES – Acho que existem, mas não temos interesse nestas coisas, pois acredito no cinema como um meio de entretenimento e não mostrar esse outro lado do mundo real.
VA - No ano passado exibimos o documentário em parceria com o pessoal do Fantaspoa chamado "Snuff- A Documentary About Killing on Movie" que fala sobre esse tipo de filme, e tem um momento que eles citam um snuff real, que todo mundo deve ter visto - terroristas cortando a cabeça de um cara que foi parar na internet.
Nosso festival celebra um subgênero da ficção, gostamos de ver sangue e cabeças cortadas assim como gostamos de cair num elevador de um parque de diversão - e garanto que na vida real não seria nada divertido.
SANGRIA - Além de organizarem o maior festival paulistano de cinema horror/fantástico quais são as suas outras atividades? Vocês vivem de cinema?
ES – Eu trabalho numa Organização Social que coordena dois grandes espaços culturais da cidade de São Paulo, pois trabalho na programação e produção cultural, não vivo de cinema.
VA - Eu trabalho com edição e finalização pra TV. Adoro computação gráfica também, mas por falta de tempo faço poucas coisas nessa área.
SANGRIA - Vocês gostam dos mesmo estilos de filmes de horror ou rola aquela briga básica entre cinéfilos?
ES – (Risos). A Vivi gosta do sobrenatural e bastante de fantasia, pois praticamente fui em quase todas as pré-estréias desse gênero ao seu lado, eu curto filmes nacionais e mais explícitos e também não deixo de lado a fantasia e a ficção-científica, mas não brigamos muito.
VA - Temos mais ou menos o mesmo estilo, mas eu curto mais os filmes que trazem elementos sobrenaturais e com uma carga de suspense extrema. Divirto-me com os mais explícitos, mas os que me fazem travar no sofá são os meus favoritos.
SANGRIA - Muito obrigado pela participação de vocês e espero que saibam que as portas da coluna Sangria estarão sempre abertas para o CineFantasy.
ES – Quero agradecer mais uma vez e obrigado por divulgar o CineFantasy, e também estamos abertos pra sugestões, elogios, criticas e tudo mais, se alguém tiver interesse em encaminhar algum filme, curta, média ou longa, pode mandar que assistiremos e depois avaliamos a possibilidade de exibição no Festival, quero deixar o nosso email
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e o nosso site www.curtafantastico.com.br e o blog cinefantastico.zip.net
VA - Valeu mesmo pela força que vocês dão ao festival. Pra gente é muito importante esse apoio de pessoas que são fãs de horror e fazem a coisa acontecer que nem vocês da Coluna Sangria...Valeu!!!

ENTREVISTA ORIGINALMENTE CONCEDIDA PARA O E-ZINE
FUN HOUSE XTREME # 14 DA RAVENS HOUSE BRASIL
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