Dom, 12 de Junho de 2011 22:09
Última atualização em Dom, 12 de Junho de 2011 22:12
Escrito por Guilherme Abiezer
A noite chegara repentina no extremo sul do país, o céu azulado havia mudado para um vermelho cômico, e logo depois para o rubro céu que caía todas as noites sobre a cabeça de milhares de pessoas naquela noite de Outono.
As estrelas ausentes no céu outrora estrelado anunciavam o começo da noite fria que estava para chegar, e pensando bem, nos últimos meses as noites estavam realmente frias.
Uma silhueta caminhava com pensamentos incongruentes e passos lentos pelo cemitério, beirando as lápides e delirando uma vez ou outra, observava os túmulos com uma calma digna de um cavalheiro, que às vezes deixava-a escapar para dar lugar a um olhar frenético e distorcido da realidade.
O cemitério transbordava silêncio e túmulos antigos, construídos por mãos que a muito já deixaram de existir, as árvores eram secas e enegrecidas pelo tempo, tinham uma aparência bizarra, nasciam tortas ou cresciam disformes em meio à terra que a própria natureza julgara ser solo fértil. Uma névoa parava no ar, deixando a visão da penumbra perturbada, mais o incógnito apertou os olhos e fixou-os sobre uma lápide.
“Sabrina Sallaz’ar – A maldita 1979-2002”
Sorriu por um instante e logo tomou nas mãos uma pá que jazia ao lado de um amontoado de flores podres. Pôs-se a cavar a terra formando montes e montes de terra negra, um amontoado de vermes e minhocas se embrenhando e se enfiando em buracos quase inexistentes. Já podia ver a carne seca e os ossos frágeis, o cheiro pútrido tomou rapidamente o lugar e fez arder os olhos, mas a pá continuava a penetrar solo adentro.
- Ei! Você! – Uma voz ecoou pelo cemitério.
Willian Petre continuou a cavar, o suor escorava-lhe sobre o rosto e nem mesmo ouvira a voz ao longe. Ajoelhou-se quando o corpo estava totalmente descoberto e começou a tatear, dentro dos bolsos, sapatos, seios fartos que tinha.
Uma mulher notável pensou ele, loira por opção, branca por natureza, infindáveis olhos azuis que ainda estavam abertos.
Achou dentro do bolso lateral da difunda um papel perfeitamente dobrado, amassado apenas por descuido, e amarelado pela velhice. Willian segurou-o com orgulho nos olhos e novamente não ouvira o grito do homem logo atrás, o coveiro se aproximava devagar, procurando um posto de onde conseguisse ver a face do intruso.
- Parado onde está, ou vou chamar a polícia! – As cordas vocais raspando umas nas outras, trêmulas de medo. A lanterna acesa decompunha os vultos, mas não iluminava o suficiente.
O coveiro presenciou o momento em que o intruso tomou para si um punhal que retirara de dentro do paletó, Willian começou a desferir golpes violentos na carne que ainda restava do cadáver à sua frente, o corpo da mulher se debatia contra o chão a cada vez que a lâmina prateada abria um buraco em seu corpo, já em estado de decomposição.
Pavor.
Willian tinha seu longo cabelo negro já incrustado de sangue que pendia-lhe bem abaixo dos ombros, era magro e veloz, as estocadas eram sem fim, não escutava nada ao seu redor, pois estava preocupado demais em saciar-se com o cadáver, talvez não quisesse realmente ouvir nada, talvez já soubesse que ela estava morta, sabe lá Deus o que ele queria, mas ainda sim continuava a lhe furar a carne.
- Pare! - Gritou novamente o velho que apertava o passo para chegar mais perto.
Mais uma estocada.
- Polícia! – Como um alerta.
E outra.
E depois outra.
Mais uma.
Até que o coveiro chutou-lhe o queixo deixando o pavor de lado.
Caiu se estocar.
Willian Berthraz rolou para o lado com o punhal firme na mão esquerda, praguejou contra o infeliz. Olhos de gato, negros e profundos. Levantou-se de um salto olhando o indivíduo e depois cuspiu sobre o cadáver, e ainda sorriu. Parou de pé aquietando-se, as costas meio arqueadas, lambeu em volta dos lábios os poucos respingos de sangue que havia.
Era alto e branquelo, assim como os antepassados de coração gelado, uma beleza indecifrável e ao mesmo tempo psicopata. Genuína.
- Saia daqui seu verme! – Lanterna na mão trêmula.
O coveiro era um tanto franzino, olhos escuros e cabelos grisalhos, beirava os quarenta e sete invernos vividos de forma mundana, banal. Tinha a voz rouca e quase nenhum dente na boca, menos ainda cabelo. Willian abaixou-se lentamente sem tirar os olhos do indivíduo de jaleco vermelho, pegou a pá do chão e segurou-a com as duas mãos.
“Mate-o” – Uma voz soou em sua mente, algo que era além da compreensão humana, algo que os olhos não podiam ver, mas que o coração podia sentir.
Aquilo já não lhe era novidade alguma, sempre havia aquela voz que o perturbava em momentos calmos e o acalmava em momentos de tensão. Aquilo soava como mandamentos que Willian cumpria sem questionar.
Os olhos do coveiro se arregalaram em pânico, grandes esferas revestidas de vermelho que quase saltaram para fora quando viram o intruso avançando contra ele. O primeiro impacto da pá fora certeiro na cabeça. Três dentes a menos, fratura na mandíbula e corte profundo no supercílio. Mas ainda estava consciente.
O coveiro achou que se corresse mais que o intruso ele logo desistiria e o deixaria ir.
Estava errado...
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Comentários
Continue assim, tem muito futuro.
Abraço.
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