O Surgimento de Hae
Em um tempo no espaço, uma dimensão subtamente tornou-se à existência diante do campo imaterial, um plano espacial, extenso e finito. Após esse plano tornar à existência, outros planos tomaram forma, para cima e para baixo, até um momento em que todos se alinhavam fixamente no campo imaterial e pendiam por suas duas extremidades, que convergiam-se em dois polos extremos onde o tempo e o espaço de cada dimensão tornavam-se apenas um em união. O primeiro plano a tornar à existência, o plano mediano, tinha um nome, chamava-se Hae, e o tinha pois tornou-se a merito de uma entidade, chama-se ela Yoseraph. No plano de Hae era a principio o elemento da água, como no s é conhecido, abrangente por toda sua extenção; contudo, então, a terra se levantou do fundo inexistente do plano mediano e emergiu, dando forma a ilhas e continentes; e mesmo não havendo tempo no campo imaterial, por muito tempo a terra o fez, dançando incessantemente sobre a superfície da água, por muito tempo alterando-se e moldando a visão sob o firmamento dos planos superiores. Ao fundo e às fronteiras dos mares, assim como aos limites do céu, toda a então criada matéria dentro deste plano desaparecia para uma zona onde a luz cessava, gradualmente, até o momento em que, continuando adiante, tudo tornava-se impossível de se ver; sobre os céus e sob o fundo dos mares, esta zona ia fundo na escuridão de encontro aos outros planos, os de cima e os de baixo, e no momento em que alcançava-se a fronteira do plano atual, a luz do campo imaterial que preenche a imensidão inexistente entre um plano e o outro, tomava de repente a visão; então procede-se cego pelo luz num caminho ascendente ou descente até a escuridão novamente, que desta vez pertence a um outro campo, superior ou inferior. Nesse mesmo padrão, segue-se o caminho adiante das fronteiras longitudinais, rumo às margens dos mares, em direção aos extremos onde os planos pendiam em único ponto, e caminha-se adiante da escuridão perenal, mas que não termina em luz como na viagem verticalizada; encontra-se ao final do extremo um plano diferente, incomum, onde o tempo e o espaço são distorcidos, chama-se esse local onde os planos convergiam de Fenda; a viagem prossege num estado utópico e indiscritível onde nada existe porém tudo é material, até que se é elevado em um outro plano novo, esse plano que se parece com um domo, seguindo por suas bordas e circundando-o até as regiões mais planas no alto deste plano, que se tornam gradualmente mais claras; esse plano é mais fundo e maior que qualquer outro, onde existe mais luz que qualquer outro, pois é de l á que surge a luz de todos os outros planos menores, e daonde é possivel observar por sobre todos eles. Da mesma forma, oposto à esse, um outro domo de mesmo tamanho porém escuro, porque não dividia suas extremidades com os outros e, portanto, a luz não o alcançava, estende-se pela outra metade da esfera circundante ao redor dos outros planos, e deste observa-se todos eles de baixo, de forma que a escuridão vista de lá é muito mais presente e aparente. As bordas desse domo inferior, por sua vez, divergem dos demais e estendem-se ou surgem campo afora até um limite indeterminado onde se fundem com a escuridão do além da imaterialidade.
No domo inferior guardava-se toda a escuridão presente nos planos medianos, ao passo que no domo superior estava contida toda a luz presente nos planos medianos. Yoseraph era o dono do domo da luz, aquele que cobre os sete médios. É peculiar a luz de sua morada pois essa parece emanar de um fogo eterno que domina todo o céu, que parece imenso como o próprio campo imaterial. E este céu por mais vigorante e ardente que seja, é acolhedor como em nenhum outro lugar. A inquietação da matéria ali é tão escassa quanto o tempo propriamente dito. Nessa morada de luz, Ele fez surgir do nível mais baixo até perto dos céu a sua casa; e ela é enorme, tão enorme quanto o p róprio espírito de sua existência. A casa de Yoseraph não existe apenas para Ele; há muito tempo Ele a criou, no início dos tempos quando os planos tornaram à existir, e Ele a levantou para abrigar seus amigos que esperam, sem pressa, para o ver um dia. Nesse domo da luz, os céus mudam de aparência periodicamente, ao ritmo da condição da mente do seu único habitante; tornando-se escuros, apenas iluminados pelas pequenas luzes que surgem miraculosamente na superfície do seu firmamento, e as vezes torna-se iluminado, com uma luz branca e vívida sob a superfície azul e infinita no céu. Na sua morada, Yoseraph toma forma física na figura de um ser humano, como seria familiar para nós; e ele vive perpetualmente, numa condição distinta de tempo onde milhares de tempos passam-se como se fossem um só. E Ele viveu seus primeiros tempos embuído na tarefa de dedicar sua existência para a criação da existência dos planos medianos. A partir de Hae, Yoseraph crio u a matéria de três planos ascendentes e três planos descendentes, porém a mais nenhum deles deu nome, pois suas imagens eram a cópia e semelhança de Hae. Ele esperou até o momento em que tudo se assentou em todos os seus planos, todos tendo com sua matéria comportamentos e resultados diferentes. Ao final, eram sete planos, terrestres, iluminados e distintos que Ele havia criado. Todos eles dotados apenas da água e da terra.
A terra sofreu com sua própria agitação, sem interferência de Yoseraph, pois sua condição existencial partia apenas da própria terra. Já a água era imutável. Ele a fez tornar à existencia após a criação de Hae, e nenhuma outra força, nem mesmo a força da própria água teria a permissão de alterá-la, apenas Ele. Agora com suas paisagens em ordem, Ele prosseguiu em criar as pedras e as plantas; e foram postadas pedras pelas terras de todos os planos; e quando havia-se estabelecido uma base forte para a terra, ela foi coberta pelo verde e por todas as outras cores de plantas que Ele pôde vislumbrar em sua obra. As paisagens ainda pareciam sem vida para Ele, n o entanto; então foram criadas as evédrias, as pedras vivas que Yoseraph vislumbrou, e nelas ele depositou um pouco de cada força elementar que ele continha em si e que continha em todo o plano da luz. E logo as paisagens começaram a emanar uma força que era revigorante para Ele; mas ainda não estavam completas. Mais uma vez ele virou-se para seus planos e parou para refletir o que estaria faltando para sua criação, sem encontrar a resposta. Ele então cessou seus trabalhos e retornou para dentro de sua casa e para sua forma física, onde passou tempos e mais tempos procurando a resposta e o significado.
Tempo depois de tempo, Ele descançou, até um momento único no tempo e espaço em que ele finalmente encontrou a resposta para sua dúvida. Novamente ele desceu seu olhar para suas paisagens que há muito não via, mas teve uma surpresa, que a principio era apenas uma estranheza, como quem não se lembrasse bem de um lugar há muito visitado. Algo parecia diferente em suas terras. Ele percebeu que os planos superiores e inferiores estavam novamente sem vida, quase sem terra, uma imensidão azul de água com uma porção ínfima de terra morta e plana ao centro; e Hae, ao contrário do que Ele pôde constatar, estava repleta de matérias que Ele mesmo nunca havia visto antes . Ele certamente sabia que aquilo não tinha sido obra sua, mas que ao mesmo tempo não poderiam ter aparecido espontaneamente, pois apenas à terra havia sido consedida a permissão de modificar-se. Yoseraph chegou mais perto de Hae. Água, terra, pedra e plantas agora dividiam espaço com outros elementos, como um tipo de pó amarelado que cobria grandes porções de terras e costas, materiais negros e de estranha consistência que cobriam topos de montanhas, nuvens de fumaça de variadas cores dominavam o ar de determinadas regiões. Tudo estava mudado, e Yoseraph estava confuso. Ele, no intanto, ainda sentia a força das evédrias que havia criado, elas ainda existiam em sua terra porém pareciam mais fortes do que antes. E junto com a sensação da presença de suas pedras, havia uma outra presença, indistinguível para ele, e que o deixava inquieto. Ele decidiu então descer em sua forma imaterial para Hae a procura de respostas. Transpondo-se através dos limites do domo da luz, ele atravessou o campo imaterial, desecendo até Hae, onde parou. Tomou uma observação atenta para todos os lados, olhando ainda mais de perto tudo o que era novo, e procurando. Foi então que vagando pelas planícies do centro de Hae ele viu uma figura humana, assim como a que ele mesmo possuia quando estava em sua casa. Observou-o por um tempo, olhando enquanto aquela figura parecia interagir com o local, criando e dando forma. Por um momento ele imaginou ele mesmo ter criado tal figura, mas logo desacreditou em si mesmo. Ele continuava estático, até o momento em que ele decidiu descer para a terra, dessa vez na sua forma humana, e estabelecer contato com aquela figura que havia surgido em sua criação.
A figura humana que ali permanecia tinha uma aparência peculiar; uma barba negra descendo de sua mandíbula a altura de seu peito, cabelos negros compridos que terminavam no centro de suas costas; ele fazia movimentos com suas mãos enquanto adornava a região em volta ao seu gosto, como se a terra não tivesse dono. Yoseraph aproximou-se. O velho da barba negra sobrestou suas atividades da terra por um momento e, enquanto parecia notar algo diferente no ar, virou-se. Ambos se observaram com olhos de portento e espanto, mas houve uma reação inesperada por parte do outro.
– Olá. Não me lembro de tê-lo criado ou posto aqui... – Disse o velho.
– Eu também não me lembro – Respondeu Yoseraph. – Daonde você vem? Não existem outras entidades aonde eu vivo, ou ao menos não existiam.
– Você vive aqui? Achei ser o primeiro a descer ao domo.
– Não, você deve ser o Segundo; Há muito tempo eu soube de sua descida, apenas não sabia quando aconteceria. Mas se não desceu até minha casa, para onde você desceu?
– Eu sou o habitante do domo inferior – Respondeu o velho. – O domo onde tudo é muito escuro, lá é onde eu habito.
– Domo inferior? Existe outro?
– Sim, existe. Mas ele não é ligado à Fenda dos sete planos médios.
– A Fenda, você se refere ao extremo onde os planos convergem?
– Sim, esse mesmo. Ao menos essa foi a instrução que recebi em minha mente na minha descida – E continuou o velho – Você criou tudo isso? Eu tinha uma outra imagem de tudo que encontrei por aqui.
Yoseraph ao aprender do que se tratava toda aquela situação, tomou a liberdade de levar o velho à sua morada, que mais tarde o contou que dali em diante ele deveria o chamar de Saireph; Levando-o em sua morada eles teriam calma e tempo para conversarem. E assim fizeram; E por bastante tempo os dois conversaram; Yoseraph o contou tudo sobre seus planos e ambos compartilharam idéias para agregar aos planos médios. Conversaram sobre o abandono dos outros planos superiores e inferiores até chegarem na conclusão de que não se preocupariam com eles a princípio, pois teriam seus olhares apenas para Hae.
Saireph o contou como foi sua descida e como ele chegou aos planos médios, durante uma longa conversa. Diferente de Yoseraph, cujo domo da luz ligava-se diretamente à Fenda, o domo inferior de Saireph pendia, e para ele alcançar os planos médios ele tinha que cruzar verticalmente através da imaterialidade, a qual deram o nome de Nün, e essa, assim como descrito, era o mais próximo da luz que o domo inferior alcançava. Ambos novamente desceram sob sua forma material para os planos médios e por um pequeno período deram atenção aos outros planos superiores e inferiores. Novamente acordaram as terras para que elas crescessem e se movimentassem e criassem forma novamen te. E enquanto todas as terras começavam a emergir e dançar nos planos superiores e inferiores, ambos deseceram até o plano adotado por Yoseraph para que realmente trabalhassem juntos na criação e aperfeiçoamento de Hae. Saireph o contou sobre todos os elementos que ele havia criado enquanto Yoseraph pensava e descançava em sua morada nos tempos que passaram; E eles prosseguiram em criar mais elementos para dar vida ao plano, surgiu a areia, os ares, o carvão, o fogo, os mais variados tipos de gases e pedras. Yoseraph nesse momento dividiu o ambiente em ciclos; o ciclo mais claro, quando toda Hae era iluminada pela luz do domo. Como sinal de que aquele era o momento da luz, ele criou uma grande esfera brilhante no céu; para essa esfera deu o nome de Söi. No segundo período a luz do seu domo deixava de incindir e Hae era totalmente apagada para que toda a forma de vida pudesse descançar. Para indicar que o momento do repouso estava se aproximando, Söi se esvaecia e ele punha nos céus uma outra esfera, que brilhava em branco; para essa ele deu o nome de Lotäi. Yoseraph foi adiante em mostrar a Saireph as evédrias, que eram a criação que ele mais se orgulhava. Cada uma das evédrias de Yoseraph continham em si uma força única, entra essas era a força que controla o fogo, a que controla a terra, a que controla a luz. Elas de fato tinham tal poder, mas eram limitadas, pois era impossível para ele depositar nelas tudo do que ele era provido. Saireph se mostrou especialmente impressionado por essas e elogiou Yoseraph.
– Essas que criou são de fato mágicas, consigo senti-las a distância. Não consigo imaginar como as criou, para ser sincero.
– Só o tempo que perdura na sua absência de pensamento pode dizer. Você deveria tentar qualquer hora destas. – Brincou Yoseraph.
Saireph sorriu enquanto voltava seu olhar novamente para a paisagem, então virou-se novamente.
– E quanto àquela idéia que você havia me dito ter vislumbrado em um de seus sonhos, qual era essa idéia a qual você tanto se referiu enquanto conversámos em sua casa? – Perguntou Saireph.
– Ah, aquela idéia... Eu pensei por um momento que estas terras poderiam compartilhar um pouco mais de vida, vida como a nossa.
– Explique-me melhor.
– Será que se colocassemos seres, físicos, como estes corpos que usamos por aqui, para povoar toda a terra, como será que se comportariam? Como a natureza se comportaria?
– É uma idéia peculiar a sua. No intanto não é de toda ruim, acredito que poderíamos tentar.
Nesse momento a idéia da vida tinha sido plantada. Yoseraph tomou seu tempo, naquele mesmo instante ali mesmo diante de Saireph, e fez surgir da borda de uma pequena lagoa onde jaziam algumas plantas criadas por ele mesmo, braços de caules como raízes saindo da superfície da água. E saiam várias, se entrelaçando e tomando espaço sobre a terra que beirava a água; E então quando elas podiam formar uma pequena área de raizes completamente emaranhadas sobre a terra, elas assentaram e se aguarraram nela. Dessa forma permaneceram, realizando sutis movimentos como se estivem realizando algo de natureza orgânica. Num determinado momento aquelas raízes começaram a se ret rair por sobre a terra, lentamente, e pôde se ver um pequeno corpo, de certa forma amorfo, que havia sido produzido e saído das próprias raízes, que agora retornavam para dentro d’água. Ele havia criado vida a partir das plantas, as quais também foi concedido o dom da vida, segundo Yoseraph. O corpo no chão não realizava quaisquer movimentos; Estava ali imóvel envolto em um flúido pegajoso. Ele cessou suas atividades e ambos permaneceram olhando o corpo no chão. Se olharam um ao outro e avançaram em direção à ele. Yoseraph o pegou do chão com suas mãos, o corpo que era do tamanho de sua própria mão, e o observou.
– Esta é uma forma bastante rudimentar de vida. – Observou Saireph.
– Sim, ela é. Agora preciso mentalizar... Algo maior... – Enquanto falava, ele colocou o corpo no chão e ambos começaram a se afastar. Nisso, Yoseraph iniciava novamente seus trabalhos – E projetar sobre esse corpo a vida que eu o quero dar.
Com o corpo no chão novamente, Yoseraph estendeu seus braços. Uma luz repentina envolveu o corpo, e ele brilhava; começou a crescer e tomar forma e de repente já tinha o mesmo tamanho de ambos. Nessa hora ele concretizou seu vislumbre de vida e parou. A luz começou a se dispersar e ambos viram o primeiro ser que pisou em Hae. Yoseraph havia dado vida à uma grande ave, a qual deu o nome de Sirvat; Fez dela a forma de vida de que ele mesmo provia.
– Isso é incrível, eu preciso aprender como o faz... – Disse Saireph, entusiasmado.
A ave era grande, formosa, com asas grandíssimas, olhos brancos mas vívidos, uma plumagem de cor amarela acinzentada e em regiões totalmente branca, que se mesclava com tons de verde, azul e outras cores variadas na região inferior das asas, cujas penas estendiam-se longamente para baixo de forma que quando ela as abria, parecia ter o dobro de seu próprio tamanho. A ave estava se comportando com um ar de perturbação e desorientação. Yoseraph se aproximou e colocou suas mãos sobre seu corpo para tentar acalmá-la. Enquanto deslizava suas mãos sobre ela, ele sentia a suavidade das penas, e ela se acalmava. Saireph se juntou para senti-la também. A ave logo se aquiet ou e se acustumou com o ambiente.
– Agora devemos soltá-la Hae afora, e observar como é sua interação com o ambiente. – Disse Yoseraph.
Retornaram e estavam agora de volta ao domo superior, esperando sem tempo enquanto a Sirvat vagava livremente. Algum tempo se passou, enquanto eles brevemente discutiam quanto a o quê viria depois. Regrassaram então para Hae. Ambos tiveram uma visão chocante. Muito da natureza que Yoseraph havia colocado sobre a terra parecia novamente sem vida. Ele tinha, a princípio, pensado na passagem do tempo quando criou as plantas, mas não se deu conta das consequências que isso lhes implicariam, grande parte agora estavam mortas. Refletiram por um tempo, e então fizeram crescer novamente as plantas, substituindo aquelas que estavam mortas, e desta vez as plantas tinham sementes que com o vento dariam vida à novas plantas. Seguindo adiante, chocaram-se novamente ao encontrar Sirvat, sua ave tão maravilhosa, morta no chão, já sem cor em suas poucas penas. Da mesma forma que as plantas, os seres criados por elas estariam fadados a perecer. Então eles refletiram e novamente, Yoseraph deu vida a partir das plantas; Desta vez ele criou duas aves. Determinou então que das plantas nesceriam frutos diversos e que as aves se alimentariam deles. Determinou também que as aves voariam até as copas das árvores criadas por ele no seu quintal preferido de Hae em determinado momento de sua vida, e que lá elas dariam vida a mais aves, que descançariam brevemente em grandes ninhos e cresceriam de uma vez só, atingindo certo tamanho que lhes permitissem voar; e depois cresceriam expontaneamente ao passar da vida. Ele deu sabedoria à elas nesse momento, e elas passaram a venerá-lo e respeita-lo incondicionalmente. Eles voltaram ao domo. Tempos se passara m e Saireph pôde finalmente aprender tudo o que Yoseraph o tinha para ensinar, e agora ele se mostrava exausto.
– Saireph, vi desde o princípio que você carregava certo fascínio com a terra, e eu mesmo estou muito satisfeito com o que pude criar até hoje. Você estaria disposto a tomar conta de tudo enquanto eu descanço?
E a resposta de Saireph foi positiva. A verdade é que Yoseraph tinha certo interesse em questões relativas à terra dele, que o procupavam. Da mesma forma, Saireph, entusiasmado, desceu a Hae e começou a botar em prática tudo que desejava.
Tempo após tempo, Yoseraph descançou, atravéz do seu próprio tempo. Em terra firme, Saireph, no seu corpo físico, moldou a terra com fervor e vontade, e para ela ele deu mais vida, mais elementos surgiram, maiores as terras se tornaram e mais audacioso ele mesmo ficou. Nos tempos que ele absorveu todo ensinamento que Yoseraph o deu, ele o contou de uma ideia particularmente mirabolante que havia tido. Yoseraph lhe contou que uma vez pensou em colocar em Hae um ser vivo que se parecesse e agisse como ele mesmo, que inclusive pensasse da mesma forma, porém limitado ao seu corpo físico e perecível. Disse que acreditava que da mesma forma que ele pôde criar, esse ser tam bém criaria, e Hae viveria por si só. Sua idéia, segundo ele mesmo, era loucura.
Chegou o momento em que Yoseraph já havia chegado às respostas que tanto lhe afligiam. Ele calmamente deixou sua casa e desceu de seu domo, cruzando a luz do nün até chegar em Hae na sua forma física. Agora pôde realmente desfrutar de uma visão incrível. Saireph foi capaz de proporcionar uma vista sem precedentes para toda a paisagem. Haviam os mais diversos tipos de plantas, de diferentes cores, haviam luzes que emanavam de formas novas para seus olhos, assim como emanavam até mesmo de algumas plantas; E Hae estava repleta de animais. Não só de aves tais como a própria Sirvat, que agora existia em massa, mas haviam outras espécies de animais fantásticos. Uma av e nova chamou a atenção de Yoseraph, ela não possuia penas mas uma pele de textura estranha a ele que era lisa e tinha a capacidade de se abrir em pedaços, e então começava a se parecer mais com penas, e o animal era predominantemente de cor esverdeada; Era uma ave capaz não só de voar como também de mergulhar, e nadar e respirar debaixo d’água. E também existiam uns agora que andavam em terra, um deles muito semelhante aos cavalos, e uns outros que eram animais grandes de pele parecida com rocha e chifres na cabeça. Quando Yoseraph se encontrou com Saireph, pôde mostrá-lo como estava feliz por ver o que ele havia feito. Ele lhe contou que andou por muita terra em Hae, terras que o olho não alcançava, cavou passagens pelo subsolo, subiu picos. Contou-o de alguns elementos e visuais que conseguiu desenvolver com o tempo e que eram particularmente bonitos para ele, como as nuvens que, dizia ele, podiam carregar consigo a luz e levá-la para os lugares mais es curos com o vento. Mostrou-o as cachoeiras que tinha criado e também os penhascos rochosos. Tudo estava perfeito. Yoseraph com um último ato para dar forma a Hae, afastou-se do plano médio junto com Saireph, e curvou-o, dobrando suas extremidades para dentro e juntando-as abaixo; dessa forma Hae era uma esfera desligada completamente da Fenda e adornada por três planos superiores e inferiores, que por sua vez eram contidos pelos dois grandes domos, o da luz acima e o das sombras abaixo. Após fazer isso, ponderou sobre ter Hae completamente desligado dos demais e resolveu abrir dois portais, um no extremo oeste, e outro no extremo leste, ambos em ilhas afastadas das grandes terras, e um oposto ao outro. Os portais eram dois grandes poços profundíssimos que brilhavam com uma luz fraca e esverdeada, e terminavam na mesma escuridão que dominava os limites dos outros planos. Ao fundo do poço estabelecia-se um conecção direta com a Fenda e, dependendo da natureza do que o atravessasse, chagaria-se ao domo superior. E era isso que Yoseraph e Saireph puderam criar no seu tempo.
Saireph, ainda empolgado com tudo, se propôs a criar um tipo de vida a qual ele chamou de diferente. Yoseraph aderiu. Ambos desceram e Saireph começou seu trabalho com suas mão estendidas, e por detrás das montanhas de rocha e areia fez nascer uma criatura gigantesca. Yoseraph se surpreendeu no momento.
– Cuidado com o que você cria, Saireph.
– Está tudo bem, acho que estes vão ser interessantes de se observar.
– Sim, estes serão. Apenas me diga depois o que você pretende que eles comam, porque as poucas árvores daqui não darão conta. – Brincou Yoseraph.
E a critura era grande e possuía braços longos. Saireph disse que o fez imortal e que não se alimentaria, apenas vagaria pela terra, interagindo com os outros animais. Nos seus olhos ele vislumbrou dois grandes círculos que brilhavam dourados como uma das evédrias que havia visto.
– Uma evédria dourada, você diz? Não me lembro de ter criado uma evédria de tal cor. Faz tempo que não as vejo, realmente. – Comentou Yoseraph.
Saireph o desafiou então para que criasse uma criatura tão interessante quanto a dele. Disse que queria ver uma que pudesse viver na água. Yoseraph foi adiante e fez surgir duas criaturas diferentes, uma que poderia lembrar um tubarão, e uma outra um pouco maior e mais desajeitada, que tinha duas nadadeiras frontais, um tipo de casco em suas costas e uma longa cauda. Saireph aprovou mas não estava convencido ainda.
– Deixe-me mostrar o que eu tinha em mente. – Tomou a frente Saireph, enquanto novamente começava a criar outra criatura. Yoseraph apenas observava quieto o comportamento de Saireph.
E ele fez surgir da água uma criatura imensa, com corpo de serpente. A criatura, assim como a outra, era enorme e possuia as mais variadas características corporais e era de cor azulada com olhos vermelhos.
– Você não deve ficar criando seres imortais que vagarão eternamente sem rumo pela terra. – Repreendeu Yoseraph.
Após os últimos toques, Yoseraph levou Saireph novamente para o domo onde passaram mais um tempo distante de Hae.
Uma coisa ainda precisava ser dita.
– Toda a vida é próspera em Hae agora – Comentou Saireph equanto olhava para baixo para o plano médio. – Essa terra toda parece não ser mais nossa agora.
– É... Ela é independente agora, eu acredito. Nos resta observar nossa criação e aprender. – Refletiu enquanto ambos olhavam para os planos abaixo do domo.
– Eu tenho para mim que é possível dar mais à terra do que apenas isso. – Ressaltou Saireph.
– Apenas isso? O que criamos não pouco, é tudo muito completo e grandioso, na verdade. Mais do que isso acho que não nos cabe criar, nem previsto estava tudo que já criamos. Apesar daquela minha velha idéia, eu acho que... – E foi interrompido por Saireph.
– Aquela idéia sua... Eu não intendo como pode achar loucura, essa é a chave para alcançarmos algo além do que já temos. De fato, o que seria de Hae com uma criação dessas é muito mais do que poderíamos até mesmo imaginar! Você não concorda comigo? – Saireph agora parecia um pouco exaltado.
– É loucura! Não vê o tempo que passamos para criar tudo o que já temos? Olhe para Hae, existe um mundo natural incrível que nem eu nem você havia se quer vislumbrado durante nossa decida. Como imagina que estes seres seriam de forma alguma bons para Hae? Nós colocamos um ser que pensa e age por conta própria e em tempo Hae começará a cair pelos pedaços. Milhares pensando e agindo sobre tudo, mudando cada aspecto da terra, agindo por suas próprias motivações, não existe jeito que terminasse bem num cenário desse!
Após respondê-lo, Yoseraph começou a desconfiar de Saireph e duvidar de sua capacidade de progresso, muito apesar de tudo que já tinha visto. Saireph começou a assumir uma posição relutante a aderir a Yoseraph e começou a mostrar claramente que tinha idéias contrárias as dele. E Yoseraph começou a temer o pior.
– Aqueles seres os quais te contei, você não... – E novamente foi interrompido por Saireph.
– Sim, eu os dei vida, se é o quer saber.
Ambos se olharam com certo incomformismo na feição.
– Por que, Saireph?
– Eu acho que Hae precisava deles. Assim como nos foi útil aprender sobre a vida de todos os outros seres, também será destes.
Antes que o clima de animosidade dominasse o ambiente, Yoseraph ponderou. Ao ser perguntado aonde estavam aqueles seres, Saireph o contou que eles tinham sido criados em uma ilha afastada das terras grandes, ao extremo leste. Continuou contando para ele outra coisa que havia criado. Além das evédrias que Yoseraph tinha criado, Saireph em seu tempo que lhe foi dado criou outra pedra; Uma pedra que era brilhante, brilhava em uma cor amarela quase como um dourado. Yoseraph apenas o ouvia, já começando a se irritar. Ele pediu para que descessem novamente para mostrar-lhe aonde estavam e como eram. Eles desceram. Agora com uma forma de vida que pensava andando por lá, acharam melhor descer apenas sob suas formas imateriais para não despertar a inquietação sobre eles. Yoseraph quando os viu pela primeira vez ficou mais inconformado. Eles eram como humanos, ainda rudimentares, eles tinham sido postos em uma ilha afastada de tudo, onde tinham muitas árvores e pedras. Pedras brilhantes. De fato, as pedras que Saireph havia criado e posto lá eram as mais brilhantes de Hae, mais brilhante do que a mais brilhante pedra que Yoseraph havia criado antes. Tudo que podiam fazer agora era deixar o tempo agir e acompanhar os passos dos recém chegados a terra. E ambos regressaram. Desta vez, Yoseraph não o convidou para seu domo na luz.
Os Uminis, nome que à eles foi dado, são os seres que Saireph criou em Hae em segredo. Inicialmente apenas um deles fora posto na ilha, logo depois outros dez deles; Assim que desceram, formavam já uma pequena tribo de sua espécie. À eles, Saireph deu a capacidade de pensar, como ele pensava, compreender, como ele compreendia, falar, como ele falava. Os primeiros a chegar foram postos na ilha na sua forma adulta, eram jovens adultos. O primeiro deles, assim que foi criado na terra, já veio sabendo que seu nome seria Örlon, por vontade do próprio Saireph, e que chamariam sua espécie de Uminis. Após descerem à terra, tomaram seu tempo para se acustumar com o ambiente e com seus próprios corpos. Saireph também pensou para eles a capacidade de reprodução, assim como com as aves, porém eles tomariam um tempo muito maior para atingirem a fase adulta. Eles também não eram imortais. Sua expectativa de vida, nos padrões humanos, equivaleria a uma média de cento e sessenta anos terrestres.
Pouco a pouco, os uminis da ilha foram se conhecendo. Além de Örlon, todos os outros começaram a dar nomes uns aos outros, e começaram a dar nomes para todo o resto que podiam ver. Saireph, ainda que muito precavido com cada passo que realizava em relação a eles, os deu o fogo. Ele armou uma fogueira logo após que os uminis foram postos na terra. Quando a fogueira foi criada, todos eles se impressionaram e então, quando aprenderam a utilidade daquilo, o deram nome e se aqueceram. Saireph os mostrou as árvores, e os alimentos e a madeira que ela provia, e então suas utilidades. Logo os onze se alimentavam e armavam suas pequenas casas com os artefatos presentes na fl oresta. Mas não só do fruto das árvores eles poderiam viver, então Saireph fez surgir nos quatro cantos da ilha diversos animais, que também podiam se reproduzir, assim os uminis poderiam aprender a caçar e conquistar seu próprio alimento com o tempo. Os uminis começaram a armar suas casas em volta da fogueira de Saireph, e começaram a explorar floresta afora, por madeira, animais, e para descobrir a terra em que viviam.
Com a fala que lhes foi dada, eles passaram a chamar a terra de Amät, e não só falavam dela como passaram a escrever, em pedra, na própria terra. A ilha de Amät, como Saireph havia designado, era rica em suas evédrias douradas e brilhantes; os uminis da ilha a idolatravam mais do que todo o resto. Algo mágico despertava a atenção deles na pedra que era inexplicável. Eles a chamavam de Éria. Com as ferramentas que puderam desenvolver com os anos, eles pudiam a minera-la, ainda que superficialmente, das regiões mais próximas, onde elas eram abundantes. A verdade é que a ilha inteira era obra de Saireph. Assim que Yoseraph o contou sobre seu planos sobre os uminis, Saireph iniciou secretamente sua construção, e não só os uminis de lá foram parte de seu experimento, como as próprias érias, que ele sem medida alguma espalhou por todos os cantos. Havia inclusive em um ponto, não muito distante daonde os uminis agora acampavam, uma grande rocha, como um monólito de alguns metros de altura, e que era inteiramente éria. Esse monólito brilhava intensamente e era um dos locais mais adorados pelos uminis de lá, o chamavam de montanha dourada, em sua linguagem. Essa imensa rocha de éria era fincada numa rocha natural, e se estendia numa porção de terra sobre um pequeno penhasco; esse penhasco caía por sobre as praias do oeste da ilha. Do alto do penhasco, onde podia-se ver bem de perto e até tocar na rocha que brilhava intensamente como Lotäi no céu noturno, de lá tinha-se uma bela visão das ondas do mar imenso que banhava as praias da ilha e que cobria grande parte de Hae. Então chegou o tempo em que os uminis começaram a se expandir, e os primeiros filhos nasceram. Entre os primeiros que nasceram, um deles foi o filho de Örlon, o qual ele deu o nome de Ömer. Até esse período, vários anos tinham já se passado, e Saireph continuava em estudá-los e observá-los, e eles progrediam, lentamente. Por obra de uma certa loucura que abateu sua mente, Saireph, considerando-os mais uma experiência do que uma criação, decidiu ir a frente e espalhá-los pelo resto de Hae. Pelas regiões de terras próximas a Amät, e outras não tão próximas, ele fez surgir outras colônias de uminis, da mesma forma como o fez com os da ilha. Uma coisa seria diferente para eles, no intanto, porque as terras eram muito maiores ao redor do globo. Da mesma forma, os fez surgir em grupos, providos das mesmas características, só que estes munidos de mais ferramentas que os ajudariam em seus desenvolvimentos. As érias de Saireph eram escassas em todo o resto da terra; As pedras mágicas de Yoseraph também não eram tão abundantes, pois sua grande maioria se encontrava nas terras do norte depois que foi-se feita uma esfera do plano médio de Hae. E mais tempo se passou. Uma nova geração já se elevava em Amät, com suas casas construídas em madeira e confortáveis, todas incorporando o princípio de uma pequena vila. Hae afora, os outros grupos de uminis espalhados também cresciam, e eles tinham alguns à disposição pedras, as quais usavam para construir, e caçavam e criavam animais para seu consumo e o consumo de todos os outros que habitavam aqueles locais. Exploravam a fauna e a flora, da qual tiravam parte de seu alimento, assim como tinta das plantas, das mais variadas cores, e as usavam como adornos em tudo o que podiam. Já em Amät, apesar de estarem atrasados, ostentavam uma forma de decoração muito mais rica, usavam as érias que tanto cobiçavam para enfeitar suas casas, suas roupas que eram feitas de pele de animais e plantas, como forma de dinheiro.
Um dia, enquanto observava os seres de sua ilha, teve a surpresa de encontrar Yoseraph novamente, depois de tempos sem o ver, tempos esses que não os demoraram tanto como para os uminis na terra.
– Eles crescem prosperamente. – Observou Yoseraph, enquanto também os observava.
– Sim, eles aprenderam os próprios caminhos de sobreviver na terra. É incrível. Assim como você mesmo preveu, eles estão crescendo e criando e modificando a terra. Veja só, já são várias casas e todos outros tipos de utensílios criados por eles mesmos sem minha ajuda.
– E a tendência dele é continuar crescendo, se espandindo – Olhou para Saireph – Até o dia em que esta ilha se tornar pequena e eles dominarem os mares, então dos mares para todo o resto, e Hae deixará de ser nossa. O meio final vai ser o dia em que destruirmos tudo isso de uma vez por todas e começarmos novamente.
– Não faríamos isso, eu não faria e não deixaria que você fizesse. Aliás, nem ao menos teríamos capacidade para tal feito!
– Eu vejo que criou grande apego pela terra. Você acha que ela é sua?
Nessa hora ambos já estavam afastados, o companherismo que havia por muito perdurado já era escasso.
– Depois de todo esse tempo que você esteve ausente, você não tem nada a proclamar sobre esta terra! E não se preocupe em esperar o dia em que a Hae que você tanto adora for dominada pelos uminis, pois eles já povoam grande parte dela!
Yoseraph após ouvir o que Saireph há muito guardava, o deu as costas em um estado perturbado e irritado de mente e voltou para seu domo. Saireph depois parou para tomar um momento e refletir sobre tudo. Tudo estava mudado. Parecia agora que o vislumbre original do Primeiro já tinha ido embora, desaparecido, e que a terra que há pouco era feita tão prosperamente, já não era de mais ninguém. Saireph retornou ao domo das sombras, onde agora passava grande parte de seu tempo, e decidiu passar seu tempo longe de tudo para entender tudo que se passava nos planos de fora.
Encerrava-se breviamente o tempo em que as maiores entidades do nün paravam para os outros planos viverem por si só, e agora iniciava-se a maior saga que ambos nunca podiam ter previsto, a saga dos Uminis em Hae.