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11 Agosto 2008
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Contos Estronhos -
Contos e Crônicas
Sholovat Yrkyalum era funcionária da Corporação Malkin, o grupo responsável pela produção de quase metade dos artigos consumidos na Galáxia, desde alimentos sapientes (moda entre os habitantes dos braços espirais galácticos) a implantes oníricos — usados, principalmente, pelos Farinads (“sonhos e pesadelos, a seu gosto!”, dizia a propaganda na OminiRede, vendidos para uma raça que há 1213 gerações perdera a capacidade de sonhar).
Sendo telepata, foi colocada no setor encarregado de produzir e monitorar software psíquico inteligente, que compunha a própria base da OmniRede. Era tarefa penosa, mas pagava bem e dava status.
Naquela vez, após cinqüenta e dois turnos seguidos, Sholovat conseguiu uma folga. Transferiu sua mente, que ficava na OmniRede enquanto ela trabalhava, e baixou-a para um dos trinta e dois corpos que utilizava. Escolheu o mais adequado para descansar.
O cansaço atingiu-a impiedosamente e ela adormeceu contra a vontade. Ao despertar, sentia-se revigorada. Como ainda lhe restava três fases-de-tempo antes de voltar ao serviço, decidiu visitar sua casa. Sentia saudades do lar e, acima de tudo, de seus quinhentos e doze filhos.
Sholovat jogou sua mente de volta à OmniRede e buscou outro corpo, um que havia deixado preparado em casa. O modo mais prático era esse: pela transferência mental chegou a sua residência quase instantaneamente. Se tivesse de usar uma espaçonave, enfrentaria uma viagem de, pelo menos, uma centena de fases-de-tempo. Numa galáxia dividida em castas, tinha pena das multidões de párias, incapazes de acessar a OmniRede, rejeitados por todos os outros grupos e condenados a viajar apenas fisicamente pelo universo.
Ela morava em Plactos-Zero-X, um dos trinta e dois mundos artificiais orbitando a estrela também artificial de Plondaxos-IX na área mais povoada da Galáxia. Logo, abriu os olhos em sua cama, no cubo de habitação que dividia com os filhos e outras vinte famílias. Era um corpo adorável aquele. Seu favorito. Uma obra-prima da engenharia genética. A sensação de estar nele era quase orgásmica. Se pudesse, passaria a vida toda ali dentro.
Cumprimentou um dos robôs que lhe servia de escravo. Fazia tempo que desistira dos servos orgânicos. Caros, frágeis e desobedientes. Achava uma estupidez a insistência daqueles liberais do Núcleo Galáctico nesse assunto.
Caminhou pela casa e foi até o quarto de Kyrlycrux, seu filho número 419. Seu preferido também. Ansiava muito abraçar aquela criança.
Mas logo, após cruzar a porta do quarto (feita de gelatina sapiente esverdeada, que se encolheu para dentro das paredes, deixando-a passar), pisou em algo mole e cheio de sangue. Muitas daquelas pequenas coisas estavam espalhadas pelo recinto. Contou mais de cinqüenta criaturas, algumas com braços ou pernas arrancados, diversas sem a cabeça e, em várias outras, todas essas partes estavam faltando. E havia muito sangue pelo chão e paredes, aquele sangue avermelhado fedendo a ferro. Um dos seres ainda estava respirando. Sem as pernas e braços e com um olho esmagado, ele gritava naquela língua estranha e incômoda. Numa mistura de pena e raiva, ela o esmagou com um pé.
Foi até Kyrlycrux. Sentou-se na cama e questionou com ternura o filho:
— Meu amor, por que você faz essas coisas com seus brinquedos? São caros, sabia?
A criança olhou para ela, com aqueles olhos grandes, redondos e alaranjados, que Sholovat tanto adorava, e apenas abraçou-a sem saber responder.
Nem a mãe sabia. Conversara com psicólogos, mas ninguém conseguiu explicar porque toda aquela hostilidade de Kyrlycrux. A ausência da mãe, querer chamar atenção... Uma centena de teorias e nenhuma resposta. Num povo pacífico, que abandonara o crime, a violência e as guerras, como era o dela, as atitudes do filho pareciam inexplicáveis.
A babá-robô veio e desculpou-se por ter deixado o pequeno fazer aquela bagunça no quarto. Sholovat vociferou que o autômato mandasse alguém limpar a sujeira. Decidiu que, pela manhã, a babá seria desmontada e vendida para a reciclagem. “O universo é um lugar injusto”, pensou “mesmo escravos robóticos não são perfeitos”.
Continuou abraçada a Kyrlycrux, enquanto cantalorava uma antiga música de ninar. Passou os olhos pelo quarto mais uma vez, para todas aquelas coisinhas nojentas sem braços, pernas ou cabeça.
Ia parar de gastar dinheiro à toa – jurou para si mesma. Nunca mais compraria humanos para Kyrlycrux brincar.
FIM
Dedicado a Davi Mello
Dedicado a Davi Mello
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Comentários
Beijos
Rita
Mas, por favor, o que significa "laranja/amarelo/rosa/azul"?
Beijos
Rita
Eu ri muito com o final..." Nunca mais compraria humanos para Kyrlycrux brincar"...
Parabéns, adorei o conto.
Beijos
Rita
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