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O Andaime (Sexo, blasfêmia e depravação) - Parte IV

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"Ao abrir os olhos a idéia da própria mortalidade lhe ocorreu como um flash lancinando em ondas de encefalia, desta vez causada pela própria morte violenta."
 

 

PARTE 4

O epílogo de José.

 

Eis o ponto em que paramos:

[...]José estava bem mais calmo e a solidão das alturas lhe passava uma tranqüilidade que há muito tempo não sentia. Ficou ali, curtindo aquela sensação, muito mais preparado para o que viesse a acontecer, sem expectativas, quando, de repente, algo começou a vibrar e apitar no bolso direito do macacão.

Ele havia esquecido do telefone celular…[...]

*                   *                    *

Um misto de raiva e desespero o paralisou por alguns segundos vitais. Praguejava contra a própria burrice e ao mesmo tempo esforçava-se por mover o braço. Estava por tempo demais naquela posição invertida, tempo demais exposto ao frio. O corpo já não obedecia aos mais simples comandos.

A mão, trêmula, alcançou com dificuldade o fecho de zíper; dentro do bolso o aparelho continuava a vibrar e apitar intermitentemente, mas os dedos dormentes estavam impossibilitados de sentir a pequena fivela,  tornando a tarefa de segurá-la quase impossível.

José se contorceu todo para olhar.

Um estalo na corda.

Conseguiu finalmente segurar a fivela, tentou movê-la, o zíper estava emperrado.

O celular parecia que ia explodir de tanto tocar. Mas o bolso teimava em não abrir.

Lembrou-se então de que para abrir ou fechar o zíper das calças sempre tinha de usar as duas mãos, de maneira que o fecho tinha de estar totalmente esticado, sem rugas, para que deslizasse. Empreendeu esforço homérico para levantar o outro braço, contorceu-se  ainda mais.

A corda estalou novamente.

Celular tocando, nervoso.

O zíper moveu um centímetro e meio e emperrou de novo. José forçou e a fivelinha saiu em sua mão:

—                  Maldição! Desgraça! Maldito seja!

Furioso, ele enfiou os dedos das mãos na pequena fresta do bolso e começou a forçar. Balançava e debatia-se perigosamente com o bolso nas mãos.

Crack... crack... O fio de segurança estalava e estalava.

Reuniu toda força que pôde e puxou os lados do bolso em direções contrárias: o fecho rompeu-se e abriu até o fim de uma só vez.

Escorregando de lá de dentro, o aparelho celular precipitou-se no abismo. Em um ato de desespero José se debatia e contorcia tentando aparar o barulhento artefato em sua queda, mas o aparelho teimava em escorregar e escapar por entre seus dedos até que estivesse terminantemente perdido.

Mesmo assim o lavador de janelas esticou-se  todo em uma última tentativa de agarrá-lo. Retesou a corda de segurança ao máximo e subitamente sentiu que estava esticando lentamente na direção do celular, era a corda de segurança desfiando e terminando de arrebentar... até...

Rompeu por completo.

José sentia as entranhas subindo-lhe à boca enquanto despencava, cada vez mais rápido, rumo ao destino fatal.

Ele nunca iria saber quem lhe havia telefonado àquela hora...

Nunca saberia que o telefonema era de sua esposa. Sua “Maria Madalena”! Viva, ligando, nervosa, para avisar que a polícia acabara de sair de sua casa após apreender um pacote lavado em sangue, com cinco quilos de cocaína roubada dentro e que estava escondido entre as suas ferramentas.

Nunca saberia que um “olheiro” do tráfico o havia visto esfaquear o garoto e roubar a droga. O mesmo “olheiro” o havia seguido até em casa após vê-lo entregar a carta na boca de fumo.

Nunca saberia  que o traficante preferira resolver o assunto de maneira limpa, através de seus contatos no departamento de polícia. A cocaína apreendida ficava como pagamento aos policiais e o mérito da prisão dava ao delegado uma aparência de competência em frente às câmeras de TV.

Nunca saberia que atitudes como essa do traficante compravam mais impunidade do que uma fachada de crente, trabalhador e pai de família.

Nunca saberia que sua derradeira conspiração havia fracassado pífiamente...

*                   *                    *

 

A queda infinita.

 

A calçada se aproximava rápido, rodando, José batia repetidas vezes de encontro à parede de vidro, onde tentava inutilmente se agarrar.

O mundo rodava...

...os jardins da entrada do edifício...

...a Avenida Paulista...

...o céu...

...o balde e o rodo...

...o celular...

...imagens que passavam como borrões estroboscópicos, as últimas em vida de uma alma condenada. Ele sabia que estava descendo para morrer, que estava dizendo adeus, ainda assim se agarrava àquelas imagens como se fossem as primeiras. Durante a queda ainda teve tempo de rezar uma última Ave Maria.

Pânico.

Pavor.

A calçada se aproximou, aproximou, e, finalmente chegou.

José mergulhou de cara no chão. Não morreu instantaneamente, pôde sentir a dor incomensurável dos ossos da testa esmigalhando e aprofundando no crânio, a espinha se partindo em cada vértebra, achatando-se.

Estertorou ainda por alguns segundos e morreu.

[...]

Ao abrir os olhos a idéia da própria mortalidade lhe ocorreu como um flash lancinando em ondas de encefalia, desta vez causada pela própria morte violenta... ...desta vez ele sabia que a dor seria eterna. Estava de pé sobre seu próprio cadáver. Não sentia paz, não... sentia pavor, angústia e asco enquanto olhava para o próprio corpo morto, todo quebrado como um boneco, afundado na  calçada, com o sangue e os miolos espalhados pelo chão.

Olhou em volta, e a Avenida Paulista, antes quase deserta, estava agora coalhada de pessoas, todas à sua volta, o olhando com olhares ávidos. Pessoas que não eram como as que estava acostumado, eram totalmente negras, sem luz, sem face, onde apenas se distinguiam os olhos vermelhos flutuando em meio à escuridão de breu e as bocarras escancaradas, com enormes presas pontudas e sangrentas, vociferando apenas o ódio. Avançavam em sua direção tentando agarrá-lo e a única coisa entre ele a multidão ensandecida eram algumas pessoas, diferentes das outras. Estas eram totalmente brancas, emanavam luz, e formavam uma corrente com as mãos dadas, e desta forma seguravam as negras para que não alcançassem José.

Mas esta situação não perduraria por muito tempo, ele sabia disso, podia sentir algo se aproximando, algo grande, o solo tremia ante sua aproximação, a cada passo que dava. Em um átimo as almas negras que estavam mais atrás começaram a voar pelos ares, como se estivessem sendo atiradas ao alto para dar passagem a um leviatã. Um rosnado e um latido grave podia ser ouvido cada vez mais alto. Por fim os espectros negros que estavam diante de José abriram caminho; alguns esmagados por patas poderosas, outros jogados para o alto, uns empurrados violentamente para o lado, outros ainda devorados por presas colossais.

Era um monstruoso cão negro, com três enormes cabeças chifrudas que devoraram as pessoas brancas com uma velocidade inimaginável, deixando o recém desencarnado instantaneamente sem defesa. Parou diante de José: a cabeça da esquerda arreganhava os enormes dentes, babava e rosnava furiosamente, chegou bem perto de sua face, podia-se sentir em seu bafo quente o fedor da eternidade. A cabeça da direita latia ameaçadoramente, com um ódio que poderia dilacerar toda a humanidade de uma só vez. Mas a cabeça do meio permaneceu altiva, séria: possuía em seus olhos escarlates uma sabedoria que poderia ser contada aos milênios. De sua testa emanava uma chama azulada que mão humana alguma jamais poderia apagar. Olhou gravemente, de cima para baixo, em uma atitude de superioridade e desprezo, e falou:

—                 José, filho de Jacó, meu nome é Cérbero, e estou aqui para te buscar.

*                   *                    *

 

 

 

© - 16-08-2006 Brunno Bocca . “O Andaime – o destino malfadado de José de Jacó.

® - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

(Todas as situações, logradouros, personagens vivos, mortos ou morto-vivos descritos aqui não têm qualquer relação com a realidade, qualquer semelhança é mera coincidência)

Comentários  

 
0 #1 desculpasBocca 30-12-2006 15:19
Peço desculpas pelo embuste do subtítulo (Sexo, blasfêmia e depravação). Fiz isso para testar uma teoria que vem sendo confirmada. Espero que isto não impeça o nobre leitor de continuar acompanhando a saga do lavador de janelas. Este foi meu primeiro conto de horror escrito realmente à sério e me deu muito orgulho o fato de ter sido premiado em um concurso literário na terra mãe de nossa língua. Humildemente envio as minhas escusas e o meu sincero agradecimento.
ass: Bocca.
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0 #2 Interessante.....Ana 02-01-2007 12:04
O texto é interessante, tem conteúdo e prende o leitor, levando-o ao local dos fatos.
Porém, exibe pontos contraditórios como o trecho do celular, que por duas ou três vezes nos dá a impressão de que o aparelho já está fora do alcance da personagem e no entanto o aparelho continua lá.
Mesmo assim, gostei muito.
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0 #3 a Anaboka 11-01-2007 16:11
Ana, muito obrigado pelos seus comentários, afinal eles, os comentários, estão cada vez mais raros aqui no Estronho. Muito obrigado também pelos elogios, fico feliz que tenha gostado. Mas, o mais importante foram as suas críticas, elas são indispensáveis para que possamos sempre melhorar a nossa escrita, vou anotar e ficar atento.
Um abraço:
Bocca
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