O Vento de Montese

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“Itália, 15 de abril de 1945.

Faço aqui mais uma parada para descanso. Estou exausto, com muita sede, mas não devo me entregar. Caminhei pelo menos uns quinze quilômetros por entre vales e campos e não encontrei viva alma para me acolher. Recebemos este pequeno caderno que escrevo agora para relatar o dia-a-dia no “front”. Era para ser um pequeno diário de guerra, um bloco de anotações do dia-a-dia, mas até agora estava completamente intacto perdido no bolso inferior esquerdo da gandola. Nunca houve interesse em registrar os horrores que tenho presenciado. Hoje, finalmente, apresento algo digno de ser contado. Eu, que fui praticamente obrigado por meu pai a conhecer tamanha abominação. Sempre fui da paz e pela paz. Patriota? É claro que sou, todavia poderia muito bem servir ao meu país de outras formas que não ingressar nas fileiras do exército. Ainda era um mero conscrito quando veio a maldita ordem. Meu nome estava na lista do próximo contingente a embarcar para Nápoles. Não tenho dúvidas que meu pai mexeu os pauzinhos. Pensei em desertar, mas logo lembrei de minha família e da grande desonra que daria ao meu pai. Simplesmente mancharia o nome e a tradição militar de gerações. Era inimaginável seu único filho homem não estar servindo à gloriosa FEB. Para ele, um militar de carreira, que lutara em duas revoluções ver seu primogênito em combate era motivo de enorme orgulho.

Acabo de avistar lá embaixo, no sopé da colina, um riozinho de águas límpidas e também algumas árvores frutíferas. Margeando o rio, uma estrada que segue por entre o sinuoso vale e a densa mata perdendo-se de vista.  Descerei por esta encosta e, depois de saciada minha sede e fome, aguardarei alguma guarnição motorizada ou mesmo um viajante que me leve próximo a alguma base aliada. Enquanto aguardo torno a registrar o peculiar incidente da última noite.

Pausa

Pela posição do sol já passa do meio-dia e eu não tenho a menor idéia de minha localização. Encontrei um bom lugar para descansar aos pés de uma frondosa oliveira e confiarei agora a estas páginas em branco um capítulo bastante insólito desta brutal e estúpida guerra. Fico com um olho na estrada e outro no diário. De antemão peço desculpas se por ventura cessar a narrativa subitamente, afinal não posso perder qualquer possibilidade de carona. Vamos aos fatos: Sou soldado (ou pracinha como nos chamam no Brasil) da 2ª Cia do 11º RI e ontem começamos uma pesada ofensiva contra os porcos nazistas que estrategicamente se postaram num pequeno vilarejo chamado Montese. Tal lugar fica em uma elevação bastante íngreme e onde o inimigo tem visão privilegiada lá do alto. Para nós foi dada esta árdua tarefa e, se conseguíssemos tomar a cidade daríamos um passo importante para libertar a região de Modena do domínio das tropas do eixo. Chegamos à Europa no final do ano passado em 19/12/1944. Fomos o último grupamento de artilharia a desembarcar e ontem, pela primeira vez, vi a cara da morte. Cercamos a cidade já sabendo de antemão a dificuldade que viria pela frente. Fomos alertados do enorme poderio bélico alemão e mesmo assim foi dada a ordem de avançar. Nosso major confiou-nos uma missão inicial. Eu, o Cabo Simões e mais um Sargento, por ordem deste, adentramos por uma viela muito escura. Já passava das nove da noite e entre a poeira e a fumaça distinguiam-se apenas sombras em movimento e o aço das baionetas. O estampido de balas e granadas já me eram comum aos ouvidos. Nosso objetivo era identificar certo prédio azul que continha muitos mapas com coordenadas de combate e razoável quantidade de munição. Depois de uma subida interminável e sufocante avistamos e logo identificamos nosso alvo. Após abalizar todas as entradas e outros detalhes da construção, a ordem era para retornar imediatamente e passar as informações ao Comando. Foi aí que nosso drama teve início. Uma patrulha alemã com pelo menos quinze homens descia em direção a Castel d’Aiano e reconhecendo o inimigo (nós), iniciou ferrenha perseguição. Nosso lema era nunca nos entregarmos, assim só restavam duas escolhas: Lutar ou fugir. Escolhemos a segunda opção. Cruzamos em disparada os limites da cidade seguindo por uma trilha desconhecida em direção a um penhasco próximo. Foi quando ouvimos os primeiros tiros, e não eram de advertência. Deitamos junto a pequenos arbustos a cinco metros do precipício a fim de nos resguardarmos e, de imediato começamos a replicar com nossos fuzis e com a metralhadora Thompson que nosso sargento empunhava impetuosamente. Um dos soldados alemães portava às costas um potente lança-chamas que empregou em nossa direção não conseguindo nos atingir. Em compensação o campo de batalha antes um breu, tornou-se iluminado como um palco de teatro e ficamos ainda mais vulneráveis. Sabíamos que a alternativa de rendição já não era viável, pois alvejamos pelo menos quatro ou cinco deles. A circunstância era a seguinte: De um lado um abismo tão profundo quanto o inferno e do outro uma tropa de nazistas sedentos por sangue aliado. Foi aí que ocorreu o fato mais extraordinário e que até agora não concebo explicação aceitável. Um vento muito forte e quente atingiu-nos bruscamente e paralelo a este, um clarão surgiu no céu deixando-nos todos petrificados. Nós e eles. Era como se a noite escura e fria se tornasse um dia claro de verão. As forças que me sobravam usei-as para contemplar a magnitude daquele brilhante objeto. Tinha o formato de um prato, e pelo menos a grandeza de um campo de futebol. Luzes coloridas de todos os matizes rodavam em sua extensão com se fosse um carrossel. E ao aproximar-se mais pude notar que sua superfície era como prata polida e que estávamos diante de alguma coisa que não era deste mundo. O Cabo Simões ao meu lado tremia tanto que parecia sofrer de convulsões. O prato voador deteu-se sobre nós e subitamente, desceu de seu interior um feixe de luz branco-azulada que me inundou o corpo e me paralisou por completo. Estranhamente, só a mim. Agora, nem que eu quisesse conseguiria escapar. Senti-me leve e sem peso e foi aí que notei que já não tocava mais o chão. Aquilo estava me sugando e não havia nada que eu pudesse fazer. Fui perdendo as últimas forças como se minha alma fugisse de mim. Ainda tive tempo de olhar meus inimigos lá embaixo e vislumbrar terror e compaixão em seus olhos. Meu corpo inerte ascendia de encontro ao objeto bem devagar e à medida que se aproximava fui perdendo a consciência até que apaguei. Despertei hoje cedo sobre um campo de girassóis com dia claro e os raios do sol fustigando minha face. Atordoado e muito confuso, agradeci a Deus por ter me livrado da morte certa. Não tenho a mínima noção do que aconteceu enquanto “dormia”, mas avaliando com mais calma o ocorrido tirei algumas conclusões. Acossados e prontos para o abate como estávamos, talvez tenha havido providencial intervenção divina. Mesmo para um quase herege como eu, sinto-me propenso a acreditar nisso.

Como havia escrito antes, desde que acordei pela manhã caminhei a esmo em busca de ajuda e até agora não encontrei ninguém. Também não lembro de ter passado por estas bandas desde que chegamos por aqui. Apurando os ouvidos, percebo neste instante o ruído de um motor. Interrompo aqui meu relato sob pena de perder uma oportuna carona. Prometo finalizar minha bizarra estória quando estiver em local seguro.

Pausa

Volto a escrever do interior do veículo que me socorreu. É um tipo de caminhão pequeno, bastante moderno e com a carroceria fechada. Nunca tinha visto modelo assim antes. O trajeto é bastante suave e quase não tem solavancos. O espaço apesar de limitado é ventilado e bastante iluminado. Até que estou confortável em meio a tantas caixas. Na cabine está o motorista e dois ajudantes. Pararam de imediato logo que me viram gesticulando aos berros no meio da estrada. Um deles me questionou sobre o que eu estava fazendo perdido no meio do nada e disse ainda que se eu quisesse, haveria espaço aqui atrás. É obvio que aceitei no ato. Não iria arriscar perder mais tempo. O condutor disse ainda que iam fazer uma entrega de rotina numa escola da região. Notei certa familiaridade no seu modo de falar e num ímpeto perguntei aonde estávamos. Sua resposta me deixou aturdido até agora. Disse que saíram de Carvalhal pela manhã rumo ao vilarejo de Santa Ana alguns quilômetros adiante. Tentei ser mais direto pedindo mais detalhes e descobri incrédulo que estava no norte de Portugal. A principio não acreditei, mas depois do episódio de ontem à noite, darei crédito até se me falarem que o próprio Presidente Getúlio veio pegar em armas ao nosso lado. Custa-me crer que estou a mais de dois mil quilômetros da minha unidade na Itália. Fiquei com receio e até certa vergonha de contar a verdade sobre como tinha chegado àquele lugar. Seria certamente tachado de louco. Pedi apenas que me deixassem em alguma base militar próxima. Até lá pensaria em alguma coisa para falar. Asseguraram-me não conhecer nenhum quartel na região e que no povoado eu poderia obter maiores informações. Pois bem, devemos estar quase chegando. Enquanto reflito sobre tudo o que aconteceu desde ontem, não posso deixar de observar bastante intrigado a carga empilhada à minha frente. Adoraria saber o conteúdo destas caixas todas. “A curiosidade matou o gato”, já dizia minha velha avó. Se não fosse tão leviano de minha parte abriria uma delas para satisfazer meu interesse. São vistosas e muito coloridas. Devem ter vindo da América, pois contém várias palavras em inglês: Dell, Mac, Windows 7 Ultimate, Microsoft  e outros termos desconhecidos para mim. Quando desembarcar não posso esquecer de perguntar aos simpáticos rapazes do que se trata.



C. R. Cassanoc

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