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Já Estive Aqui

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O casal estava procurando uma casinha de estilo. Queriam uma daquelas casinhas brancas, tudorianas, com a armação de madeira preta à mostra. Encontraram o que queriam. Era uma casinha do século XV, telhado de sapé, jardinzinho, como se vê em caixas de bombom. Até um laguinho com patinhos tinha. Casebre de sonhos, conto de fada, perdida e isolada, entre duas aldeiazinhas, também perdidas e isoladas, no meio da Inglaterra.

- Deve ter sido construida, lá por 1450, - disse o agente imobiliário abrindo o portão de madeira, - mas está muito bem conservada. O último morador fez reforma completa, canos e fios, pintura, até antena parabólica tem no quintal, vamos entrando faz favor.

Dentro era mais acolhedor ainda. A lareira grande tinha um pote de ferro enorme, o teto era baixo, a escada estreita, só dois quartos em cima, tudo torto, autêntico, velho. Os tapetes eram modernos.

- Não me sinto bem, Paul, vamos embora, - disse a mulher.

- Vou buscar um copo d'água. - A mulher foi atrás.

- Me sinto melhor aqui, - disse ela tremendo, branca, - mas vamos embora, não quero mais ficar aqui.

No carro ela se recuperou:

- Já estive naquela casa, - ela disse ainda com a voz tremida.

- Mary, você disse que nem conhecia Worcester, que nunca tinha estado para o norte de Oxford...

- É verdade, não sei explicar. Vamos embora para Londres.

- Mas você queria morar no interior, lugar quieto. Aqui é ideal, temos ainda umas duas casas para ver amanhã. Vamos aproveitar o passeio. Reservei lugar no hotel da aldeia, você está cansada. Essa coisa de ter estado num lugar antes, de ter visto alguma coisa, de se lembrar acontece com todo mundo, é sinal de cansaço, chama-se deja vu.

No hotel ela teve outro ataque. Pior. Desmaiou quando viu o moinho d'água. Chamaram o médico, deu calmante e pílula para dormir. De manhã, estava sentada no carro quando Paul acordou. Quieta, nem olhava para os lados.

- Já estive aqui também, - disse tremendo de novo.

- Está bem, vamos embora.

Quinze minutos depois, quando atingiram a estrada principal, ela começou a falar.

- Não tem nada que ver com o tal deja vu. Não estava cansada. Não foi só a sensação horrível, senti dor, senti frio dentro de mim, um medo terrível. Vi, vi mesmo a casa como devia ter sido antes da reforma. Não era branca, era de uma cor de barro vermelho, meio alaranjada. A porta da entrada não era a que usamos, era nos fundos. A escada ficava do outro lado também. Só a cozinha não me deu medo. O hotel meu deu pânico quando vi o moinho, se senti afogando, me faltou o ar, a árvore atrás do moinho me deu o frio dentro do estômago, foi quando desmaiei. Hoje vi que minha calcinha estava suja. Você não me trocou de roupa, verdade?

- O médico disse para não disturbar você, só tirei o sapato. 'Tá bom, não se fala mais no assunto. Vamos procurar casa perto de Londres.

Dois meses depois, Paul teve subir para o Norte, em viagem de negócios. Não resistiu a tentação de voltar à aldeia, tinha que dormir em algum lugar, ficou no hotel do moinho. Depois do jantar sentou no bar e puxou conversa.

- Hotel velhinho este, muito gostoso, cheio de personalidade, todas essas madeiras, o moinho lá fora... Gosto muito de prédios velhos, hoje em dia só constroem porcaria.

- E muita história para contar também, muita tragédia, - disse o velhinho, bebericando o uísque, acendendo o cachimbo. O dono ali, - apontou o homem atrás do balcão, - me pediu para escrever algo de assustar para botar na brochura do hotel, sabe como, é para turistas. Não gosto de inventar mentiras, fui à biblioteca, ao registro, folhei alfarrábios da Igreja também. Sabe o que descobri?

- Não, me conta.. Quer outro uísque?

- O senhor é gentil, obrigado. Pois este hotel, em 1670 era o Hall da aldeia, lugar onde se registrava tudo, nascimentos, mortes, propriedades. Era também o tribunal. Pois, em 1671, houve aqui julgamento sumário de uma mulher local, chamada Mary. Ela tinha cozinhado vivo o bebê dela, recém nascido, num pote de água fervendo, num casebre que fica há uns três quilômetros daqui, ainda existe, está à venda, chamam de Seven Oaks.

- Eu sei. Fui lá há dois meses com o agente para ver. Não gostamos. Continua faz favor, o que aconteceu com a mulher.?

- Foi condenada à forca. Antes da execução, amarraram a coitada de cabeça para baixo no moínho durante o dia todo, como tortura, cada vez que passava pela água se afogava um pouco. No fim do dia, enforcaram ela na árvore atrás do mínho. Acusaram a coitada de bruxa, hoje se sabe que é coisa médica - depressão do parto.

De volta ao quarto, Paul vomitou duas vezes, tomou dois Válios, mas mesmo assim não conseguiu dormir. De manhã, foi direto ao registro de imóveis da aldéia. Pediu para ver o registro do casebre chamado Seven Oaks. Tinham tudo arquivado, desde a construção original, reformas, extensões.A cozinha era uma extensão nova, construida em 1960. A porta ficava do lado do quintal de hoje. Tinha até uma aquarela pintada por um artista local. As paredes do casebre eram cor-de-laranja. Chamou o funcionário:

- Essa gravura aqui... a casa é alaranjada, nunca vi coisa assim, é branca hoje.

- Ah, essas casas de sapé do século XV eram todas dessa cor, era a cor do barro local. O reboque de cimento só foi inventado no século XVIII, só então é que começaram a pintar as casas de branco, pegou a moda, hoje quase não se encontra mais casas alaranjadas. É raridade, mas é bonitinha... o senhor vai comprá-la?

    Osmar Almeida Santos

Comentários  

 
0 #1 ElizabeteVisitante 11-03-2006 12:53
Muito interessante.
Deveria ter mais contos desse autor.
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