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O Tango. Um tipo musical e uma dança a par que mescla o drama, a paixão, a sensualidade e a agressividade.

O Sangue. Um tecido líquido que circula pelo sistema sanguíneo dos animais.

A semelhança entre o tango e o sangue é a força que estas palavras possuem. Quando se fala em sangue, uns dos pensamentos que vêm à mente são o corte e a morte, devido ao único modo do ser humano enxergar o líquido, ser quando este deixa um corpo, geralmente através de um machucado ou ferimento.

O tango, pela mente humana, é sempre associado à agressividade com que a dança é conduzida, pelas expressões dramáticas de corpo e face que os dançarinos demonstram no show; em consequência disso - da agressividade - o tango tem também, uma sutil relação com o sangue. Mas na trágica história que se passou comigo - que agora relatarei - essa relação entre as duas palavras, nunca antes houvera sido tão forte, presente e notável.

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Morava e ainda moro na Argentina, em Buenos Aires, onde o Tango é louvado. Chamo-me Esteban, sou branco, alto e tenho um corpo atlético. Porém, assumo que sou um cara desprovido de boa aparência. Tenho um enorme nariz e, como boa parte dos argentinos de minha idade - 25 anos - uso um corte de cabelo estranho, que é conhecido pelo nome de "mullets", curto na frente e comprido atrás. Sou um amante do tango, e um exímio dançarino da arte. Mas o amor que tenho por esta dança, não é nem de longe comparável à minha verdadeira paixão e razão da minha existência: Maria Laura. A dona do meu coração, do meu desejo, da minha felicidade, e da m inha alma. Eu era completamente vidrado nesta mulher; faria o que ela desejasse a qualquer hora e em qualquer situação. O poder que ela exercia sobre mim ao mostrar-me um simples sorriso era impossível de se explicar, medir ou comparar. Um sentimento além. Além deste mundo e além das palavras.

Maria Laura era alta, loira, tinha olhos castanhos esverdeados (os mais bonitos do mundo!), e um sorriso brilhante, cativante e apaixonante. Vivia perfumada, e era dona de um corpo fenomenal – pernas compridas e fortes, e uma cintura fina de causar inveja a qualquer mulher. Perfeita. Além de tudo, dançava com uma sensualidade sem igual. E foi assim – ao revelar estas digníssimas qualidades – que fez o meu coração balançar ao vê-la pela primeira vez, no salão.

Foi no dia 8 de julho de 2011, quando fui convidado para dançar tango no El Cabaret, em Puerto Madero, Buenos Aires. Eu nunca havia pisado naquele salão antes, e ao chegar ao mesmo, não fazia idéia de quem seria minha parceira de dança. Teríamos pouco mais de cinco meses para ensaiar para um grande show que seria realizado no dia 17 de dezembro. Não conhecia os demais dançarinos, mas tinha a certeza de que todos queriam fazer uma apresentação inesquecível; e com isso em mente, juntamo-nos animados para o primeiro dia de ensaios. Os casais começaram a agrupar-se e eu olhava em volta curioso querendo descobrir quem seria o meu par. E foi ne ste momento que ELA veio a mim para apresentar-se como minha parceira. Quando a avistei pela primeira vez meu coração parou de bater, devido à descrença no que estava vendo. Um ser tão exuberante e feminino que outrora já descrevi a vocês. Pouco depois deste breve momento de paralisia cardíaca, meu órgão voltou a bater, mas não normalmente, e sim com admirável força e descompasso. Maria Laura veio e se apresentou. Gaguejei na resposta, mas concluí com concentração. Trocamos informações sobre nossas vidas, e eu me deliciava a cada frase ditada por ela. Além de linda era inteligente! Assim como eu, gostava de ler, dançar e ouvir boa música.

Depois desse dia marcamos novo encontro num café. Lá nos conhecemos melhor e a intimidade começou a crescer. Passamos a tarde juntos, e na hora de nos despedirmos rolou o tão esperado beijo. Pedi o número de seu telefone, e liguei no dia seguinte. Fomos ao teatro mais chique de Buenos Aires assistir Hamlet. Ambos curtimos bastante a peça - apesar de já conhecermos a história. De lá fomos a um bar, bebemos, demos risada, e no clima de liberdade que o álcool nos oferecia, decidimos dormir em um motel. Foi maravilhoso. A melhor noite da minha vida! Amamo-nos loucamente durante horas, e depois desfalecemos juntos sobre a cama, abraçados de “ conchinha”. Acordamos após muitas horas de sono, então a levei até sua casa em meu carro humilde. Na hora da despedida não me segurei e lhe assumi que já a amava; ela retribuiu minha confissão com um sorriso e um “até amanhã”. Depois disso começamos a nos ver diariamente, e com o tempo comecei a perceber que parte de sua personalidade era misteriosa e sinistra. Ela começou a agir de maneira estranha, mandando que eu fizesse coisas sem sentido somente para se impor e demonstrar que tinha poder sobre mim. Porém, isso era uma coisa que ela sempre teve e teria, pois meu amor (fascínio) por ela era louco a tal ponto de me permitir facilmente ser subjugado e me tornar seu total escravo, se ela assim quisesse. Os dias iam passando e o desejo de Maria Laura de que eu me tornasse seu submisso só aumentava. Começou então, a obrigar que eu me ajoelhasse a seus pés e abaixasse a cabeça enquanto ela pedisse (obrigasse) algo para mim.

Tudo foi ficando cada vez mais radical, e depois de completarmos dois meses de união, ela exigiu algo completamente impróprio. Era um dia em que ocorria uma festa no meio da Avenida Corrientes, um dos locais mais movimentados da cidade, que era justamente onde ela morava. Exigiu ela, que eu me despisse completamente e saísse correndo porta afora pelo meio da avenida, e que fosse gritando feito um demente. Assustei-me e perguntei “Por que?”; ela não gostou de minha curiosidade e deu um tapa na minha cara. Com medo de que ela se enfurecesse comigo, ajoelhei aos seus pés e me desculpei. Fiz então o que ela desejava – tirei a roupa e corri pe lado pelo meio da festa que havia na avenida. A festa estava cheia de uma multidão que não estava acostumada com esse tipo de ação (loucura), é claro. A polícia estava no local e me pegou no flagra no meio deste ato de desrespeito social. Fui advertido, esmurrado, e preso.

Na noite em que eu dormia na cadeia, meus pensamentos só pertenciam a Maria Laura. Não consegui dormir pensando nela, e graças a deus fui solto no dia seguinte; assim pude correr de volta para seus braços. Sua recepção não foi como eu esperava – me bateu, disse que eu era tão burro de ser pego pelos policiais e que, como punição, merecia ficar cinco dias sem comer. Cinco dias! Nunca antes eu houvera ficado ao menos um sem me alimentar na vida. Porém, já que Maria Laura assim desejava, fiquei, é claro. Foi extremamente difícil, mas aguentei... Por ela. Depois de numerosas horas sem me alimentar, meu estômago começou a se retorcer por cada instante que passava. Sei que os seres humanos têm a capacidade de ficar um bom tempo sem alimento se estiverem bem hidratados, e essa foi a minha sorte. Graças a Deus a ingestão de água ela não me proibiu – pois se proibisse, eu teria obedecido e consequentemente falecido poucos dias depois. No fim do primeiro dia senti fraqueza e irritabilidade. No segundo e terceiro dias esses fatores se agravaram, além de começar a sentir certa confusão mental. No quarto dia tive diarréia, vomitei bastante, e meu batimento cardíaco tornou-se irregular. No quinto e último dia de jejum involuntário (ou voluntário, dependendo do ponto de vista), meu cérebro iniciou com pequenas alucinações, e também tive alguns espasmos musculares. No fim do quinto dia, enquanto eu encontrava-me deitado sem forças no canto da sala, Maria Laura chegou com um alfajor. Deu-me então a permissão de mordiscar tal alimento rico em carboidratos – do que mais meu corpo necessitava no mo mento. Devorei-o feito um louco e quis mais. Ela realizou meu desejo e fez diversos lanches para que eu me saciasse. Na certa, eu estava perdoado. Porém, os castigos, aflições e humilhações a que ela me submetia continuaram.

Quando íamos ao El Cabaret ensaiar para o show de Dezembro, ela humilhava-me perante os demais parceiros da dança. Mandava frequentemente que eu lambesse a sola de seu sapato sujo, me xingava e me batia, enquanto os demais presentes olhavam-nos chocados. Outra exigência que ela deixou bem claro era que, quando eu quisesse ir ao banheiro deveria solicitá-la e pedir a sua autorização. O tempo foi passando, sua loucura aumentando, mas meu amor por ela não diminuía. Num dia em que ensaiávamos no salão, senti forte desejo de urinar e fui perguntar a ela se poderia me aliviar no banheiro. Ela assentiu, eu fui, e quando voltei vi ela no meio do sa lão dançando junto a um sujeito cabeludo. Até então, ela apenas dançava, portanto não me enfureci, aliás, não me sentia capaz de cometer algo contra ela; muito pelo contrário, deixava que ela fizesse com minha pessoa o que bem desejasse - era um simples súdito desta minha rainha. Deixei pra lá o cabeludo que se encontrava ao seu lado e comecei a admirá-la ao longe. Ela dançava com tamanho encantamento que me deslumbrava a ponto de ficar olhando-a de boca aberta. Quando de repente, Maria Laura agarrou o sujeito pela cintura e tascou-lhe um beijo feroz. Ele, é claro, retribuiu o carinho. Enquanto eu olhava para aquela cena, transtornado, ela me enxergou por cima do ombro masculino em que se apoiava, fitou-me friamente, e depois me mostrou um sorriso. Humilhado, ao voltar pra casa não fui capaz de criticá-la, nem de tocar no assunto – o medo que sentia de perdê-la, se a mesma se irritasse comigo, era demasiado.

Faltavam apenas três semanas para o grande espetáculo, e nossos passos já estavam bem ensaiados; já éramos capazes de arrasar no palco! E em casa, quando voltávamos dos ensaios, a minha amada tornava-se cada vez mais criativa em descobrir novas maneiras de me submeter a ela. Colocou uma tigela no canto da cozinha e, me obrigou a tomar do leite neste recipiente, de cócoras no chão, feito um cão. Era rebaixado a ser seu animalzinho, mas eu não me queixava. E fazendo tudo que Maria Laura queria, dia após dia de humilhação, 17 de Dezembro chegou. O dia do tango.

Estávamos eu e minha deusa com nossos passos “nas pontas dos pés”; e iríamos ser, com certeza, uma das melhores duplas, se não a melhor. Minha única dúvida era: qual seria a nova loucura que minha devassa senhora inventaria no momento da dança. Pela primeira vez sentia uma apreensão que se aproximava ao medo; pois no fundo eu sabia, que por ser tão especial ocasião, nesse show ela faria algo muito mais radical comigo.

O salão estava iluminado por uma luz fraca – contrastando lindamente com o palco vermelho e chamativo –, que tinha o intuito de criar um ambiente charmoso e provocante. Tal luz que se espalhava de baixo para o palco dava uma atenção especial a nossos pés, então, pois, fazia com que o superior de nossos corpos fosse levemente ofuscado e sombreado perante os olhares da platéia - de propósito, é claro; o escuro deixava a apresentação com um ar insinuante. Posicionamo-nos todas as duplas em suas respectivas posições para iniciarmos o tão esperado show. O salão estava cheio, de uma platéia interessada, amante do tango e entendida do ass unto.

Começamos a dança. Nos passos executados com perfeição e em harmonia envolvíamos os espectadores. Dançávamos de corpos colados, e Maria Laura mostrava uma expressão facial provocante, olhando no fundo de meus olhos enquanto dançava. Nossas pernas moviam-se rapidamente, na mesma frequência - os dois para frente, os dois para trás, um para cada lado; eu agarrava-a e ela escorregava enquanto eu lhe segurava, depois trazia de volta com movimentos bruscos e firmes; ela girava, e voltava às minhas mãos, grudando o corpo no meu, com sensualidade. Os movimentos eram diversos, todos de acordo com o som dramático da música. Enquanto dançávamos , comecei a perceber que a cada instante que passava, a expressão visual de Maria Laura mudava; e eu não estava gostando da transformação de seu olhar. Quando estávamos perto do fim do espetáculo, ela tirou um objeto do busto enquanto rodava em minhas mãos, e antes de eu notar o quê era, quando a voltei ao meu encontro, ela enfiou o tal objeto em minha costela. A dor foi lancinante; e na afiação do golpe profundo, percebi na hora que se tratava de uma faca. Foi então que minha deusa colou ao meu ouvido e disse: “Continue dançando”. Obedeci. Devido à leve escuridão e ao tom acinzentado que o palco revelava de nossos corpos, aos espectadores, ninguém notou o acontecido (muito bem disfarçado por Maria Laura) e nem o sangue que aos poucos escorria por meus trajes negros. Íamos executando a dança, nos aproximando de finalizar o espetáculo. Eu me esforçava para agradar minha ama, porém estava difícil. Sentia uma tontura e uma fraqueza nunca antes sentidas , nem mesmo quando fiquei os cinco dias sem comer. Além disso, a dor. Estava insuportável e eu achava que ia desfalecer ali mesmo, mas, continuava dançando. Ora, minha deusa exigiu isso! Eu não poderia negar um desejo seu! Minha respiração estava encerrando simultaneamente com a música, e então, meu pulmão não mais trabalhava. Chegou o fim, e finalizamos o espetáculo com a bela posição antes elaborada: ela inclinada para trás, com o dorso dobrado, e eu por cima, com o peito sobre seu busto e a face por sobre a dela olhando no fundo de seus olhos. A música acabou, meus olhos fecharam-se, e eu faleci em cima dela, enquanto ela segurava o meu corpo desligado com todas suas forças, com a faca ainda pressionada na minha costela. Quando o som do tango findou e o espetáculo se concluiu, minha consciência já não mais existia. Estava morto.

Morto, sim, porém feliz por satisfazer os desejos insanos de minha amada, que exibia um sorriso doente e triunfante, enquanto meu sangue pingava por entre seus dedos, ao som das palmas da platéia inocente.


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