Sáb, 04 de Agosto de 2012 21:31
Última atualização em Sáb, 04 de Agosto de 2012 21:35
Escrito por Ronaldo Brito Roque - Rio de Janeiro, RJ
Quando a menina do espelho começou a conversar comigo, meu tio já tinha sofrido aquela crise, e fui esperta o bastante para não contar nada a ninguém. Eu não estava nem um pouco a fim de passar semanas numa clínica, depois viver entupida de comprimidos e ser tratada feito criança por todo mundo. Aliás, eu tinha entrado na adolescência, e tudo que eu queria era ser tratada como adulta. Falar sobre a menina do espelho, contar que ela me dava uns conselhos maneiros — embora às vezes meio radicais — seria praticamente pedir que me internassem. Eu acabaria que nem o pobre do tio Sélton, que agora não tinha emprego e ficava faland o para todo mundo que era artista. Por isso eu trancava a porta para conversar com ela, e não contei nem para a Juliana, minha melhor amiga, que a menina do espelho existia.
O que mais me impressionava nem era que ela morasse no espelho, mas que acertasse todas as previsões malucas que fazia. Ela foi a primeira a falar que minha mãe ia pedir o divórcio, e que minha irmã ia voltar do exterior ainda mais pobre que antes de sair do Brasil. Adivinhou que meu pai ia acabar se apegando a mim, porque ia ficar muito solitário depois da separação. Tudo isso aconteceu exatamente do jeito que ela falou.
Eu ficava súper contente em ter uma amiga daquelas, e morria de vontade de contar para as meninas. Mas aí eu lembrava do tio Sélton, e tratava de ficar calada. Eu adorava minha amiga secreta, e logo percebi que o silêncio era o sacrifício que eu tinha que fazer para continuar a vê-la.
À medida que fui crescendo, comecei a consultá-la para coisas cada vez mais sérias. Quando fiz dezoito anos, por exemplo, todas as minhas amigas já tinham silicone, e eu sentia que também já estava precisando. O que não tinha crescido até os dezoito, provavelmente não ia crescer depois. Meu pai, naquela época, andava um amor comigo, adorava me encontrar nas baladas e ser apresentado às minhas amigas. Claro que elas não queriam nada com ele, mas eu falava que elas o achavam um coroa muito fofo, e ele ficava rindo que nem sambista de televisão. Para minha surpresa, ele não se opôs à cirurgia, apenas perguntou se dava para parcelar no cartão de crédito. Minha mãe é que ficou contrariada, e começou a jogar uma conversa pessimista para cima de mim. Tentou me fazer medo, disse que o silicone podia estourar, que ia prejudicar a produção de leite, que podia tirar a sensibilidade do mamilo. Hoje sei que era tudo mentira, mas na época eu fiquei assustada, e fui correndo consultar a menina do espelho. Como sempre, ela foi bastante lúcida. Explicou que minha mãe estava era morrendo de inveja, porque meu pai pagava tudo para mim, e para ela não estava dando nem presente de aniversário. Falou que os meninos iam me dar muito mais atenção, e isso ia botar minha autoestima lá nas alturas. Não demorei a perceber que ela tinha toda razão. Coloquei apenas trezentos mililitros em cada seio, mas isso bastou para que mil garotos pedissem meu telefone, e falassem de mim o tempo todo, como se eu fosse uma dessas mulheres do Big Brother. Todo dia eu agradecia à menina do espelho, e ela ficava me elogiando e me olhando com tanta atenção que cheguei a pensar que ela podia ser bi. Mas eu não tinha que me preocupar com isso, afinal, ela morava no espelho, e de lá não dava nem para me passar a mão.
No entanto foi só eu pensar nisso que comecei a sentir pena. A coitada ficava enclausurada naquele espelho, não podia ir para a balada, não pegava ninguém, não tinha com quem conversar, a não ser comigo. Sinceramente, eu morria de dó. Às vezes, no meio de uma balada ou de uma festinha, eu ia para o banheiro e contava para ela tudo que estava acontecendo, só para ela se distrair um pouco. De início ela gostava, me ouvia com atenção, e fazia observações interessantes sobre as minhas aventuras. Mas depois ela começou a falar umas coisas estranhas, ficava me depreciando, enxergava defeito em tudo. Quando eu contava que algum carinha estava me cantando, ela perguntava:
— Você ainda gosta disso? Não está cansada desses joguinhos?
Quando eu falava de alguma briguinha com a minha mãe, ela apelava:
— Você ainda não percebeu que ela quer você saia de casa? Você não está muito velha para morar com a mamãe?
Eu achei que ela estava ficando muito amarga, por isso nem comentei quando conheci o Fernando. Ele era mais velho, tinha um Audi, e trabalhava de executivo numa importadora. Eu não sabia direito o que era executivo, mas nem quis saber quando vi o apartamento lindo que ele tinha no Leblon. Era um quarto e sala súper espaçoso. No quarto tinha cama de casal, e no banheiro tinha até bidê. No dia que a gente transou no sofá, eu fiquei pensando: “Nossa, como essa sala é grande! Se eu morasse aqui, com certeza poderia trazer minhas amigas para ver um filme.” Quando a gente transou na cama de casal, eu estiquei bem os braços e fiquei passando as mãos no lençol. Ele deve ter achado que eu estava gozando, mas eu estava era medindo a largura da cama, e pen sando que dava tranqüilo para a gente dormir ali sem incomodar um ao outro. Minha alegria culminou no dia que dei uma desculpa para ir à cozinha, e abri a geladeira dele. Meu Deus, tinha tudo que eu adorava: palmito, tomate seco, mussarela de búfala! Desde aquele dia foi como se eu estivesse apaixonada, porque comecei a pensar só no Fernando, a sonhar com o Fernando, e a tentar fazer absolutamente tudo para agradar o Fernando — incluindo engolir um bocado de sêmen. Não importava se ele não fosse o homem da minha vida, ele era a porta para o apartamento da minha vida!
Mas não fui boba de contar essas coisas para a menina do espelho. Do jeito que ela andava amarga, com certeza ia me encher de críticas. Ia falar que eu não amava o Fernando e via nele só uma solução para sair da casa da minha mãe. Ia inventar que ele também não me amava, e estava apenas obcecado pelo prazer que eu lhe dava na cama. Para evitar essas discussões, passei a só cumprimentar a menina do espelho, e quando ela me perguntava alguma coisa mais íntima, eu dava uma desculpa, e virava as costas. Eu já era uma adulta, estava na hora de tomar minhas decisões sozinha.
Fiquei um tempão sem falar com ela, e não contei como foi o meu casamento, nem como minha mãe ficou contente quando eu me mudei. Não confessei minha enorme decepção com a minha mãe, que nem queria saber se eu estava feliz, só estava louca que eu achasse outro lugar para morar. Não falei das inúmeras piadas que minha irmã ficou fazendo, só porque o Fernando era quase vinte anos mais velho que eu. E também enfrentei calada o preconceito das minhas amigas, que diziam que, se elas quisessem coroa, era só estalar o dedo que vinham duzentos. Eu não me ofendia com esse papo. Elas até podiam pegar coroa, mas quantos queriam levá-las para morar com eles? Eram umas burras, umas fúteis, não sabiam fazer um ravióli ao molho de funghi ou um petit gâteau com sorvete. Tinham nascido para aqueles burros malhados que só serviam para motobóis. Mas não comentei nada disso com a menina do espelho, porque eu sabia que ela ia me chamar de arrogante, e talvez até insinuar que eu não era assim tão diferente das minhas amigas.
Fui perdendo o contato com elas, e comecei a gostar de literatura. Passei a ler uns livros antigos e demorados que não tinham nada a ver com vampiros ou lobisomens. Descobri um monte de mulheres que tinham vivido os mesmos problemas que eu, e aquilo me deu um tremendo alívio. Ler era bem mais seguro que falar com o espelho, porque eu podia ver os problemas dos outros, sem que ninguém visse os meus. Acho que esqueci completamente a menina do espelho, de tão fascinada que eu ficava com aquelas histórias de jovens que queriam casar, e casadas que queriam ter amantes.
Nessa época, o Fernando adorava a minha comida, e falava que eu não precisava trabalhar, que eu devia ficar só cozinhando e cuidando da casa. Se eu aceitava essa idéia, era porque queria ler cada vez mais, e depois fazer uma faculdade de Psicologia ou Letras. Mas, às vezes, a leitura ficava chata, e eu comecei a entrar na internet, e puxar assunto com estrangeiros. Pensei que o Fernando nunca ia ter ciúme de estrangeiro, porque um cara que estivesse do outro lado do mar podia até me cantar, mas não poderia nem me encostar a mão. Eu só conversava com eles para praticar meu inglês e pedir dicas de livros. O problema é que pintavam uns caras meio depravados, que pediam para eu fazer umas coisas indecentes. Uns queriam que eu ficasse só de calcinha, outros pediam que eu me masturbas se na frente da câmera. Claro que eu me recusava. Confesso que algumas propostas chegaram a me excitar, mas eu não estava nem um pouco a fim de entrar em crise com o Fernando, e ter que voltar a morar com a minha mãe. Quando eles vinham com aquele papo estranho, eu desconversava e começava a falar sobre livros. Foi assim que fiquei sabendo da Jane Austen, da Emily Brönte, e de outras mulheres que pareciam bem mais infelizes que eu. Depois alguém me indicou umas autoras iranianas, e quando li os livros delas, aí sim, me senti satisfeitíssima com a vida! Meu Deus, como tinha mulher infeliz no mundo. E eu tinha aquele apartamento arrumadinho, morava no Leblon, ia ao cinema todo sábado. Só sentia falta de sair para dançar, mas isso eu resolvia colocando uma música bem alta para arrumar a casa. Comecei a me sentir bem comigo mesma, e até pensei em voltar a falar com a menina do espelho, só para ter uma companhia.
Mas eu não devia ter pensado nisso, porque umas coisas muito estranhas começaram a acontecer. Já no dia seguinte recebi uns e-mails de caras da internet, agradecendo minha perfórmance, dizendo que eu tinha arrasado, que tinha sido incrível para eles, e não sei mais o quê. Eu não fazia idéia do que eles estavam falando, e achei que eles tinham pirado de ficar tanto tempo no computador. Mas toda semana chegavam mais e-mails, pedindo para eu fazer mais, alguns oferecendo até dinheiro, e fiquei feito louca perguntando o que estava acontecendo, de que diabo eles estavam falando. Quando um cara me contou, eu simplesmente não acreditei! Lógico que não era eu! Ou eles estavam me confundindo ou era uma puta alucinação coletiva. Mas log o me bateu uma intuição de que a menina do espelho podia ter alguma coisa a ver com aquilo. Fui correndo no banheiro tirar satisfação com ela.
— Pode aparecer e me explicar tudo que está acontecendo — eu mandei.
Nem acreditei quando ela admitiu tudo sem a menor vergonha. Fiquei arrasada. Eu não conhecia esse lado pervertido dela.
— Coitados desses moleques — ela alegou. — Eles são uns nerdes, nunca devem ter visto uma mulher pelada. Quê que custa mostrar um pouquinho para eles?
— Ah, você é louca, é?! Você vai me dizer que usou a minha imagem para ficar se exibindo pela internet?!
— Lamento muito, amiguinha; mas a imagem que eu tenho é essa. Não posso usar outra nem seu eu quiser.
Mas ela falou aquilo de um jeito que quase me matou. Uma satisfação maldosa, misturada com escárnio. Percebi que ela tinha prazer em se passar por outra, em poder ser uma completa fraude, sem levar culpa nenhuma por isso. Me subiu uma raiva tão grande que, se ela não estivesse fechada dentro daquele espelho, eu tinha enfiado a mão na cara dela! Foi aí que eu lembrei que ela morava dentro do espelho. Como é que a safada tinha entrado na minha webcam? Perguntei na mesma hora, e tive que engolir um papo suspeito.
— Eu não moro só no espelho — ela falou. — Eu posso me projetar em qualquer superfície plana que produza uma imagem dotada de sentido. Os monitores são superfícies planas, e produzem imagens que... bem, você entendeu, não é?
Mas eu não tinha entendido direito. Que papo era aquele? Superfície plana, imagem dotada de sentido?! Além de safada, a putinha agora era filósofa?!
Fiquei meio transtornada, e passei dias sem usar o computador. Meu medo era que o Fernando descobrisse alguma coisa, e achasse que a culpa era minha. Tive ódio da menina do espelho, não era justo que aquela loucura toda pudesse acontecer. Ela podia aparecer em qualquer tela por aí, e todo mundo ia achar que era eu. Quando eu pensava nisso, ficava súper tensa, e comecei a buscar mais e mais sexo com o Fernando, para ver se eu relaxava. Aliás, depois que a gente se casou, ele já não fazia muito, e aquilo às vezes me incomodava. Não que eu gostasse de sexo, porque eu não gostava; mas era uma das poucas coisas que me deixavam com uma sensação de dever cumprido. Eu não trabalhava, não estudava, passava os dias lendo e acessando a internet. Quando fazíamos sexo, eu pensava: “Pelo menos isso eu sei fazer. Pelo menos consigo satisfazer meu marido.” Mas o problema é que ele já não estava querendo, e aquilo acabava me deixando nervosa. Um dia insinuei que, de vez em quando, ele bem que podia tomar um viagra. Eu não conhecia tão bem os homens, e não sabia que falar uma coisa dessas era suicídio.
A partir daquele dia, tudo mudou no nosso casamento. O Fernando passou a ser ciumento, me ligava toda hora para perguntar onde eu estava. Quando a gente ia numa festa, ele ficava me olhando de longe, depois falava que eu tinha olhado para fulano ou ciclano. Claro que era tudo loucura da cabeça dele, e eu ficava puta de ter que me explicar mil vezes, falar que eu o amava, pedir perdão o tempo todo pelo papo do viagra. Fui ficando cansada, e me sentindo cada vez mais incompreendida. Agora eu não tinha nem a menina do espelho para me entender. Mas o pior era que eu nem podia me separar. O apartamento era dele; se eu pedisse o divórcio, ia ter que voltar a morar com a minha mãe. Tudo era aceitável, menos conviver com aquela maluca, principalmente agora que ela tinha arrumado um namorado mais novo, e estava matand o a família de vergonha. O jeito era tentar um emprego, e eu sabia que nunca ia conseguir um bom salário, porque não tinha faculdade. Mas era a minha única alternativa. Talvez juntando por uns dez anos, eu conseguisse comprar um apartamento, e ter uma vida só minha. Eu queria esquecer o Fernando, com aquele ciúme doentio, e esquecer minha mãe, com aquele egoísmo, sei lá, doentio também. Aí entrei na internet e comecei a me inscrever nos saites de emprego. De repente, quem apareceu no meu monitor e começou a falar comigo? Sim, ela mesmo, a garota do espelho. Lembrei daquele papo sobre superfície plana, e falei que era melhor eu começar a chamá-la de menina 2D.
— É mais apropriado mesmo — ela falou. — E mais contemporâneo também.
Não sei de onde a putinha tirava essas palavras. Eu ainda estava meio irada com ela, mas não estava a fim de brigar. Naquela situação deprimente, talvez até ela pudesse me ajudar. E acho que ela adivinhou esse pensamento, porque do nada resolveu me passar os endereços de alguns saites.
— Entra nesse aqui, ó: stripweb.com E neste: meancams.com.
Quando acessei os saites, me arrependi na hora de ter dado papo para aquela vadia. Era só mais uma das suas idéias pervertidas.
— Você acha que eu sou que nem você, sua louca?! Acha que eu vou fazer strip pela internet, só para ganhar dinheiro?
— Não é só strip — ela falou. — Tem que se masturbar também.
Eu nem respondi. Desliguei o computador e fui para a cama chorar. Eu estava arrasada. Meu casamento era um fracasso, eu não tinha uma carreira, e minha única amiga, que me conhecia desde criança, estava sugerindo que eu me tornasse uma espécie de prostituta virtual. Chorei sem parar, depois fiz uma maquiagem meio trash, para o Fernando não descobrir que eu passei a tarde chorando. Mas justamente nessa hora ele me ligou para falar que tinha um lance complicado rolando lá no trabalho, e que ele ia chegar súper tarde. Aí voltei para o computador e olhei de novo aqueles saites. Meu marido bem que estava merecendo um chifrezinho. Ele não me amava, não ligava nem um pouco para meu estado emocional. Quando vi que uma m enina podia ganhar uns trezentos por dia, só fazendo aquelas bobagens, eu quase caí para trás. Meu Deus, trezentos reais por dia! Em quanto tempo daria para comprar um apartamento?! Mas eu não podia fazer aquelas coisas, não tinha nada a ver comigo. Mostrar os peitos e me masturbar na frente da câmera?... Eu nem gostava de me masturbar! Foi então que me veio aquela idéia incrível. Uma ideia redentora, ousada, original... uma ideia que me mostrava como tirar partido daquela situação absurda. Eu não era safada, não gostava daquelas indecências, mas ela gostava. Se eu entrasse no saite, e ficasse só conversando com os meninos, aposto que a menina 2D ia se excitar, e fazer um monte de loucuras. Ela podia se dar ao luxo desses descaramentos, porque a culpa sempre cairia em cima de mim. Mas a culpa agora era uma transferência para a minha conta corrente.
Vasculhei os saites, peguei todas as informações. No dia seguinte abri a conta. Mas continuo com a minha política, e não faço nada daquelas bobagens. Eu só entro no saite e fico conversando sobre Jane Austen e mulheres iranianas. E ela faz o que gosta de fazer.
Voltamos a ser amigas, e nunca estive tão feliz por conhecê-la. Acho que a menina 2D finalmente se tornou, para mim, uma imagem dotada de sentido.
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